Frenesi: a arte de bem editar em 135 livros e algumas folhas soltas

Recorrendo a toda a gama de papéis, tipos de letra e técnicas de impressão, a Frenesi de Paulo da Costa Domingos construiu um catálogo que é também uma colecção de pequenas pérolas visuais. A pretexto dos 30 anos da antologia Sião, o espaço Sismógrafo mostra agora todo o legado da editora.

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Paulo da Costa Domingos preparando a exposição no spaço Sismógrafo Paulo Pimenta
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O Homem Quase Novo foi o último título publicado pela Frenesi, em 2010 Paulo Pimenta

No final dos anos 70, o poeta Paulo da Costa Domingos, que trabalhava há já alguns anos na & etc de Vítor Silva Tavares, começou a distribuir gratuitamente umas folhas A4 dobradas a meio, com um grafismo vagamente punk e pequenos textos, entre os quais se contavam traduções – as primeiras em Portugal – de Jim Morrison, Patti Smith ou Tom Waits. Depois reunidas e comercializadas em envelopes ou entaladas entre dois cartões, estas folhas marcam o início da Frenesi, que à sua dimensão foi um dos mais singulares trajectos da edição portuguesa das últimas décadas, pela coerência do catálogo, mas sobretudo pela diversidade e criatividade das soluções gráficas.

Um percurso que agora pode ser visto no espaço portuense Sismógrafo (Praça dos Poveiros, 56, 1.º), onde se manterá até ao próximo dia 20 de Maio a exposição A Editora Frenesi nos 30 anos na Antologia Sião. 1987-2017, que mostra, por ordem cronológica, as 33 folhas, as oito edições particulares e as 127 edições comerciais (contando com as raras reedições) que a Frenesi publicou, e que incluem a carismática antologia de poesia portuguesa Sião.

Em 2010, após ter lançado aquela que é até ver a última edição da Frenesi – o seu livro de poemas O Homem Quase Novo –, Paulo da Costa Domingos decidiu que era tempo de fazer uma pausa por tempo indeterminado. “O conflito entre mim e os negociantes de livros agudizou-se de tal maneira que resolvi parar e tornei-me alfarrabista”, explica, precisando que só não deu formalmente baixa da actividade “porque o mundo político está a complicar-se de tal maneira, que mais tarde ou mais cedo os editores encartados vão ser todos necessários”.

A exposição do Sismógrafo (visitável de quinta a sábado entre as 15h e as 19h) é composta pelos próprios livros, na sua maioria exemplares únicos de edições esgotadas, que foram pousados no chão, junto aos rodapés, com excepção de um pequeno conjunto de raridades bibliográficas que teve direito a uma mesa à parte e que inclui edições fora do mercado como Ave de Partida (1981), de Joaquim Manuel Magalhães e da pintora Ana Marchand, Seguia o Clamor da Razão sob as Árvores do Parque (1982), de João Miguel Fernandes Jorge e Jorge Molder, ou O Último Habitante (1984), de Al Berto e Paulo Nozolino. 

Nesses anos em que a Frenesi ainda era formalmente uma colecção dentro da & etc – “o Vítor não tinha nada a ver com aquilo, mas foi o modo que encontrámos de lhe dar suporte legal” –, o primeiro livro que chegou às livrarias foi o volume de poemas Quiasma (1982), de Rui Baião, um original que Vítor Silva Tavares rejeitara. “Costumo dizer que a Frenesi nasceu de uma dissidência da & etc, mas não no sentido de um conflito interno”, diz Paulo da Costa Domingos. “O que aconteceu foi que estavam a surgir uns autores de quem eu estava mais próximo e que não eram tanto o registo do Vítor, ainda que ele publicasse gente muito nova”.

Mas o exemplo de Rui Baião, que acabaria mesmo por publicar outros títulos na & etc., só confirma que as divergências estéticas não eram assim tão pronunciadas. Onde a Frenesi, desde o início, fez mais notoriamente a diferença foi no plano gráfico. Todas as suas edições são pequenas pérolas visuais e, ao contrário do que acontecia na & etc, cujos livros tinham uma uniformidade gráfica muito marcada, o princípio que orientava a editora de Paulo da Costa Domingos era o de que “cada texto suscita uma solução gráfica distinta”. Tendo em comum apenas o formato (13x19 cm), os livros da Frenesi utilizam uma exuberante variedade de papéis e letras, e constituem também um mostruário das diferentes técnicas disponíveis em cada momento, da composição manual à tipográfica, e do off-set ao digital, não raro combinadas na mesma edição.

A opção de dispor os livros por ordem cronológica permite também que os visitantes desta exposição se apercebam mais facilmente das sucessivas etapas da Frenesi, que se podem resumir em três períodos principais. Até meados da década de 90 foi sobretudo uma editora de poesia portuguesa, publicando, além do próprio Paulo da Costa Domingos, Al Berto, Rui Baião, Emanuel Jorge Botelho, Jorge Fallorca, Álvaro Lapa, Jorge Aguiar Oliveira, Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado, Manuel Fernando Gonçalves, Adília Lopes, Fernando Luís ou Luis Manuel Gaspar, entre outros autores.

E ainda Manuel António Pina e Eduardo Pitta, que seriam mais tarde “excluídos do catálogo” por terem subscrito, em finais de 1999, um texto que apoiava a permanência, na direcção da Casa Fernando Pessoa, de Manuela Júdice, com quem Paulo da Costa Domingos se desentendera por causa de um projectado número da revista Tabacaria dedicado a Mário Cesariny. Mas como os livros de Pina e Pitta constam desta exposição, talvez seja mais rigoroso dizer que foram incluídos na sua condição de excluídos.

Mesmo nessa sua fase inicial mais centrada na poesia contemporânea, a Frenesi publicou algumas traduções. Uma delas foi o livro Banalidades de Base, do situacionista Raoul Vaneigem, lançado em 1988, e cujos restos de edição vieram a ter, sete anos mais tarde, um destino curioso. No Verão de 1995, o Monumental exibiu em Lisboa o documentário Guy Debord, Son Art et Son Temps, e Paulo da Costa Domingos achou que era a oportunidade ideal para reciclar os cento e tal exemplares que ainda lhe restavam em armazém: numerou-os, colou-lhes na capa uma tarjeta com a pergunta “Consumidor passivo, para quando o fim da mercadoria?”, e foi pôr-se à porta do cinema a oferecê-los a quem já tivesse comprado bilhete para o filme.

Mas é só a partir de meados dos anos noventa, quando a Frenesi edita o Prometeu Agrilhoado, atribuído a Ésquilo, A Espuma dos Dias, de Boris Vian, as Reflexões sobre a Mentira, de Alexandre Koyré, ou a Viagem ao Fim da Noite, de Louis-Ferdinand Céline, que as traduções começam a ser o prato forte da Frenesi. Entre as obras que lançou nessa altura, uma das que o editor considera mais importantes é Marcas de Baton. Uma História do Século XX, de Greil Marcus. “É um livro que faz a ligação entre todos os movimentos, do dadaísmo à Internacional Situacionista e ao movimento punk, mostrando que se encaminham todos para a mesma finalidade”, resume. 

A já referida polémica em torno do número especial da Tabacaria dedicado a Cesariny marca de algum modo a passagem para a última fase da Frenesi. Logo no início de 2000, saem duas edições que documentam (e comentam) essa controvérsia, e que dão pelos pitorescos títulos de Judicearias e Corrida de Galgos com Lebre Mecânica. Mas depois desse ajuste de contas, só a título excepcional a Frenesi voltará a publicar autores portugueses vivos.

Até decidir suspender a editora, em 2010, Paulo da Costa Domingos prossegue com a publicação de algumas traduções e, sobretudo, empenha-se na recuperação de vários autores portugueses do século XIX, como Fialho de Almeida, Raul Brandão, Rafael Bordallo Pinheiro, Júlio César Machado ou Cândido de Figueiredo. Mas o propósito dessa última Frenesi, muito ligada a uma certa cultura portuguesa oitocentista que estava bastante esquecida, “não era reactivar clássicos”, explica o editor, “mas integrar aquelas obras no momento que se estava a viver, como se percebe quando se lêem os prefácios dessas edições”.

Depois de ter intervindo na inauguração da exposição, Paulo da Costa Domingos regressa ao Sismógrafo a 20 de Maio para participar na sessão de encerramento, que contará ainda com intervenções do crítico de arte Óscar Faria, um dos responsáveis do espaço portuense, e do poeta Manuel de Freitas, que organizou e publicou em 2002 a antologia Poetas Sem Qualidades, que talvez possa ser considerada uma parente próxima de Sião, pela sua dimensão programática, mas também pelo papel que desempenhou no lançamento e definição da Averno, a editora que Freitas dirige com Inês Dias, e que, não por acaso, vem publicando os mais recentes livros de Paulo da Costa Domingos e Rui Baião.