Crítica Cinema

À boleia pela galáxia (com a família atrás)

A raridade: uma sequela que não estraga o original e confirma a singularidade de uma space opera pop, aqui em modo de comédia clássica.

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Heróis com questões familiares que, em vez de resolverem no psicólogo, deitam cá para fora aos gritos uns com os outros
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Haveria todas as razões (e mais uma) para olhar de esguelha para a mais recente sequela saída da linha de montagem Marvel/Disney. A “mais uma” é a mais importante: o Guardiões da Galáxia original, em 2014, injectava um “pauzinho na engrenagem” nessa linha de montagem, pegando numa série secundária das BD da Marvel e desviando-se da sisudez generalizada do blockbuster moderno para propor uma space opera descomplexada e despretensiosa paredes-meias com a comédia, cinema popular que não se levava demasiado a sério.

A sequela já estava “encastrada” no primeiro filme (sim, que a Disney não brinca em serviço e este “vol. 2” também já deixa pistas para o “vol. 3”) e era legítimo esperar uma repetição menos inspirada e mais constrangida pelas exigências do estúdio. Mas é um alívio ver que o regressado argumentista e realizador James Gunn, formado na escola do low-budget, resistiu ao sucesso descomunal do primeiro filme e, em vez de encher o olho com efeitos especiais, se prefere divertir empilhando citações de cultura pop, de David Hasselhoff a Cheers e Cat Stevens. Basta olhar para o inspiradíssimo genérico, onde uma violentíssima batalha com um monstro repugnante decorre praticamente sempre em pano de fundo enquanto o bebé Groot vai explorando os seus arredores em primeiro plano.

O que se segue é, no essencial, uma comédia meio screwball sobre heróis com questões familiares que, em vez de resolverem no psicólogo, deitam cá para fora aos gritos uns com os outros. Tudo isto enquanto salvam o universo de um vilão imortal, que por acaso até é o pai de um deles. (E que é interpretado por Kurt Russell, o que, somado à presença de Stallone e de mais dois ou três cameos no genérico final, literaliza muito mais a herança do cinema popular dos anos 1980, modo Arma Mortífera/Snake Plissken/Joe Dante, que James Gunn está claramente a invocar.)

Para Guardiões da Galáxia Vol. 2 ser perfeito falta o mesmo que já faltava ao vol. 1: um pouco mais de contenção e de ritmo (as 2h15 arrastam-se aqui e ali), e um pouco menos de motor narrativo para nos deixar passar mais tempo com estas personagens. Dante seria provavelmente o realizador ideal para este filme, mas visto que não o temos Gunn prova ser um sucessor digno, mesmo que ainda sem lhe chegar aos pés. E voltamos a ter um entretenimento de verão decente, divertido, refrescante, que se devora sem sentimentos de culpa como um gelado em dia de escaldão 40 graus.