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Marine Le Pen plagia discurso de Fillon no Dia do Trabalhador

A candidatura da líder da extrema-direita francesa admite a cópia mas diz que não foi plágio, foi uma "homenagem" a François Fillon.

Le Pen enfrenta Macron no próximo domingo
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Le Pen enfrenta Macron no próximo domingo Reuters/CHARLES PLATIAU

Se o discurso de Marine Le Pen na segunda-feira provocou uma sensação de déjà vu, isso não foi acidental. A candidata da extrema-direita à segunda volta das presidenciais francesas utilizou partes do discurso do conservador François Fillon, afastado na primeira volta, no seu último comício antes das eleições de domingo.

Le Pen repetiu, palavra por palavra, boa parte do que Fillon tinha dito a 15 de Abril, quando discursava em Le Puy-en-Velay, então em campanha para a primeira volta das presidenciais. A candidata da Frente Nacional focou o seu discurso na “cultura francesa”, na língua e na geografia do país, mas fê-lo sem empregar próprias palavras, plagiando o seu antigo adversário político, nota o jornal francês Le Monde.

“A França tem três frentes marítimas, a Mancha e o Mar do Norte, que nos liga ao mundo anglo-saxónico e à imensidão do Norte; a frente atlântica que nos projecta em direcção ao mar aberto, e nos fala de aventura; a frente mediterrânica, casa da civilização humana, entre as mais antigas e mais ricas da História. Mas também tem três fronteiras terrestres. Os Pirenéus, que ligam França a esta imensidão que é o universo hispânico e latino. Os Alpes, que se estendem até à nossa irmã Itália, e à Europa central, balcânica e oriental. E depois a fronteira do Reno, a mais acessível e também a mais promissora. É com o mundo germânico que temos de construir as cooperações, e o estatuto de aliado e não de subserviente, escravizados ou submissos”, ouviu-se Le Pen dizer na segunda-feira.

A única diferença em relação ao discurso de Fillon é saída de um par de expressões pelo meio e da referência à Alemanha, a que Fillon se limita a apontar “conflitos” e a sublinhar o potencial da construção de uma cooperação. De resto, Le Pen repetiu até todas as vírgulas.

O plágio repete-se. Dizia Fillon a 15 de Abril: “França é uma história, é uma geografia, mas também um conjunto de valores e princípios que passaram de geração em geração, como segredos. (...) É uma voz, uma voz extraordinária dirigida a todos os povos do mundo”.

Na segunda-feira, os franceses ouviram de Le Pen o mesmo: “França é também um conjunto de valores e princípios que passaram de geração em geração, como segredos. [...] E é uma voz, uma voz extraordinária, singular, que fala a todos os povos do mundo”.

Os elogios à França enquanto "principal destino turístico mundial" feitos por Fillon, foram repetidos com das mesmas expressões, com Le Pen a apontar, na mesma ordem, a "presença industrial, agrícola ou militar" gaulesa.

O caso encontra ecos numa outra situação de plágio com grande exposição mediática em tempos recentes. Nos Estados Unidos, em 2016, a primeira-dama, Melania Trump, então no primeiro dia da convenção do Partido Republicano, não escapou às críticas quando copiou integralmente dois parágrafos de um discurso de Michelle Obama. Mas aqui a diferença temporal foi maior, uma vez que Melania “recuperou” um discurso de 2008 e Le Pen nem um mês recuou.

Entretanto, e perante a impossibilidade de negar as evidências, o responsável pela comunicação da campanha de Le Pen, David Rachline, argumenta que o discurso de Le Pen mostra que a candidata não está "fechada" sobre o seu eleitorado mais tradicional e considera que o plágio é uma "homenagem" a Fillon. O candidato conservador, o mais votado pelos franceses que votaram em Portugal (com 35,9% dos votos), ficou em terceiro lugar nos resultados finais, com 20,01%, deixando a segunda volta para o independente Emmanuel Macron, com 24,01%, e para Marine Le Pen, com 21,30%.