O desejo sexual da Menina Júlia

Depois de abordar Romeu e Julieta por esse prisma, Daniel Gorjão aplica o mesmo olhar a outro clássico do teatro: Júlia, a partir de Strindberg, está em cena no São Luiz até 7 de Maio.

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BRUNO SIMÃO
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Em 2015, parcialmente inspirado pelos seus trabalhos como barman na noite lisboeta, o encenador Daniel Gorjão colocava a lupa sobre o desejo ao abordar Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Desta Carne Lassa do Mundo, assim se chamava o espectáculo, ia atrás das personagens essenciais à edificação do derradeiro amor romântico, mas procurava-lhes os corpos, a entrega descontrolada a um prazer dos sentidos. Em fundo, ouvíamos música de discoteca, banda sonora que lhes empurrava as mãos para as coxas e as bocas no sentido uma da outra.

Desafiado pela actriz Teresa Tavares, com quem fundou o Teatro do Vão, a pegar noutro clássico dos palcos, Menina Júlia (1888), de August Strindberg, Gorjão decidiu adoptar as mesmas ferramentas contemporâneas, lançando Júlia e Jean (João Villas-Boas) num vórtice de desejo que discorre sem freios, enquanto o baile descrito pelo autor sueco é servido numa bandeja de batidas que poderiam animar qualquer pista de dança actual. Júlia, em cena na Sala Mário Viegas do Teatro São Luiz, em Lisboa, até 7 de Maio (e já com apresentação marcada no Centro Cultural de Ílhavo a 30 de Setembro), “vem mesmo no seguimento de Carne Lassa, na pesquisa e nesta coisa de procurar o que é fazer um texto clássico hoje, trazê-lo para o palco com um ponto de vista de agora”. E o ponto de vista, esclarece Gorjão, é novamente “o de onde o desejo nos leva”. No caso, “leva as personagens a perderem-se nas suas vidas”.

Na peça de Strindberg, a sedução entre Júlia e Jean, respectivamente dama aristocrata e criado, é sempre atravessada por uma tentativa de dominação de um sobre o outro. De forma consciente, Daniel Gorjão quis esbater ao máximo todas as diferenças de classe que poderiam sobrevir dos figurinos e de quaisquer códigos que cavassem de imediato um fosso entre os dois. Em vez disso, veste-os quase de igual, despe-os mesmo, uniformiza-os para que as diferenças saiam amplificadas. “A frase que mais retenho de toda a peça”, diz, “é quando ela lhe diz que podem tentar fugir, mas que as recordações irão sempre acompanhá-los na carruagem do comboio. As memórias, a educação, o passado condicionarão sempre e não se podem apagar. Nunca nos livramos de nós próprios”.

Se os dois projectam no outro a sua salvação, é uma salvação momentânea, condenada ao fracasso ao dobrar do primeiro embate. E é por isso que no palco vemos um relvado que sobe em direcção ao céu, sem fim à vista. “Não existe horizonte”, resume o encenador. “Quando imaginei o cenário pensei que podia ser um espaço confinado onde quem está a observar não visse uma saída. Há sempre uma barreira que envia para trás, cíclica, impedindo de sair.” Quer no cenário quer na movimentação de Júlia e Jean, fechados num espaço de intimidade que descarta a terceira personagem (Cristina) de Strindberg, tudo decorre num loop de relação visceral, em que os dois se rodeiam e encurralam na segurança de que o sonho da fuga conjunta para a Suíça é apenas um sonho que ambos sabem não passar para lá da porta de casa.

E é por isso que Júlia se lê como um arroubo de desejo sexual, como se a única união possível entre estes dois fosse aquela que, por instantes, junta os seus corpos e logo em seguida se extingue, sem qualquer outra possibilidade de encontro. Cada acção é impelida por esse desejo. A Júlia de Daniel Gorjão “tem um lado selvagem e cru de querer muito uma coisa”. Se nas abordagens a que assistiu até hoje (de Katie Mitchell ou Christiane Jatahy) o sexo está mais escondido, aqui está sempre presente. O desejo é a pulsão inescapável que determina cada gesto e cada acção. As consequências são assunto para mais tarde.