A França vista pela imprensa: do "Frexit" às "águas nunca dantes navegadas"

O resultado das eleições francesas de domingo e a antecipação da segunda volta pelos olhos da imprensa internacional.

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Reuters/ERIC GAILLARD

The Guardian: a vitória da esperança

O britânico The Guardian viu o resultado das eleições de ontem como uma vitória “da esperança”. “A França votou pela mudança”, escreve o editorialista do diário britânico, sublinhando que neste primeiro round das eleições “os partidos pós-guerra saíram humilhados”. Assim, e seja qual for o outsider a sair vencedor da segunda volta, Macron ou Le Pen, “a França estará a entrar num novo curso político, com enormes implicações para si e para o resto da Europa”. Basicamente, a ida às urnas no dia 7 de Maio será, segundo o The Guardian, a oportunidade de os franceses escolherem “entre a abertura e o fanatismo, o internacionalismo e o nacionalismo, o optimismo e o ódio, a reacção e a reforma”, em suma, “entre a esperança e o medo”. E o editorialista considera que a eleição de Macron será a única forma de garantir uma reforma em França que seja “progressiva, liberal e pró-europeia”. “Os eleitores franceses fizeram uma ruptura com o passado. Agora têm de terminar a revolução”, apela.

BBC: a França em "águas nunca dantes navegadas"

Dando a vitória de Macron na segunda volta como certa, a BBC sublinha que a França entrará em “águas nunca dantes navegadas”. “Não sendo de nenhum partido, como irá Emmanuel Macron assegurar a maioria no Parlamento?”, questiona, sublinhando que, sem isso, o novo Presidente “não poderá governar da maneira a que os franceses se acostumaram”. “Sem uma maioria, o Presidente Macron “teria que negociar o seu programa através do Parlamento. O primeiro-ministro tornar-se-ia uma figura crucial. O poder mudaria de mãos. Seria uma 5ª República muito diferente”, antecipa. 

Libération: "regime francês em sofrimento"

Numa análise no jornal de esquerda Libération, logo após o fecho das urnas, Grégoire Biseau escreveu que "o regime francês está em sofrimento". "O futuro Presidente partirá com uma base eleitoral muito estreita, os eleitores mostraram o seu desejo de mudança ao votarem nos candidatos de fora do sistema, e o bipartidarismo parece ultrapassado". Já no Figaro, Alexis Brezet conclui que "o impossível aconteceu".

New York Times: um terramoto

O New York Times compra o resultado das eleições francesas a um terramoto e considera, na sua análise, que o assunto é agora "mortalmente sério", porquanto nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, a extrema-direita francesa tinha estado tão próxima do poder". 

El País: a esperança e as dificuldades de Macron

Escreve o espanhol El País, num editorial com o título "A esperança Macron": "São duas as más notícias deste domingo. A primeira é o espectacular resultado de Marine Le Pen, que fulmina os seus próprios recordes. A segunda são as dificuldades que provavelmente enfrentará Macron para conseguir uma maioria no parlamento nas próximas legislativas de Junho. Macron é um líder sem partido que terá que ser capaz de conseguir uma coligação que lhe permita governar. O seu sucesso mostra a importância de romper com as inércias e apresentar ideias inovadoras e assinala o caminho que os partidos tradicionais devem percorrer se quiserem voltar a ligar-se aos seus eleitores."

El Mundo: Europa respira de alívio

O diário espanhol El Mundo sublinha que toda a Europa respirou de alívio com a vitória de Emmanuel Macron, na primeira volta das presidenciais francesas. E arrisca antecipar que o candidato centrista, ex-ministro de François Hollande, se perfila como o próximo Presidente da República Francesa, porque, sustenta em editorial, “poderá contar com os votos de todos aqueles que consideram necessário travar o projecto anti-europeu e xenófobo” de Marine Le Pen. Isto apesar de reconhecer que quase 45% dos franceses votaram em opções que rejeitam o projecto europeu. É que ao resultado da extrema-direita há que somar os que votaram na extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon, que já ainda não disse quem apoiará a 7 de Maio, e que, como Marine Le Pen, defendeu um "Frexit". Assim, antecipa o El Mundo, numas eleições em que pela primeira vez na história recente de França, não estarão representados nenhum dos partidos que têm governado a França nos últimos 60 anos, o maior desafio de Macron será combater a “crise de credibilidade que está a favorecer o impulso do populismo e que minou os partidos tradicionais”.

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