Entrevista

Rui Moreira: “Não sairei para ministro nem para eurodeputado”

Rui Moreira não conhece o candidato do PSD, paga para ver se Rui Rio avança para a liderança dos sociais-democratas. Diz que fará só mais um mandato e que não sairá do Porto. Para o FC Porto? "São as fantasias que temos."

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Manuel Roberto

Para quem vai o elogio de Rui Moreira? Para CDU e BE, que apresentam candidatos "destacados" à câmara. Rui Moreira diz que a eleição não é um passeio, mas conta passear.

Está à espera de um passeio nesta campanha? Com quem vai ter de bater-se mais pelos votos, com o PSD ou com Ilda Figueiredo e João Semedo, duas figuras de protagonismo nacional que o PCP e o Bloco escolheram para estas eleições?
Numa campanha eleitoral não há passeio, desde logo por respeito aos eleitores – ainda que conte passear bastante, porque a forma como fiz a campanha eleitoral foi passeando muito. Quanto ao resto, posso saudar o Bloco e o PCP, porque eles honram a cidade ao enviarem a estas eleições duas figuras muito destacadas. No caso do PSD, não conheço o candidato, mas com certeza que ficarei a conhecê-lo.

Não o conhece pessoalmente?
Cruzei-me com ele três vezes e nunca trocámos palavras, a não ser palavras de circunstância. 

Nunca o ouviu na Rádio Renascença [Álvaro Almeida é colunista da estação]?
Não.

Na sua primeira candidatura sentia-se um apoio mais directo da sociedade civil, com nomes como Daniel Bessa, Artur Santos Silva ou Miguel Veiga a empurrá-lo. Quatro anos depois discute-se apenas o apoio do PS e do CDS. Hoje é um candidato menos independente?
Algumas dessas pessoas infelizmente já não estão connosco. Quanto às outras, ainda não apresentei a minha candidatura. Estou convencido de que, quando a apresentar, algumas dessas pessoas voltarão a aparecer. Essas pessoas têm-se empenhado em me apoiar, em me aconselhar e em dizer-nos o que fazemos bem e menos bem.

Valente de Oliveira vai ser o seu mandatário?
Vai. 

Nas suas listas, que lugares vão caber ao PS? E ao CDS?
Lugares como?

Viu o que disse a número dois do PS a propósito de lugares? Que o PS teria uma representação “expressiva”. O que é que isso quer dizer?
Eu nunca falei com ela sobre esse assunto.

Com ela talvez não, mas com António Costa?
Bom, vamos lá a ver. Eu começo aí por Manuel Pizarro, porque o meu parceiro nestes quatro anos foi ele. Só posso elogiar a sua competência e lealdade e essa lealdade expressou-se também no momento em que ele, sem negociar comigo fosse o que fosse, defendeu que o PS devia apoiar a minha candidatura. Se me perguntar se vou convidar Manuel Pizarro, claro que vou. 

Para número dois?
Não. Eu convidarei Manuel Pizarro e o lugar de Manuel Pizarro será decidido. Para já, não sei se ele quer ficar. Relativamente a essa matéria, faço o que fiz há quatro anos com o CDS. Creio que António Costa revelou não só inteligência, como também um grande respeito pela cidade do Porto, dizendo que se é isto que os portuenses e o PS do Porto querem, então faça-se assim.

Depois dos avisos que fizeram, os militantes dos partidos que integrarem as suas listas não vão ser vistos como boys à procura de jobs? 
Não, por uma razão: em contraste com outras candidaturas que houve no Porto em tempos anteriores, quando escolhi as pessoas, pensei no governo que queria formar. Eu escolhi as pessoas não apenas de acordo com um critério fundamental, que é o meu julgamento sobre a competência e o carácter, mas depois também sobre a distribuição de pastas que teria de fazer no governo da cidade. Ao contrário do que acontece no governo da República, nós não podemos substituir um vereador como se [substitui] um ministro.

Mas agora já tem essa experiência e confirmação.
E por isso mesmo irei apresentar uma lista constituída por pessoas que, independentemente do espectro partidário, possam desempenhar as tarefas que considero necessárias para o próximo mandato.

Quando será conhecida essa lista?
Lá para finais de Junho. Por aí. Vem aí o Papa, depois comemora-se o 10 de Junho no Porto… a seguir. 

Com estes apoios, contenta-se com menos do que uma maioria absoluta?
É óbvio que a expectativa de qualquer pessoa que quer governar a cidade e que pode ser presidente é ter uma maioria absoluta. Mas, ainda assim, a geografia é sempre determinada pelo eleitorado. Terei de viver com o que for a vontade do eleitorado, que respeitarei como respeitei da outra vez, quando procurei fazer um acordo. O acordo foi feito com o PS e começou aí o princípio de lealdade com Manuel Pizarro, em que foi claro, e está escrito, que esta coligação iria cumprir o programa do Porto o Nosso Partido [o movimento de Rui Moreira].

Quando sair da câmara, gostaria mais de ser ministro ou eurodeputado [como disse o socialista Manuel dos Santos, acusando-o de ter um acordo secreto com António Costa]?
Não serei nem uma coisa, nem outra. Não quero sair do Porto. Não tenho vontade nenhuma de sair do Porto, como já demonstrei outras vezes. 

Dada a limitação de mandatos, não se vai poder eternizar aqui. Tendo ambição política, qual a função que mais se ajustava ao seu perfil?
Eu até poderei fazer mais dois mandatos. O mais provável será fazer mais um. Dois mandatos será o ciclo razoável para estas coisas. A partir daí voltarei a tratar das coisas de que sempre gostei, como escrever ou fotografar.

Mas é curiosa a precisão da sua resposta, dizer que dois mandatos chegam.
Eu acho que o normal é fazer dois mandatos – como, aliás, acontece na Presidência da República.

Findo esse prazo, regressa à sua vida…
… tenho imensos interesses…..

A presidência do FC Porto, por exemplo?
Essa é uma velha história. Acho que é Bruno Carvalho que diz que desde que nasceu que quer ser presidente do Sporting. Qualquer portista, já que não pode jogar futebol, já que que não tem idade para isso, gostará de ter um cargo no FC Porto. São as fantasias que nós temos.

Como estão as suas relações com Pinto da Costa?
São relações que sempre tive, de respeito. Acredito que seja de respeito mútuo, de consideração e de separação.

Não se envolve na vida interna do clube?
Não. Fui votar e votei nele. Costumo votar, mas não acho sequer que fosse adequado um presidente de câmara ter uma relação excessiva com o seu clube. Afinal na cidade do Porto há benfiquistas, sportinguistas, boavisteiros.

Falando neles, é verdade que as suas relações com Rui Rio passaram rapidamente do apoio velado que ele lhe concedeu nas últimas eleições para uma oposição feroz ao seu executivo? 
Tem de lhe perguntar a ele.

O "riísmo" é a força política local que lhe faz mais oposição?
Não sei. Não sei se isso existe. A minha relação com o PSD é clara. Tive uma relação muito construtiva e de respeito mútuo com Pedro Passos Coelho. Aqui na câmara o PSD está representado na vereação e na assembleia municipal e é com esse PSD que tenho de me relacionar. Não tenho hipótese de me relacionar com vários PSD. Eu relaciono-me com o PSD que tem uma representação na câmara.

Há quatro anos, agradeceu o apoio de Rui Rio (mesmo que indirecto e informal). Percebeu-se que havia um certo legado e que Rui Moreira seria a continuação do mandato de Rui Rio…
O que disse sempre é que havia um legado de Rui Rio que iríamos cumprir. Tem que ver com as boas contas e com um ciclo que era preciso fazer no Porto.

Recentemente fez um auto-elogio que soou a crítica a esse legado, dizendo que tinha baixado mais a dívida da câmara num mandato do que Rui Rio em três. 
Não estava a fazer nenhum auto-elogio. O Relatório e Contas realça a evolução da dívida desde o início do século. Agora, que nós tivemos melhores contas… tivemos. Mas é verdade que é mais fácil termos melhores contas depois de elas terem já melhorado.  

O sucesso que reclama para as contas é a continuação do sucesso de Rui Rio? 
Claro. E creio que terá sido aí que muitas pessoas entenderam que eu iria ser capaz de continuar nessa evolução positiva das contas da cidade, ou seja, aquilo que eram as expectativas dessas pessoas nessa matéria não foram goradas. No remanescente eu sempre tive uma ideia muito concreta para o Porto. Venho a falar nisto há 15 ou 16 anos e as pessoas sabiam o que eu pensava e acho que tenho cumprido o projecto de cidade que  tinha. 

Há um ponto de contacto entre o anterior mandato e o actual: uma certa tensão com a comunicação social. Faz sentido que Rui Moreira, um liberal que durante anos escreveu contra a relação conflitual entre a câmara e a imprensa, esteja hoje a alimentá-la?
Eu não alimento nenhuma tensão com a comunicação social. Aliás, não é essa a percepção que existe. Mais do que isso: nunca hostilizei nenhum jornalista em particular e até fomos acusados em emails anónimos, que sabemos de onde vêm, de termos um negócio feito com a comunicação social, de comprar os jornais e de comprar jornalistas, o que é profundamente falso. 

Que mails são esses?
Entre os vários mails anónimos que circularam pela cidade, um deles referia que a Câmara Municipal do Porto estaria a comprar publicidade em jornais para que os jornais dissessem bem da câmara e do seu presidente e que o presidente andava a convidar jornalistas para almoçar. Para sermos claros, isso não quer dizer que não tenhamos necessidade de termos os nossos meios próprios para divulgação de notícias. Temos um jornal, que julgamos ser caso único em Portugal, em que damos voz à oposição; temos um site, que consideramos essencial, com as notícias que consideramos pertinentes. Fruto de várias circunstâncias, mas também de algum centralismo, há muitas matérias relativas ao Porto que a comunicação social não consegue fazer passar. Nós não abdicaremos de o fazer e não deixaremos de fazer fact checking. Não há nenhuma acrimónia nisto, apenas a necessidade de utilizar os recursos disponíveis para informarmos a cidade.

Há acrimónia quando Rui Moreira fala numa reunião de câmara contra a cobertura que a agência Lusa estava a fazer de alguns assuntos de natureza municipal. 
Não é acrimónia, é uma constatação. É fact cheking. A comunicação social faz permanentemente fact checking. E nós também temos o direito de o fazer. E faremos sempre que acharmos que, de alguma maneira, a realidade está a ser desvirtuada. Agora, nunca me ouviram criticar um editorial ou uma opinião de um jornalista ou de um comentador. E aí é um grande contraste com o passado. 

Rui Rio daria um bom líder do PSD? 
Eu não sou do PSD. Isso é a mesma coisa que me perguntar se Rui Rio seria um bom líder do Benfica, ou do Boavista. Não sei. 

Acha que Rui Rio passaria da Arrábida?
Acho que teve a oportunidade de o fazer. Até hoje não o quis fazer. Veremos.