O que faz de alguém um extraordinário altruísta?

Doava um rim a um desconhecido? Se a resposta foi “sim”, é possível que seja um extraordinário altruísta. Estudo publicado na revista Nature Human Behaviour mostra o resultado de testes que avaliaram as motivações de quem ajuda os outros, sobretudo os desconhecidos.

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Eva Carasol/PÚBLICO

Há pessoas generosas, altruístas e depois há as que valorizam o bem-estar de estranhos de uma forma rara, invulgar. São as que, por exemplo, doam um rim a um completo desconhecido. São os extraordinários altruístas. Um estudo publicado esta sexta-feira na edição online da revista Nature Human Behaviour revela que este comportamento extremo não está relacionado com uma percepção distorcida das distâncias sociais e que, na verdade, acontece porque estas pessoas se preocupam mesmo mais com o bem-estar de estranhos.

Primeiro que tudo é importante esclarecer que o que diferencia um altruísta (normal) de um extraordinário altruísta é o facto de o segundo ser capaz de correr sérios riscos para beneficiar outra pessoa e, especificamente, alguém que não conhece. Os autores do estudo publicado na Nature Human Behaviour recorreram ao exemplo de alguém que é capaz de doar um rim a um estranho. Trata-se de um acto caro, doloroso e raro, justificam os investigadores. É um acto que ultrapassa a ideia-base do altruísmo que parece estar apoiada no desejo de ajudar alguém próximo e na reciprocidade. Doar um rim a um estranho é mais do que isso.

Então, por que é que o fazem? O estudo partiu de duas hipóteses. Uma das ideias que se pretendia testar era a da possibilidade de estas pessoas terem uma percepção distorcida das distâncias sociais que os leva a olharem para um estranho da mesma forma que olham para um amigo próximo. Outra hipótese, sugerem os investigadores, partia do princípio de que os extraordinários altruístas encaram um estranho como um estranho mas, simplesmente, dão mais valor ao seu bem-estar do que as outras pessoas.

As regras do jogo

“Os actos extraordinários de altruísmo para com os estranhos representam fenómenos enigmáticos que não são facilmente explicados pelos modelos biológicos dominantes do altruísmo, como selecção de parentesco e reciprocidade”, referem no artigo científico, acrescentando que as teorias do altruísmo estipulam que os beneficiários da generosidade são normalmente aqueles que são geneticamente ou socialmente próximos. E esclarecem: “Os extraordinários altruístas exibem um aumento da sensibilidade empática e um estilo de tomada de decisão rápido e intuitivo, mas ainda não existe uma explicação clara para a característica mais desconcertante desses altruístas, que é o facto de incorrem em riscos significativos para beneficiar estranhos.”

Para tentar perceber quais as motivações destas pessoas hiperaltruístas, os investigadores prepararam uma sessão de testes que colocou em confronto um grupo daqueles dadores com um grupo de controlo de pessoas “normais”. Kruti Vekaria, investigadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Georgetown, na cidade de Washington (Estados Unidos), liderou o trabalho que consistiu primeiro em pedir a 21 pessoas que doaram o rim a um estranho e a 39 participantes num grupo de controlo para classificar a sua proximidade com 100 pessoas, incluindo familiares, amigos, conhecidos e estranhos.

Os resultados obtidos nesta primeira fase do estudo permitiram descartar uma das hipóteses que, segundo os investigadores, poderiam explicar a generosidade extrema de algumas pessoas. Afinal, os extraordinários altruístas não revelaram qualquer percepção distorcida das distâncias que existem nas relações sociais, mostrando resultados muito semelhantes aos obtidos pelo grupo de controlo na classificação das relações.

Na segunda fase do estudo, as regras do jogo mudaram. Desta vez, foi pedido aos participantes que simulassem a distribuição de dinheiro pelas várias pessoas classificadas antes, desde familiares e amigos a conhecidos e desconhecidos. O exercício implicava que atribuíssem um valor ao bem-estar dos outros. Aqui, os resultados já separaram claramente um grupo do outro. O grupo dos extraordinários altruístas “depositou” mais dinheiro em desconhecidos do que o grupo de controlo. Aliás, os valores que os extraordinários altruístas atribuíram a um completo estranho eram idênticos aos valores que os participantes do grupo de controlo atribuíram a um beneficiário relativamente próximo, não um amigo mas alguém que conheciam bem.

É claro que não havia dinheiro verdadeiro envolvido no jogo. Era apenas um teste e os participantes sabiam disso. É também fácil de imaginar que o grupo de pessoas que tinha doado um rim (e muito provavelmente o outro grupo também) sabia que estava a participar num teste sobre a sua generosidade. De alguma forma, estas condições podem afectar a honestidade das respostas, fazendo com que os participantes queiram corresponder às expectativas. Por outro lado, ainda que o estudo comprove que o genuíno e extraordinário altruísmo existe neste mundo, falta ainda perceber o que leva estas pessoas a preocupar-se tanto (mais do que as outras e ao ponto de se colocarem em risco) com o bem-estar de um estranho.

Limitações e implicações

Tobias Kalenscher, investigador no Instituto de Psicologia Experimental na Universidade de Düsseldorf, na Alemanha, escreveu um comentário sobre os resultados deste estudo na mesma edição da Nature Human Behaviour, no qual fala das suas limitações mas também das possíveis implicações positivas. “O estudo da equipa de Kruti Vekaria é emocionante e importante, não só porque elucida a psicologia do altruísmo extremo, mas também porque se refere à natureza do altruísmo em geral”, considera. “A observação de que os extraordinários altruístas e pessoas comuns percebem a distância social de forma equivalente, mas que ainda assim diferem na forma como valorizam o bem-estar de estranhos, coloca em causa a possibilidade de o comportamento dos altruístas ser meramente resultante de uma distorção da percepção do outro”, acrescenta. “Em vez disso, estes resultados suportam a noção da existência de uma motivação genuína pelo bem-estar do outro”, conclui.

Sobre as limitações, Tobias Kalenscher também nota que o estudo não consegue esclarecer as razões que levam estas pessoas a valorizar tanto o bem-estar do outro. Por outro lado, a investigação de Kruti Vekaria também não explora a relação da evolução humana com este tipo de altruísmo, que tem sido muito debatida na psicologia. “É um enigma por que razão a selecção natural não erradicou a propensão para o altruísmo extraordinário, dado o pesado fardo que pode significar para um indivíduo”, explica, especulando que “é possível que o altruísmo extraordinário forneça vantagens adaptativas ao nível do grupo”, nomeadamente através do “estímulo de normas culturais, éticas e sociais que promovem a cooperação”.

A doação de um rim a um estranho é um excelente exemplo de um altruísmo extremo, concorda Tobias Kalenscher, notando que o caso de alguém que se precipita para um carro em chamas para salvar um ocupante que não conhece também se enquadra neste comportamento extraordinário. E este estudo, defende o investigador, poderá mesmo ter um efeito positivo em campanhas pela doação de órgãos, fazendo com que sejam direccionadas para as intenções altruísticas dos potenciais dadores.

Mas, além das limitações e implicações práticas do estudo, Tobias Kalenscher sublinha que as provas sobre a existência de uma motivação genuinamente altruísta “são entusiasmantes para os cientistas e também para o público em geral”. E conclui: “No actual Zeitgeist [clima que se vive actualmente no mundo] de proteccionismo nacionalista e individualismo populista, estas notícias dão esperança para o futuro.”