Câmara quer tirar autocarros de turistas das portas dos Jerónimos antes do Verão

A falta de confiança dos utentes na Carris levou a autarquia a criar uma aplicação com informação em tempo real sobre os autocarros da empresa municipal. Requalificação da Linha de Cascais e ligação da zona ocidental à Linha de Cintura são questões que a câmara promete negociar com o Governo.

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PEDRO CUNHA / PUBLICO

Podem deixar e recolher turistas, mas os autocarros turísticos vão deixar de poder permanecer estacionados em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. A câmara da capital quer, “ainda antes do Verão”, que o estacionamento destes autocarros seja colocado fora daquela zona. Melhorar a circulação e reduzir a pressão turística nesta área de Belém são os objectivos da medida, anunciada esta quarta-feira pelo vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, durante a reunião descentralizada do município.

Perante os munícipes de Belém, Ajuda e Alcântara, o vereador referiu ainda que está nos planos futuros da autarquia intervir no Largo do Mosteiros, de forma a “tratar com outra dignidade esse espaço”, e na Rua de Belém, contígua, que termina no Jardim Afonso de Albuquerque. Estes projectos começaram a ser pensados e darão seguimento ao, em breve apresentado, projecto de intervenção na Praça do Império.

A mobilidade urbana, e as dificuldades associadas, foram o tema quente da reunião descentralizada desta quarta-feira. A Carris voltou à baila, levando o presidente da câmara, Fernando Medina, a concordar com as queixas dos munícipes relativas à quebra na qualidade do serviço de transporte nos últimos anos e a necessidade de reforço das carreiras de bairro, em particular na freguesia da Ajuda.

A falta de confiança dos utentes na empresa de transporte público, municipalizada há três meses, levou a autarquia a criar uma aplicação da Carris para tornar “credível” a informação sobre o serviço de transportes. Horários actualizados, informação sobre falhas e atrasos no serviço vão estar disponíveis na aplicação que está a ser preparada. Dados disponibilizados em “tempo real”, garantiu Fernando Medina, o que hoje não acontece.

Todos os munícipes da Ajuda que intervieram bateram na mesma tecla: há uma “carência evidente” na oferta de transportes na freguesia, em particular de noite, o que contribui para o isolamento, em especial da população idosa. Uma “questão que está muito sinalizada” pela Carris, garantiu Medina. Esta foi uma das várias questões de mobilidade que o autarca garantiu ser “uma das prioridades” da nova gestão. O autarca lembrou que está em andamento um levantamento das “prioridades para serem activadas” nas carreiras de bairro, de forma a reactivar as supressões dos últimos anos.

O problema, para os munícipes, não é novo. “A Ajuda tem problemas de transportes há muito tempo. A Ajuda nunca foi uma freguesia muita simpática para as administrações da Carris”, acusou Vítor Pereira, morador na zona e trabalhador da empresa de transportes há 35 anos.

O munícipe de 62 anos afirmou que gostava de ver o eléctrico a passar em frente ao Palácio da Ajuda, uma ideia que não teve a oposição de Fernando Medina. O autarca disse simpatizar com a integração do eléctrico como meio de crescimento da freguesia da Ajuda.

Na sequência, o presidente da câmara adiantou que o eléctrico “deve retomar o seu papel na cidade de Lisboa”. Sem se comprometer com promessas imediatas, remeteu a questão para o próximo programa de actividades da Carris, onde a ampliação da oferta do eléctrico estará contemplada, garantiu.

Pressão sobre a linha de Cascais

Por atravessar um “processo de degradação muito profunda”, a linha de comboio de Cascais, que liga esta estação ao Cais do Sodré tem vindo a perder passageiros. Disse-o Fernando Medina, acrescentando que a “requalificação da linha” é outra das prioridades para o município.

O executivo referiu que a questão tem sido discutida com o Governo, que tutela a empresa Comboios de Portugal (CP). Em cima da mesa de negociações está também a criação de uma ligação de Belém à chamada Linha de Cintura – que liga as estações de Alcântara-Terra a Braça-de-Prata. A inclusão de Belém no caminho ferroviário que liga, entre outras estações, Campolide, Sete Rios, Entrecampos, Roma-Areeiro e Oriente iria melhorar a mobilidade “de forma verdadeiramente impressionante” na cidade, classificou Fernando Medina.

As iniciativas reuniram a aprovação dos presidentes da junta de freguesia, que pedem celeridade no processo, e dos vereadores da CDU, apesar de reflectirem “questões sempre adiadas”. Para João Ferreira, candidato pelo partido à câmara de Lisboa, “lançar a rede de metro para onde ela não existe” é também uma prioridade. O comunista não compreende porque é que o Governo optou pela extensão do metro para Santos e Estrela, em detrimento das três freguesias mais ocidentais da cidade.

Neste ponto, Medina considera que a ligação da zona ocidental da cidade à linha de Cintura resolveria a questão, “rentabilizando” os recursos disponíveis.

Sobre a política de preços da empresa municipal, a CDU queria que “as políticas fossem mais ambiciosas”. João Ferreira propõe uma redução do preço do transporte público que reverta “os aumentos brutais feitos pelo anterior governo”.

Depois de Alcântara, obras seguem para a Ajuda

Fernando Medina recordou as obras que a autarquia planeia iniciar após 2017 na freguesia da Ajuda, inseridas no programa uma Praça para Cada Bairro: pedonalização e requalificação do Largo da Boa Hora e do Largo do Rio Seco. O projecto vai ser apresentado este mês.

Estas obras vão permitir reabilitar a zona onde será colocado o centro de saúde de freguesia, onde é hoje o posto de limpeza. Já o equipamento de saúde de Alcântara será instalado no centro de apoio da Carris, nesta freguesia.

Nota ainda para as obras nas Avenida Helen Keller, na Ajuda, a iniciar a obra em Julho, adiantou o vereador do Urbanismo.

Em resposta ao pedido de um munícipe, o executivo adiantou que existe um projecto de instalação de uma homenagem a Salgueiro Maia no local onde se deu o encontro dos tanques no 25 de Abril. Trata-se de “uma luz perpétua de invocação” em frente à Marinha, na Rua do Arsenal.

A falta de passeios na Calçada de Queluz, problemas com recolha do lixo e ruído dos estabelecimentos de diversão nocturna em Alcântara foram alguns das queixas abordadas pelos munícipes. Entre os quais estava Ana Filipa Fernandes que apresentou ao executivo um projecto de requalificação do edifício do antigo Mercado da Ajuda.

Já no final da reunião, o presidente da junta de Alcântara, Davide Amado, questionou o município sobre a abertura do viaduto de Alcântara – pergunta que ficou sem resposta por parte do executivo. Segundo anteriormente avançado, as obras de reparação devem ficar concluídas este mês.