Se o arrependimento mata, os eleitores de Trump estão bem e recomendam-se

Donald Trump chegou à Casa Branca há 100 dias. Como é habitual, são muitas as análises à prestação de um Presidente ou primeiro-ministro por esta altura, mas se o juízes fossem os eleitores, nada mudaria: quase ninguém saiu das trincheiras que cavaram no ano passado.

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Donald Trump durante a campanha em Ambridge, na Pensilvânia Mike Segar/Reuters
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Apenas 2% dizem que estão arrependidos de terem votado em Trump Kamil Krzaczynski/Reuters
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Donald Trump tomou posse há 100 dias JUSTIN LANE/EPA
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Eleitores de Donald Trump continuam a culpar Barack Obama Jonathan Ernst/Reuters
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O Partido Democrata está ainda pior nas sondagens do que o Partido Republicano Carlos Barria/Reuters

São quase duas da manhã e estamos a dois passos do hotel Hilton da Sexta Avenida, em Manhattan, naquela longa noite de 8 para 9 de Novembro em que o furacão Trump apanhou meio mundo desprevenido e venceu a corrida para a Casa Branca.

Lá em cima, num dos andares mais perto do céu, a família e os amigos próximos do magnata festejavam ao ritmo dos resultados que as televisões iam gritando: Carolina do Norte vota em Trump, com certeza; Carolina do Sul, claro que sim; ai a Pensilvânia também? O quê, o Wisconsin? Ui, que lá vão o Ohio, a Florida e até o Michigan.

O ambiente cá em baixo é de festa há pelo menos uma hora – as cautelas de jornalistas e analistas deste fenómeno que são as eleições para a presidência dos EUA iriam arrastar-se por mais algumas horas, até à manhã do dia 9 de Novembro, mas o discurso de muitos deles soava mais a uma recusa em aceitar a realidade do que ponderação e rigor: Donald J. Trump, o homem que simboliza quase tudo o que Manhattan e Silicon Valley desprezam, apoderou-se do sonho de uma vida de Hillary Clinton, a mulher que parecia ter ganho antes mesmo de a campanha ter começado.

Habituados ao domínio do Partido Republicano no seu estado do Indiana, onde nos últimos 100 anos apenas três candidatos do Partido Democrata venceram, John e Susan Fox tinham acabado de festejar a vitória do magnata e iniciavam o caminho de volta ao Hotel Trump International, onde os esperava o quarto que reservaram em Manhattan.

John e Susan são dois autênticos cartazes com braços e pernas prontos para serem usados como explicação para o fenómeno Trump: de Indianápolis a Manhattan são 1149 quilómetros de distância, diz-nos o Google, e a reserva no Hotel Trump International foi feita com quatro meses de antecedência.

Cem dias depois de Donald Trump ter entrado na Casa Branca, qualquer balanço sobre o que ele fez ou deixou de fazer é uma perda de tempo para milhões de norte-americanos como John Fox: ele viajou mais de mil quilómetros, com a convicção de uma vitória na noite mais importante, e viveu "um sonho tornado realidade", como disse na altura – mais, muito mais, do que uma simples e rotineira vitória de um candidato.

Adeptos mais do que apoiantes 

Trump não tem apoiantes: tem adeptos. E daqueles ferrenhos. Que não viam a sua equipa ganhar desde que nasceram. (E já nasceram há muitos anos). Para muitos, a eleição de Trump não foi uma vitória – foi uma vingança. E é isso que torna a análise aos primeiros 100 dias uma perda de tempo para eles: uma vitória tem de ser confirmada com mais vitórias, para que não seja um acontecimento isolado; uma vingança basta-se a si mesma, e ser concretizada apenas uma vez é precisamente a sua finalidade.

Quase seis meses depois de termos encontrado Todd Lovitz ao balcão da sua loja de T-shirts e outras recordações Pier 21, no famoso passadiço de Atlantic City, no estado de Nova Jérsia, a sua confiança em Trump mantém-se tão sólida como o lema do seu negócio: "Detido e gerido por americanos com muito orgulho há mais de 66 anos."

Ao contrário de John Fox e da sua lealdade de décadas para com Trump, Lovitz fez uma viagem política com altos e baixos até chegar ao voto no magnata: nasceu no bairro de Brooklyn, em Nova Iorque; nos tempos da faculdade foi um jovem hippie contra a guerra do Vietname; depois ficou fascinado com Reagan; e acabou em Atlantic City à espera que os casinos, agora num caminho sem regresso em direcção à decadência, lhes desse os clientes de que tanto precisa na sua loja.

Para Todd Lovitz e para muitos outros eleitores de Trump, "em 100 dias é impossível fazer tudo o que o Presidente quer fazer", e o culpado disso tem um nome. Ou dois: Barack Obama. Ou quatro: Barack Obama e Partido Democrata.

"Trump está focado em tudo. Os problemas que ele tem em mãos são os problemas que a Administração Obama lhe deixou. Nenhum Presidente pode fazer o que quer que seja sozinho", disse o norte-americano ao PÚBLICO por telefone, esta semana.

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Veja-se o exemplo que foi a oposição interna no Partido Republicano contra as ordens da sua própria liderança na Câmara dos Representantes e da Casa Branca para deitar abaixo o Obamacare e construir em cima dos escombros um novo plano de saúde – para Todd Lovitz, o facto de muitos congressistas do Partido Republicano terem feito orelhas moucas ao ultimato de Trump para aprovarem a proposta não foi um sinal de que o Presidente pode ser mais fraquinho a fazer acordos do que ele próprio apregoa; foi, antes, uma prova de que "há miolos" no Partido Republicano.

"Pelo menos no Partido Republicano estão a usar a cabeça para chegarem a um entendimento, enquanto o Partido Democrata limitou-se a fazer-nos engolir o Obamacare. Nem um único congressista do Partido Democrata que se opôs ao Obamacare disse que era preciso mudar algo nessa lei. Pelo menos desta vez há pessoas no Partido Republicano que não se limitam a votar contra, estão a tentar mudar alguns aspectos da nova lei. E ainda hoje disseram que estão mais próximos de um compromisso", sublinhou.

O mesmo se passa quando a conversa é a Coreia do Norte ou o acordo sobre o programa nuclear com o Irão: a culpa é de Obama e "o Partido Democrata está completamente alheado do que se passa neste país". Pela amostra que entra todos os dias na loja Pier 21, "todas as pessoas que votaram em Donald Trump continuam a apoiá-lo a 100%".

Democratas ainda não renasceram

Pelo menos no Inverno não são muitas as pessoas que entram nas lojas da boardwalk de Atlantic City, mas as sondagens mais recentes parecem dar razão ao dono da Pier 21: não só quase ninguém se arrepende de ter votado em Trump, como há mais eleitores de Clinton a pensar duas vezes sobre o que fizeram naquela histórica noite eleitoral.

O jornal Washington Post e o canal ABC News foram ouvir 1004 norte-americanos na semana passada sobre os 100 dias de vida com Donald Trump na Casa Branca: 96% dos eleitores que votaram em Trump voltariam a fazer o mesmo e apenas 2% estão arrependidos; por outro lado, só 85% dos que votaram em Clinton continuam satisfeitos com essa decisão (os arrependidos não votariam em Trump, mas se pudessem viajar no tempo para o passado escolheriam um terceiro candidato ou ficariam em casa).

Se a sondagem reflectisse o que se passa em todo o país, esta oscilação não só voltaria a pôr Trump na Casa Branca como também lhe daria uma vitória no voto popular, em troca com Clinton.

O que fica também claro é que a popularidade de Trump como Presidente continua a ser embaraçosamente baixa – a mais baixa de sempre nos primeiros 100 dias de um Presidente e muito distante dos primeiros 100 dias de Obama (42% contra 69%). Mas também é verdade que, por estes dias, quase tudo o que mexe na política norte-americana anda pelas ruas da amargura, e a candiadata Hillary Clinton também chegou a números historicamente baixos: 67% acham que o Partido Democrata está alheado do que se passa no país, uma insatisfação que cresceu uns incríveis 19 pontos percentuais nos últimos três anos. Num outro aviso para o futuro do Partido Democrata, o número de eleitores negros e hispânicos que não voltariam a eleger Clinton é dez pontos superior ao dos eleitores brancos na mesma situação.

Quem não consegue compreender estes números é Barbara Burgess-Lefebrve, uma professora de Teatro e de Inglês na Universidade Robert Morris, em Pittsburgh, e residente na pequena cidade de Ambridge, na Pensilvânia, num condado onde Trump venceu com uma vantagem de 20 pontos em relação a Clinton. Apesar de ter um passado Democrata, as promessas de Trump no ano passado embalaram muitos eleitores do condado de Beaver, mais um onde a degradação da indústria do aço deixou cicatrizes profundas.

"Sinceramente ainda não consigo engolir a vitória de Trump. Passei o dia seguinte às eleições com os meus alunos em lágrimas. Dou aulas a muitos alunos que são gays ou artistas, e eles sentiram que as vidas deles estavam em perigo. Alguns amigos dizem-me que os filhos deles estão preocupados com a possibilidade de haver uma guerra. Isto é muito triste", disse Barbara Burgess-Lefebrve ao PÚBLICO.

Para esta apoiante de Hillary Clinton, Trump ganhou porque "muitas pessoas ainda desconfiam das mulheres, principalmente de uma mulher adulta, inteligente e educada". Admite que há muita raiva em grande parte da população, e que isso contribuiu para muitos dos votos em Trump, mas volta sempre àquela que considera ser a principal razão: "Ele alimentou a dinâmica contra as mulheres, os negros e os gays. As fábricas e os postos de trabalho na indústria do carvão não vão voltar. Trump não quis dizer a verdade sobre esses postos de trabalho, mentiu e as pessoas estavam desesperadas por acreditar nele. Ao mesmo tempo, sentiram-se bem com todo aquele ódio."

São dois mundos tão distantes que muito dificilmente alguém conseguirá construir uma estrada que os una – para os que odeiam Trump, ele será sempre o pior Presidente norte-americano da História, um ser desprezível que nunca deveria ter saído dos seus luxuosos prédios e dos reality shows; para os que o adoram, ele poderá fracassar em quase tudo o que prometeu, desde que possam continuar a culpar a herança de Obama e a obstrução do Partido Democrata – para muitos deles, a desilusão só chegará se um dia Trump for apanhado a humilhá-los em privado; caso contrário, lá estarão em 2020 para apoiarem outra vez o clube do seu coração.

 

 

 

 

 

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