Em cada esquina, um escritor (e um desenho)

Termina neste domingo a II edição do Encontro Luso-Galaico de Escritores de Chaves, que chegou a mais de mil alunos e pôs a cidade nos cadernos de Richard Câmara.

Diário gráfico do encontro feito por Richard Câmara
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Diário gráfico do encontro feito por Richard Câmara Rui Morais

Autores dos dois lados da fronteira conheceram-se e deram-se a conhecer na cidade de Chaves durante a Ponte Escrita, a II edição do Encontro Luso-Galaico de Escritores. Andaram pelas escolas, pelas ruas, cafés, Biblioteca Municipal, Fundação Nadir Afonso e por outros lugares. Em cada esquina, um escritor. Mas também um desenho de Richard Câmara.

Neste ano, o ilustrador fez uma proposta diferente da do ano passado: “Apetecia-me desenhar a própria cidade”, contou ao PÚBLICO. E foi o que andou a fazer.

Na 1.ª edição, o convite foi o de desenhar em diário gráfico o que estava a acontecer no próprio encontro, “como se fosse um caderno de viagens”, explica o também professor de Artes Visuais, que vive em Madrid. “Fiz uma série de registos de pessoas, acontecimentos e também o diário da viagem de Madrid até aqui e o do regresso.”

Nesta edição, a ideia foi outra: “O que me proponho fazer é descobrir a cidade através de um novo olhar pelo meio do desenho, mas não fazer postais turísticos.” E fala do que descobriu por estes dias: “Chaves é muito mais do que a cidade romana ou a cidade da água. É tudo isso junto e articulado de uma certa maneira mais orgânica. Há sempre uma pontinha do icebergue.” E concretiza: “Há coisas em Chaves que estão a desaparecer, coisas antigas pela renovação do próprio tecido urbano e do comércio. Mas também há coisas antigas que estão a reaparecer. Vestígios arqueológicos.”

Traduzindo para os desenhos, “comecei a perceber que ficavam confinados a um quadradinho, como uma espécie de uma janela com uma vista sobre qualquer coisa, mas não imagem postal”. Assim, “mostro um bocadinho, mas grande parte fica fora do enquadramento, porque a ideia é pôr a descoberto, mas sem mostrar tudo o que lá está”.

Uma visão da cidade mais gráfica

Esta descoberta de Chaves também deu origem a uma linha de desenhos que pretende desenvolver “mais abstractos ou esquemáticos, uma visão da cidade mais gráfica”. Pensando nas ruas romanas, em malha ortogonal, a que associou inscrições, letras ou símbolos que detectou nas paredes do castelo (provavelmente feitas por pedreiros), e outros elementos gráficos interessantes para captar, criou uma imagem quase como um título e em forma de sopa de letras, em que se lê “Chaves, cidade oculta, cidade termal, cidade romana”. Mas como a partição das palavras não segue a regra gramatical, a imagem transforma-se numa espécie de enigma em que se descobrem outras palavras: “idade”, “culta”.

“Vim com a ideia de desenho na rua, à vista, mas liguei-o ao desenho mais conceptual”, conta. E descreve e invoca as semelhanças de formação e percurso com Nadir Afonso: “Acho graça ele e eu termos estudado Arquitectura, ambos com obra que enveredou para a pintura e para desenhos abstractos. Não pensei nisto quando estava a desenhar nem me estou a comparar com ele. Mas há influências que aparecem. Isto surgiu da minha vivência na cidade que por acaso tem um arquitecto que também trabalha a cor e faz isto.”

Richard Câmara vem com frequência a Portugal orientar workshops de desenho. Neste sábado, levou crianças de Chaves para o Jardim do Bacalhau e desafiou-os a desenhar a lápis exercitando a representação de diferentes texturas e várias gradações, do cinzento ao preto. Esta foi uma das actividades da sua participação no encontro, tendo, entre outras experiências, acompanhado Filipe Lopes, do projecto A Poesia Não Tem Grades, ao Estabelecimento Prisional de Chaves. “Uma experiência diferente e com muita adrenalina”, diz.

Estimular jovens para a leitura

À semelhança do ano passado, foram 1100 os alunos que tiveram contacto directo com os escritores, portugueses e galegos, neste Ponte Escrita, que se deslocaram às escolas para falar dos seus próprios livros, mas também dos de outros, para ler poesia e estimular os jovens para a leitura e para a cultura. Um dos objectivos que a organização e o presidente da Câmara de Chaves, António Cabeleira, relembraram numa recepção aos escritores na sexta-feira na Fundação Nadir Afonso, a que se seguiu a inauguração da exposição Corpo, Abstracção e Linguagem na Arte Portuguesa (obras em depósito da Secretaria de Estado da Cultura na colecção de Serralves), com a presença do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes.

A inauguração da exposição teve um momento musical interpretado pelo quarteto de saxofones da muito premiada Academia de Artes de Chaves, dirigida por Marcelo Almeida. Um concerto que foi interrompido e se revelou demasiado breve para a qualidade dos jovens que ali se deslocaram.

Num balanço do encontro, Altino Rio, um dos organizadores, disse ao PÚBLICO: “O Ponte Escrita 2018 já está garantido, há uma aposta na continuidade.” Sílvia Alves, também da organização, afirmou: “A nossa originalidade foi não pensarmos em fazer um pequeno encontro, mas um encontro em grande.”