William Kentridge vence Prémio Princesa das Astúrias para as Artes

Conhecido pelos filmes animados que cria a partir dos seus desenhos, o artista sul-africano, de 62 anos, é “um dos artistas mais completos e inovadores do panorama internacional”, diz o júri do prémio.

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LUSA/Joerg Carstensen

O multifacetado artista sul-africano William Kentridge é o vencedor do Prémio Princesa das Astúrias para as Artes de 2017. A decisão foi anunciada esta quinta-feira em Oviedo pelo júri do prémio, presidido por José Lladó y Fernández-Urrutia, que considerou Kentridge, nascido em 1955 em Joanesburgo, “um dos artistas mais completos e inovadores do panorama internacional” e elogiou o seu “profundo compromisso com a realidade”.

Com uma obra que abarca o desenho, a pintura, a escultura, a colagem, a fotografia, o cinema de animação e a escultura, a que se somam ainda incursões em terrenos tão diversos como a encenação teatral, o muralismo ou a tapeçaria, Kentridge é sobretudo conhecido por uma série de filmes animados em que, ao contrário da habitual sucessão de desenhos, é um mesmo desenho que, numa lógica de palimpsesto, vai sofrendo sucessivas alterações e sendo filmado uma e outra vez.

Filho de um casal de advogados que se especializou na defesa de vítimas do apartheid, incluindo o próprio Nelson Mandela, William Kentridge formou-se em Ciências Políticas e Estudos Africanos ainda antes de estudar Belas Artes. Nos anos oitenta, deixou a África do Sul para estudar teatro na escola de Jacques Lecoq, em Paris, e trabalhou como director artístico para séries televisivas antes de se dedicar aos seus filmes de animação, criados a partir dos seus próprios desenhos, sempre fortemente ligados à realidade sul-africana.

É sobretudo a partir de 1997, quando participa na Documenta de Kassel, na Alemanha, que a sua obra começa a gozar de um crescente reconhecimento internacional.

Segundo um dos membros do júri do prémio agora atribuído a Kentridge, Ouka Leele, nome artístico da pintora, fotógrafa e poetisa espanhola Bárbara Allende Gil de Biedma, “a decisão foi fácil” e o artista sul-africano venceu a maioria das votações preliminares, batendo mais de 40 rivais provenientes de 19 países. Kentridge “é um inovador, um investigador e um artista fascinante”, acrescentou a jurada.

Outro apoio seguro de que Kentridge dispunha era o da editora e galerista Elena Ochoa, que trabalhou com o artista em diversas ocasiões e que também integrava o júri, a par dos já referidos José Lladó e Ouka Leele, e ainda de Juan Manuel Bonet, José Luis Cienfuegos, Óliver Díaz, Josep María Flotats, Carmen Giménez Martín; Blanca Gutiérrez Ortiz, Blanca Li, Catalina Luca de Tena, Joan Matabosch, Alfredo Pérez de Armiñán, Sandra Rotondo Urcola, Emilio Sagi Alvarez-Rayón, Patricia Urquiola, Carlos Urroz e, como secretário, José Antonio Caicoya.  

Com uma dotação pecuniária de 50 mil euros, a que se soma uma réplica de uma escultura de Joan Miró criou expressamente para este efeito, o Prémio Princesa das Astúrias para as Artes destina-se a reconhecer um criador que contribua de modo relevante para o progresso e o bem-estar social através da actividade cultural e artística. Cineastas como Woody Allen, Francis Ford Coppola ou Pedro Almodóvar, arquitectos como Óscar Niemeyer e Frank Gehry, ou ainda músicos como Paco de Lucía e Bob Dylan, o mais recente Nobel da Literatura, foram alguns dos anteriores galardoados com este prémio, que em 2016 foi atribuído à actriz e realizadora Núria Espert.

Kentridge já reagiu à distinção, manifestando-se "encantado" e "honrado" por integrar o conjunto de pessoas que já receberam este prémio, e defendendo que "de modos diversos, e muitas vezes indirectos, o trabalho realizado por artistas faz parte de um projecto mais amplo, que questiona o que é estar no mundo neste momento".

Fica assim atribuído o primeiro dos oito prémios Princesa das Astúrias de 2017. Ao longo das próximas semanas, serão conhecidos os vencedores nas categorias de Comunicação e Humanidades, Cooperação Internacional, Desportos, Ciências Sociais, Letras, Investigação Científica e Técnica, e Concórdia.