Laurent Binet: “Se houver Deus, ele é um mau romancista”

A linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há quem mate para dominar o seu segredo. É a ideia de partida de um romance de Laurent Binet. Barthes não morreu num acidente aos 64 anos. Foi assassinado. A história da investigação é uma sátira com personagens verdadeiras.

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No dia 26 de Março de 1980, Roland Barthes não morreu simplesmente depois de ter sido atropelado na Rue des Écoles quando regressava de um almoço com François Mitterrand. “O maior crítico literário do século XX” terá sido assassinado por estar na posse de qualquer coisa muito poderosa. É esta a tese de partida de A Sétima Função da Linguagem (Quetzal), segundo – e delirante – romance de Laurent Binet (Paris, 1972), vencedor do Prémio Goncourt em 2010, com HHhH (Sextante), em que escrevia sobre a execução do nazi, chefe da Gestapo, Reinhard Heydrich, na Primavera de 1942, pelos resistentes da antiga Checoslováquia. Binet volta agora a manipular a realidade para explorar o que ele chama de fronteira entre História e ficção. Na sua escrita, e uma coisa e outra cruzam-se de forma surpreendente, irónica, trágica e melancólica. Em A Sétima Função da Linguagem (com o subtítulo Quem matou Roland Barthes?) a partir de uma frase inicial: “A vida não é um romance.”

A morte pode ser. “As circunstâncias da morte de Roland Barthes foram tristes. Ele tinha acabado de sair de um almoço com François Mitterrand, então candidato à presidência de França, e foi atropelado. A ideia perturbava-me e começou a crescer como o início de alguma coisa. E se não tivesse sido só isso? Essa hipótese foi ganhando corpo e, quando tenho a hipótese de um homicídio, o facto de ele ser um semiólogo ajudava a construir um enigma. De alguma forma a Semiótica é a ciência de Sherlock Holmes. Pensei numa investigação em que a Semiótica fosse a ferramenta para a resolução do caso à volta do qual estava quem se relacionava com Roland Barthes, filósofos, linguistas, escritores”, refere Laurent Binet numa conversa telefónica em inglês com forte sotaque de França. O escritor conta que no início de tudo esteve a morte triste de Roland Barthes, aquela que não foi como se narra aqui.

Lido o livro, custa no entanto a acreditar que a vida não tenha acontecido como neste romance. Quem está familiarizado com a linguística e os teóricos franceses da segunda metade do século XX encontra-os enquanto personagens. O atlas deste livro é o dessas figuras. Paris no fim da década de 70 e início da de 80; o café de Flore, na esquina do Boulevard Saint-Germain com a Rue Saint-Benoît, o Collège de France, a Sorbonne, Saint-Sulpice, o Jardim do Luxemburgo, as saunas gay, as festas, as viagens de táxi que cruzam a cidade e a entrar nos subúrbios, e todo este ambiente e quem o habita representado no funeral de Barthes, na vila de Urt, “a 785 km do Flore”: “há o grupo Sollers, Kristeva, BHL [Bernard Henri Levy]; o grupo Youssef, paul e jean-louis; o grupo Foucault, com Daniel Defert, Mathieu Lindon, Hervé Guibert, Didier Eribon; o grupo faculdade: Todorov, Genette; o grupo Vincennes: Deleuze, Cixous, Althusser, Châtelet; o irmão Michel e a mulher, Rachel; o editor e estudantes, Eric Marty, Antoine Compagnon, Renaud Camus; antigos amantes, assim como Hamed, Saïd, Harold, Slimane; gente do cinema: Téchiné, Adjani, Marie-France Pisier, Isabelle Huppert, Pascal Greggory; dois gémeos trajando uma farda de cosmonautas (vizinhos que trabalham para a televisão, parece) e aldeões…”

Todos, de forma inocente ou implicada, integram uma trama rica em humor e enigma que envolve protagonistas da política francesa, alguns ainda em actividade. Como Le Pen, que surge como uma leve sombra sem ameaça.

É uma sátira policial com epicentro nos pensadores. “Tenho grande admiração pela maior parte destas pessoas, mas ao mesmo tempo acho-as cómicas”, refere Binet que, garante, não optou pelo lado caricatural, mas pelo que elas têm de genuíno. “Por exemplo, muita gente ficou chocada com o modo como escrevo sobre Foucault, mas as cenas sobre Foucault no meu livro são na maioria verdadeiras, foram contadas por velhos amigos, estão nas biografias; como ele se comportava em grandes festas, o consumo de drogas, como ficava bêbado e deixava de conseguir falar inglês.”

O fim de um tempo

Há uma pergunta base: “Que possuía Barthes de tanto valor para que não só o roubassem mas que, além disso, o quisessem matar?” A investigação segue-a. Está entregue a um polícia conservador, Jacques Bayard, homem que não entende a linguagem semiótica do quotidiano pessoal e profissional do núcleo em que Barthes se movimenta. Recruta como espécie de tradutor desse mundo um jovem professor de Semiologia, Simon Herzog, e os dois fazem uma dupla improvável de investigadores, condição essencial do thriller clássico. “Não seria natural ter um polícia familiarizado com a linguagem dos teóricos franceses. Fi-lo um pouco conservador para contrastar com aquele mundo, seria engraçado e útil, porque muitos leitores só conseguem entender o livro através dele. Queria que ele fosse menos intelectual e mais físico. Ao mesmo tempo, queria que o romance fosse uma espécie de romance de formação, as personagens a evoluírem e a transformar-se. O jovem professor muda do princípio ao fim da história, mas o inspector também.”

Há também o pingue-pongue clássico. Sacando de um Gitanes, e referindo-se à Semiologia, Bayard pergunta a Simon: “Concretamente, isso serve para quê, essa ciência?” Simon esquece a teoria e vai directo à função de uso. “Ora bem… para compreender o real?”

Binet explica a ideia de utilidade que trabalhou ao detalhe. “Quis mostrar que saber usar a linguagem é muito útil, partindo de estudos abstractos, como a Semiótica ou a Retórica. A Semiótica é útil para entender o mundo e a Retórica é útil para lidar com ele, para conquistar poder, por exemplo, uma arma poderosa.”

Tudo se desenvolve com a agilidade de um policial, os acontecimentos a sucederam-se encadeados e surpreendentes, ao mesmo tempo que o narrador se demora na descrição de pormenores da vida quotidiana ou interior das personagens. E várias funções se cruzam, conferindo densidade a um livro que é o também o retrato do fim de uma era e uma reflexão social, política, intelectual da linguagem e do modo como a comunicação se estabelece entre as pessoas a vários níveis. “Há intérpretes por toda a parte. Cada qual fala a sua língua, mesmo que conheça um pouco a língua do outro. Os estratagemas do intérprete têm um campo muito vasto, e ele não descura os seus interesses”, lê-se na epígrafe que Binet foi buscar a Jacques Derrida, o filósofo desconstrucionista que entre outras áreas se dedicou ao estudo da teoria da linguagem.

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“Eu tinha sete ou oito anos quando Barthes morreu, não tenho memória disso, mas olho para esse período como um ocaso, o fim de qualquer coisa, o fim de um tempo que teve o seu auge nos anos 60 e 70. Para mim, a morte de Roland Barthes é o símbolo da morte desse tempo em que a filosofia francesa, os teóricos franceses brilhavam. Pouco tempo depois Lacan e Foucault morriam e foi o declínio”, conclui o escritor, enquanto faz a ligação para outro dos temas do livro: a política. “O que se deu foi uma mudança política. Em 1980 e 1981, a França acreditava estar no início de uma nova era com a eleição de Mitterrand. Não estávamos completamente enganados, foi de facto o início de um novo tempo que, contudo, não foi tão luminoso quanto esperávamos. Coincidiu também com o começo de Reagan e Thatcher. Hoje – 2016, 2017 – estamos no fim desse tempo; ainda estamos a viver no mundo de Reagan e de Thatcher, talvez mudemos outra vez."

Código político

Escritor, professor de Ciência Política, Laurent Binet ensinou francês no ensino secundário, foi compositor, vocalista e guitarrista da banda rock Stalingrad. Todos os seus múltiplos interesses estão neste romance que nasceu de uma longa pesquisa. “Durante cinco anos li toneladas de teóricos franceses. Conheci muita gente. Na altura tinha uma namorada que estava a fazer um doutoramento em Filosofia num dos centros da teoria francesa. Cada professor que encontrava tinha conhecido Barthes ou Foucault ou Deleuze. Foi engraçado. Li e ouvi muita coisa sobre eles e quis pô-los a falar de forma adequada, convincente. Um dos meus principais problemas foi mesmo fazê-los falar, os diálogos, e que parecessem verdadeiros.”

Barthes surge como o descodificador de um tempo, mas também do modo humano de comunicar. O jornalista Jean-François Kahn apresenta-o no romance como “o mestre da Semiologia”, alguém que dizia que a escrita “é o lugar do… político no sentido lato, ou seja a escrita é aquilo mediante o qual ele se exprime, mesmo se o escritor não é disso consciente, o que ele é socialmente, a sua cultura, origem, a sua classe social, a sociedade que o rodeia…”. Binet parece concordar e no seu caso essa relação não é inconsciente. “O último capítulo deste livro foi escrito depois do atentando no Bataclan [Novembro de 2015]. Quis estabelecer a comparação entre a ideia de escritor e a de Deus, quando uma personagem se insurge contra o seu criador. No fim, ela não quer obedecer ao escritor.” Faz uma pausa. “Se houver Deus, ele é um mau romancista. Foi o que me ocorreu depois do Bataclan.”

Recapitulando, no dia em que foi atropelado, Barthes vinha da Rua des Blanc-Manteaux, de um almoço com François Mitterrand. “Não há relação, a priori, entre o almoço e o acidente, nem entre o candidato socialista à presidência, eleição que terá lugar no ano seguinte, e o condutor búlgaro, empregado de uma lavandaria, mas faz parte da natureza dos Renseignements Généraux informar-se de tudo…”. É a missão de Jacques Bayard em vésperas de pré-campanha. Michel Rocard aparecia à frente de Mitterrand nos índices de popularidade. Binet recuperava um artigo de opinião de Jean Daniel, o famoso jornalista, fundador e editorialista do Nouvel Observateur, actualmente com 96 anos. Em 1966, Daniel escrevia sobre Mitterrand: “Este homem não dá só a impressão de não acreditar em nada: perante ele, sentimo-nos culpados de acreditar em alguma coisa. Ele insinua, como quem não quer a coisa, que nada é puro, que tudo é sórdido e que nenhuma ilusão é permitida.”   

Sem spoiler, Barthes morreu guardião de um segredo, o da sétima função da linguagem, e todos são suspeitos à partida de quererem aceder a ele. “A linguagem é a arma mais poderosa do mundo. Não é uma ideia nova. Existe desde o início da História, desde a Grécia Antiga. E continua. A grande diferença é que agora tudo acontece mais depressa e de forma mais grandiosa, com o Twitter, o Facebook, a Internet. Talvez por isso a linguagem seja ainda mais poderosa, e mais do que nunca uma palavra pode matar. A grande alteração é o alcance da palavra, cruza o mundo, é global. Umberto Eco disse que não gostava do Twitter porque a voz de um prémio Nobel seria igual à voz de qualquer pessoa. Percebo, há muita treta no Twitter, mas há qualquer coisa de interessante nisso, de profundamente democrático. No limite, podemos fazer bom ou mau uso”, salienta Laurent Binet sobre o que a linguagem pode dizer acerca de um tempo.

A 26 de Março de 1980, as redes sociais virtuais pertenciam à categoria de ficção científica e a notícia da morte de Roland Barthes foi dada em simultâneo para toda a gente, de todas as classes em toda a França, no telejornal das 20h. “Roland Barthes (…) morreu esta tarde no hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris. (Giscard pára de rubricar, Mitterand pára de fazer caretas, Sollers pára de remexer nas cuecas com a boquilha, Kristeva pára de mexer o guisado de vitela e acorre à cozinha, Hamed pára de enfiar a peúga, Althusser pára de tentar não discutir com a mulher, Bayard pára de passar camisas a ferro, Deleuze diz a Guattari: ‘Eu ligo-te!’, Foucault pára de pensar no biopoder, Lacan continua a fumar o seu charuto.) O escritor e filósofo fora vítima de um acidente de viação há um mês. Tinha (…) 64 anos.”

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Escritor, professor de Ciência Política, Laurent Binet ensinou francês no ensino secundário, foi compositor, vocalista e guitarrista da banda rock Stalingrad. Todos os seus interesses estão neste romance, que nasceu de uma longa pesquisa Jeremy Sutton-Hibbert/Getty Images

Através da música, do cinema, dos costumes, dos jornais, da comida ou da moda, Binet reconstitui uma época centrada na televisão, onde a cultura pop e a intelectualidade coexistem de forma orgânica, fazendo o conflito parte do organismo complexo, paradoxal que é qualquer sociedade, e a francesa daquela época em particular. É dela que o romance se alimenta ao longo de quase 500 páginas, sem que nunca se arraste. “Nos anos 80, o telejornal das 20h era como uma missa. Agora, não me lembro da última vez que vi o telejornal das 20h”, diz, a rir, tentado evadir-se da resposta à pergunta sobre como é que os intelectuais franceses têm reagido ao livro. “Depende… Sollers não gostou."

Tragicomédia

E se todos, incluindo jornalistas (diz Binet), se parecem fixar em detalhes como o episódio em que Foucault, na sauna, conversa com o detective enquanto um prostituto “se afadiga entre as suas pernas”, os momentos-chave do livro, aqueles em que Binet consegue demonstrar (sem exibir) o seu domínio da linguagem, do lirismo, do ritmo, são como aquele em que descreve a hora da morte de Barthes, um homem perante o que foi, em toda a sua tristeza e toda a sua frustração e na sua incapacidade de comunicar. “Se pudessem seguir o fio da divagação nebulosa dele, saberiam: o homem que vai morrer pensa no que foi, mas sobretudo no que poderia ter sido, e que mais?”. Laurent Binet confessa que trabalhou muito nessas quatro páginas. “Teria de ser tocante. Tentei mostrar toda a melancolia que ele podia sentir. O diário que escreveu no final da sua vida é muito melancólico. Quis aquele tipo de tristeza a perpassar o que foi a sua vida, aquilo de que gostava, que estudou, em que podia estar a pensar”, continua. No livro, escreveu sobre essa “derradeira divagação” e o lamento de Barthes: nunca ter confessado que não gostava assim tanto de Racine. “Os franceses orgulham-se sem descanso de terem tido o seu Racine (o homem das duas mil palavras) e nunca se queixam de não ter tido o seu Shakespeare.” No romance Barthes gostaria de ter dito isto desta maneira, e acaba a citar mentalmente Corneille: “Sempre amar, sempre sofrer, sempre morrer”. 

É uma cena para dar pequenas pistas. "Quis aproximar o leitor daquela função da linguagem. Quando escrevo uma cena ou uma frase gosto que não haja apenas uma função, só psicológica ou só poética. Essa cena também para dar um passo em frente e jogar com símbolos. Há pouco falei da morte de Roland Barthes como símbolo do fim de uma era. Isso é um traço melancólico."

O episódio começa assim: “Em que pensará Barthes moribundo? Na mãe, dizem. Foi a mãe que o matou.” A relação proustiana com a mãe é apresentada logo no início do livro, e também é outro símbolo: de um tempo em que a figura da mãe veio substituir o papel de Deus para homens como Barthes ou Proust. “Foi depois de Freud. Não sei se ainda vivemos esse tempo. Diria que talvez Deus esteja de volta e estejamos no fim do tempo das mães. Não me parece um regresso muito simpático.”

Quando Bayard e Simon entram no apartamento de Barthes à procura de pistas, o leitor é um mirone curioso da sua biblioteca. “Proust, Pascal, Sade, mais Chateaubriand, poucos contemporâneos, à parte alguma obras de Sollers, Kristeva e Robbe-Grillet, ou dicionários, obras de crítica, Todorov, Genette, e obras linguísticas, Saussure, Austin, Searle… Na secretária, uma folha inserida na máquina de escrever […]. ‘Nunca se fala do que se gosta.’ […]. Ao lado da máquina de escrever, os Ensaios de Linguística Geral de Jakobson.” Barthes morria com as funções da linguagem em mente. O eco atravessa o livro: a linguagem é a arma mais poderosa do mundo… e o discurso de Binet sobre ele, um escritor que muitos comparam a Michel Houellebecq pela ousadia ou pela insubmissão. “Sei que é suposto ser um cumprimento, ele é o número um em França, mas não sou grande fã do seu trabalho”, afirma. Confessa que se identifica mais com romancistas ingleses e americanos. E, dos vivos, elege Bret Easton Ellis. “É um mestre nos diálogos. E gosto do processo de autodestruição dos seus romances, como se entrassem numa espécie de decomposição."

E, como Barthes, Binet também não gosta muito de Racine, o grande poeta trágico de França. Ele não ria. Binet tenta rir. “Os franceses não são o melhor povo do mundo para fazer piadas sobre si próprios e acho que há uma razão histórica para isso. Tragédias como as de Racine e Corneille não continham qualquer piada, enquanto as de Shakespeare têm. A literatura tem essa tragicomédia, os anglossaxónicos misturam o que tem graça e o que não tem. Gosto disso. É por isso que prefiro Shakespeare a Racine.” Nova pausa. “Não gosto de generalizar sobre povos, mas há um sentimento patriótico em França. O voto em Le Pen mostra isso. E esses não gostam que não se goste muito de Racine.”