Crítica

A mansão armadilhada

Enorme sucesso nos EUA, o thriller fantástico de Jordan Peele é um inteligente exemplo de bom cinema de género que não se coíbe de dizer o que lhe vai na cabeça.

Se os Óscares de Moonlight e O. J. Made in America foram uma “salva” de abertura, Foge é o capítulo seguinte num novo olhar do cinema americano sobre um dos países reais que nele vivem
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Se os Óscares de Moonlight e O. J. Made in America foram uma “salva” de abertura, Foge é o capítulo seguinte num novo olhar do cinema americano sobre um dos países reais que nele vivem

Antes de entrarmos pelos caminhos tortuosos da cor da pele e da importância social (mas o cinema de género sempre reflectiu, mesmo que por espelhos quebrados, o momento em que é feito…), convirá desde já explicar que, sim, Foge é mesmo bom cinema de género. Modesto, eficaz, inteligente, despachado, tem um objectivo principal – levar o espectador a sentir-se tão preso como o seu herói – e chega lá sem se perder pelo caminho, deixando pistas suficientes para que o espectador possa ir jogando o jogo, mas deixando a resolução sempre à distância.

Um jovem fotógrafo vai passar o fim de semana com a namorada a casa dos pais, mas quando lá chega tudo parece demasiado perfeito, mesmo a facilidade e abertura com que ele é aceite, e aos poucos ele vai descobrindo que aquela deslumbrante casa de férias à saída de Nova Iorque é uma armadilha que pode não ter saída.

É aqui que entra o “truque” com que o comediante Jordan Peele “armadilhou” Foge e que tornou o filme – e o seu sucesso surpresa junto do público e da crítica – incontornável nas actuais discussões sociais sobre o racismo nos Estados Unidos. Chris é negro, mas Rose é branca, tal como toda a sua família e círculo social, e o que essa cor da pele representa – que pode também significar um estatuto social diferente ou aplicar-se igualmente a mexicanos, índios, emigrantes… – ganha de repente uma outra dimensão.

Sob a capa de um thriller de género, Foge questiona o próprio olhar da sociedade americana (mas não só) sobre o “outro”, o modo como o liberalismo bem intencionado pode cair na mesma condescendência da xenofobia aberta, o modo puramente utilitário como o “1%” trata os outros “99%”.

Foge remete para toda uma série de distopias de género dos anos 1960 e 1970 (com Mulheres Perfeitas de Bryan Forbes e Segundos para uma Vida de John Frankenheimer à cabeça). Mas é também um filme dos nossos dias #occupyWallStreet e #BlackLivesMatter, que consegue equilibrar o “caderno de encargos” de um thriller fantástico com o comentário social sem que nenhum deles tenha primazia sobre o outro, que consegue surpreender o espectador e deixá-lo a remoer o osso do que acabou de ver.

Se os Óscares de Moonlight e O. J. Made in America foram uma “salva” de abertura, Foge é o capítulo seguinte num novo olhar do cinema americano sobre um dos países reais que nele vivem – e não se vai poder falar de 2017 sem o ignorar.

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