Oposição rebelde síria furiosa com acordo sobre a criação de "zonas de segurança"

Irão, Turquia e Rússia assinaram esta quinta-feira, no Cazaquistão, um acordo que prevê a criação de quatro "zonas de segurança". Os representantes dos rebeldes opositores a Bashar al-Assad retiraram-se da conferência em protesto.

Representantes da opoição rebelde armada nas conversações em Astana
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Representantes da opoição rebelde armada nas conversações em Astana Reuters/MUKHTAR KHOLDORBEKOV

A Rússia, o Irão e a Turquia assinaram esta quinta-feira, em Astana, no Cazaquistão, um acordo para criar quatro “zonas de segurança” na Síria. Os representantes das forças de oposição ao regime de Bashar al-Assad protestaram contra a formalização e retiraram-se em protesto da cerimónia.

A delegação representante dos rebeldes saiu da conferência em Astana afirmando que nunca irá aceitar que o Irão seja um protector militar do processo de paz. Antes, na quarta-feira, a oposição tinha iniciado também um boicote às conversações no Cazaquistão exigindo à Rússia e ao Governo da Síria que cessem os bombardeamentos. Esta quinta-feira regressaram à mesa das negociações, afirmando que tinham recebido “novas garantias”, como cita a BBC. No entanto, ainda não se sabe até que ponto a recusa dos rebeldes poderá colocar em causa o acordo estabelecido.

Estas negociações em Astana envolvem os grupos militares que se opõem a Assad e têm como objectivo reduzir a violência na Síria e garantir que qualquer cessar-fogo acordado seja garantido, ao contrário do que tem acontecido até aqui. Em meados de Julho haverá mais uma reunião na capital do Cazaquistão. Em Maio, e com a presença da oposição política ao Governo sírio, começarão negociações paralelas, desta vez em Genebra, e que se centrarão numa solução que termine em definitivo com o conflito que se estende há seis anos e que já originou mais de 400 mil mortos.

O acordo agora estabelecido surgiu de uma proposta de Moscovo e que contemplava a criação de quatro “zonas de segurança”. Uma no território controlado pelos rebeldes na província de Idlib, outras em algumas partes da província de Homs, no centro do país, outra numa região no sul da Síria e no enclave da oposição rebelde de Ghouta, próximo da capital Damasco, dá conta a AFP no Twitter. Praticamente todas as regiões são controladas pelos rebeldes, o que foi outro dos motivos para o protesto dos seus representantes, que questionaram porque é que esta medida não é estendida a todo o território sírio.

Como explica a agência francesa, estas zonas serão cercadas por postos de controlo geridos por rebeldes ou pelas tropas governamentais. Os militares estrangeiros podem ser deslocados como observadores.

Por outro lado, o jornal russo Kommersant teve acesso a um memorando de três páginas saído da reunião de Astana. Aí diz-se, cita o Guardian, que será proibida a utilização de qualquer armamento nestas zonas, para que seja possível iniciar a reconstrução de edifícios, a restauração de serviços essenciais, providenciar o regresso de refugiados a casa e a entrada de ajuda humanitária.

Osama Abu Zaid, um porta-voz do Exército Livre da Síria, grupo opositor a Assad, afirmou: “Nós exigimos a garantia da entrada de ajuda, a libertação imediata dos detidos e a cessação das hostilidades”, cita o Guardian. Zaid garantiu ainda que a organização, composta maioritariamente por antigos soldados do exército sírio que se rebelaram contra o Governo, rejeita “qualquer iniciativa ou acordo político ou militar que não seja baseada nas resoluções da ONU”.

Apesar de o acordo ter sido assinado por apenas três dos intervenientes, é praticamente certo que as grandes potências militares envolvidas na guerra – Irão, Rússia, Síria, Turquia e os EUA - apoiam a medida. No caso americano, já existiu alguma relutância em aceitar a proposta russa de criação destas “zonas de segurança”. Mas, à medida que as negociações foram avançando, Washington mostrou-se mais aberta a aceitar a medida. E numa conversa com Vladimir Putin, e segundo foi noticiado esta quarta-feira, Donald Trump terá concordado com a criação destas zonas de desarmamento.

O enviado especial da ONU para a Síria, Staffam de Mistura, que se juntou às negociações esta quinta-feira, mostrou satisfação com a assinatura do acordo: “Hoje em Astana pensamos que testemunhámos um passo importante, positivo e promissor na direcção certa”.

Apesar de o Governo de Assad não ser um dos signatários do acordo, o ministro dos Negócios Estrangeiros sírio garantiu que o regime apoia a iniciativa. No início deste ano Bashar al-Assad afirmou que a “ideia não é realista de todo”. Ou seja, o regime parece ter feito uma importante cedência no que a esta matéria diz respeito.

Apesar da importância reconhecida pela maioria das partes no conflito, e na mesa das negociações, a criação de “zonas de segurança” não garantirá o final do conflito armado na Síria, mesmo que seja perfeitamente colocada em prática. Isto porque é até previsível que os combates contra, por exemplo, o Daesh, continuem noutras regiões do país.