Indielisboa, sempre, sempre em cima do acontecimento

Festival começa esta quarta-feira e traz uma série de filmes que têm dado que falar ao longo dos últimos meses, atentos ao momento que vivemos. A abrir, Colo de Teresa Villaverde.

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Colo, o mais recente filme de Teresa Villaverde DR
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A dupla brasileira Affonso Uchôa e João Dumans exibem o bonito Arábiadécors reais com actores não profissionais dr
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Com as Filipinas nas primeiras páginas das notícias através da violência do Governo Dutertre, Pamilya Ordinaryo de Eduardo Roy Jr acompanha um casal de adolescentes das ruas de Manila dr
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Antestreia de Eu Não Sou o Teu Negro, o ensaio-documentário de Raoul Peck dr

A partir desta quarta-feira e até 14 de Maio, o Indielisboa regressa às salas da Culturgest, São Jorge, Ideal, Capitólio e Cinemateca Portuguesa para a 14.ª edição daquele que é e continua a ser o mais importante festival de cinema a decorrer na capital. E em 2017 prossegue a “afinação” que o certame vem levando a cabo ao longo dos últimos anos, com aquela que é uma das selecções competitivas mais fortes da história do festival, e com uma das programações genericamente mais coerentes e consistentes dos 14 anos de história do certame.

A abertura oficial (São Jorge, 21h00) faz-se esta quarta-feira à noite em português com Colo, o mais recente filme de Teresa Villaverde, que teve estreia mundial em Berlim há poucas semanas; o encerramento oficial (Culturgest, domingo 14 de Maio, 21h30) será com a antestreia de Eu Não Sou o Teu Negro, o ensaio-documentário de Raoul Peck a partir de escritos do pensador negro americano James Baldwin que foi nomeado para o Óscar. De Colo já tivemos ocasião de falar extensivamente aquando da sua passagem no Festival de Cinema de Berlim; Eu Não Sou o Teu Negro chegará às salas portuguesas logo a seguir ao festival.

A presença de ambos os filmes na programação corresponde também a uma renovada aposta do festival nos filmes que têm estado nas bocas do mundo nos últimos meses, ou, como se costuma dizer, “estar em cima do acontecimento”. É o caso, na secção competitiva, daquele que é um dos documentários recentes mais aclamados, The Challenge, do italiano Yuri Ancarani, um olhar sobre a vistosa opulência dos emires do petróleo (Culturgest, terça 9 de Maio, 19h; Ideal, quinta 11, 22h15); ou de El Auge del Humano, visão desintegrada das desintegrações da globalização que marca a estreia na longa do argentino Eduardo Williams (Culturgest, quarta 10 de Maio, 21h30; Ideal, sexta 12 de Maio, 22h15). São filmes que têm vindo a ganhar embalo e balanço desde a sua recepção e distinção em Locarno 2016. É também o caso do quarteto de longas-metragens, independentes mas interligadas, que o alemão Heinz Emigholz, grande mestre do cinema arquitectónico, estreou no Festival de Berlim em Fevereiro: 2+22=The Alphabet (Culturgest, quinta 4, 19h15), Bickels (Socialism) (Culturgest, segunda 8 de Maio, 16h30), Streetscapes (Dialogue) (Culturgest, domingo 14 de Maio, 16h30) e Dieste (Uruguay) (São Jorge, domingo 14 de Maio, 21h30).

A programação inclui também cineastas “do momento” ou regulares do Indie, apresentados na sua maioria fora de concurso. O argentino Matías Piñeiro mostra a sua mais recente variação shakespeariana, entre Buenos Aires e Nova Iorque, Hermia & Helena (Culturgest, quarta 3 de Maio, 18h45, e sábado 13, 18h); o americano Alex Ross Perry traz o seu novo futuro clássico nova-iorquino Golden Exits (Culturgest, quarta 3, 21h30, e São Jorge, domingo 14, 21h30); e o francês Jean-Gabriel Périot, homenageado com uma integral na edição de 2016, exibe a sua segunda longa Lumières d’été (Ideal, sexta 5 de Maio, 21h, e domingo 14, 22h15).

Se os filmes de abertura e fecho sugerem um olhar político sobre o mundo em que vivemos, esse olhar é, curiosamente, mais assumido num miniciclo intitulado Alt.Cinema, que começa já esta sexta-feira com Karl Marx City, onde Petra Epstein foi à procura da memória do pai na antiga Alemanha Oriental, lidando com as acusações de ele ter sido denunciante da Stasi (São Jorge, sexta 5 de Maio, 19h, e segunda 8, 18h45). Na competição internacional, a maioria dos filmes apostam na política do pessoal, sem escamotear o olhar, mais ou menos realista ou oblíquo, para os momentos que vivemos. Com as Filipinas nas primeiras páginas das notícias através da violência do Governo Dutertre, Pamilya Ordinaryo de Eduardo Roy Jr acompanha um casal de adolescentes das ruas de Manila em busca do bebé que lhes foi roubado – estamos mais próximos de um Brillante Mendoza em bruto ou de uns Dardenne white trash, num filme cuja constante incorrecção política vai certamente dividir opiniões (Culturgest, sexta 5 de Maio, 21h30, e Ideal, domingo 7 de Maio, 19h).

Nos antípodas do neo-realismo de câmara à mão de Roy, a dupla brasileira Affonso Uchôa e João Dumans olha com o bonito Arábia, ficção em décors reais com actores não profissionais nascida de um trabalho de workshop documental, para o quotidiano dos trabalhadores migrantes brasileiros com uma delicadeza que remete ao mesmo tempo para os road movies pós-beat generation e para a nova Hollywood dos anos 1970 (Culturgest, sábado 6 de Maio, 21h30, e Ideal, terça 9 de Maio, 19h). A argentina Milagros Mumenthaler, em La Idea de Un Lago, faz colidir em câmara lenta os problemas de relacionamento de uma jovem fotógrafa com a própria história da sua família afectada pelo desaparecimento do pai às mãos do regime nos anos 1970, com uma discrição e uma subtileza que só se vai revelando aos poucos e com várias visões (São Jorge, quinta 4 de Maio, 19h, e Ideal, quarta 10 de Maio, 21h). E, em El Mar la Mar, a dupla formada por Joshua Bonnetta e J. P. Sniadecki percorre os desertos e as paisagens fronteiriças entre os EUA e o México para criar um mosaico documental impressionista, quase experimental, dos obstáculos enfrentados pelos imigrantes ilegais que procuram uma vida melhor (Culturgest, quinta 4 de Maio, e Ideal, sábado 6 de Maio, sempre às 19h).

Ainda nem falámos das retrospectivas Herói Independente, dedicadas ao veterano francês Paul Vecchiali e ao experimentalista americano Jem Cohen; nem das cerca de quatro dezenas de títulos portugueses que serão exibidos entre a competição e as secções paralelas; nem da secção IndieMusic que passa pelos Oasis, Tangerine Dream ou Tony Conrad  e ocupa o terraço do Capitólio recém-renovado, no Parque Mayer. É sinal da riqueza de um programa que pode ser consultado no site oficial em www.indielisboa.com e do qual ainda vamos falar muito nos próximos dias.