Obras do IP-2 ergueram “muros” em redor de Entradas e Castro Verde

Agricultores estão impedidos de chegar às suas explorações e os ambientalistas têm de fazer, a mais, 900 quilómetros por mês para monitorizar a biodiversidade do Campo Branco.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Desde 2004 que a população de Castro Verde sustenta um braço de ferro, primeiro com a empresa Estradas de Portugal, e depois com a empresa Infraestruturas de Portugal (IP) em redor da construção do nó rodoviário de Entradas no âmbito do projecto de requalificação do troço do Itinerário Principal (IP-2) entre Ourique e Évora. Esta obra cortou-lhes os acessos aos campos agrícolas.

As negociações sempre se revelaram, desde o primeiro momento, muito difíceis e terminaram em Novembro passado de forma abrupta e unilateral, com a vedação de todos os acessos aos caminhos alternativos que a população de Entradas utilizava para chegar as suas explorações agrícolas. Até os ambientalistas da Liga para a Protecção da Natureza passaram a ter a sua actividade mais condicionada no Centro de Educação Ambiental do Vale Gonçalinho, em plena Zona de Protecção Especial (ZPE) de Castro Verde, com os impedimentos impostos pela empresa IP.  

O presidente da Câmara de Castro Verde, Francisco Duarte, relatou ao PÚBLICO o mal-estar que é patente nas pessoas mais afectadas pelo “bloqueamento” das passagens para o IP-2: os agricultores. “Andam com os cabelos em pé. Depois do fecho do IP-2 têm de fazer quilómetros e quilómetros a mais”. O problema, assinala o autarca, assumirá maior dimensão “quando chegar a altura das ceifas e as máquinas ceifeiras não puderem chegar às searas”.

Rita Alcazar, dirigente da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) e que desempenha as suas funções no Centro de Educação Ambiental do Vale Gonçalinho, descreve ao PÚBLICO um exemplo caricato: “Há agricultores que fizeram as sementeiras em locais onde se podiam deslocar antes de serem encerradas os acessos ao IP-2. Agora não têm como fazer as colheitas”.Esta decisão, prossegue a dirigente da LPN “só deveria ter sido tomada depois de instaladas as alternativas” de acesso aos caminhos rurais.

“Acresce que a área afectada pela decisão da empresa IP é um território protegido, do qual tentamos tirar o máximo proveito em termos de turismo da natureza e turismo cultural”, sublinha Francisco Duarte lembrando que o município de Castro Verde acaba de candidatar o concelho a Reserva da Biodiversidade da UNESCO. “Há circuitos montados para quem queira percorrer o território que estão incluídos na nossa candidatura”. O problema é que deixaram de poder ser feitos “por terem cortado os acessos”, critica o autarca.

Rita Alcazar salienta que o encerramento dos acessos aos caminhos alternativos ao IP-2 têm implicações directas na actividade da Liga. “Somos proprietários de uma área agrícola e ambiental (cerca de 1700 hectares) e o nosso quotidiano — desde os movimentos no terreno obrigatórios para quem faz agricultura até ao trabalho de campo de monitorização da biodiversidade — ficam afectados”.

Posto sem acesso

As consequências reflectem-se igualmente na actividade económica local. Na estação de serviço de Entradas, cerca de 80% dos clientes circulam no sentido norte

sul e agora estão impedidos de ter acesso a este ponto de abastecimento de combustível. Nas actuais condições, a actividade “não pode sobreviver”, admite o autarca

Os constrangimentos criados não se ficam por aqui. A vila de Entradas está rodeada por uma ribeira. No Verão consegue-se fazer ali o atravessamento mas no Inverno, como o PÚBLICO observou, não é possível passar a vau. Em causa fica o acesso às explorações agrícolas em parte da área do Campo Branco que vive sobretudo da agricultura e da pecuária.

O presidente da Associação de Agricultores do Campo Branco, José da Luz, diz que “não há passagens que permitam o atravessamento do IP-2 por máquinas agrícolas”. As que existem, por debaixo do IP-2, “são muito baixas e não permitem a passagem de tractores, de atrelados e de ceifeiras debulhadoras”, acentua o dirigente associativo. “Há dias — conta José da Luz — uma caravana de turistas queria ir ver os pássaros a Vale Gonçalinho e ficou encravada numa dessas passagens”.

O agricultor lembra que todos os dias vinham dezenas de pessoas ao Campo Branco para observar as aves. Agora já não o podem fazer.   

E mesmo dentro das propriedades da LPN passaram a fazer-se, a mais, cerca de 900 quilómetros por mês para conseguir desenvolver a actividade agrícola e fazer a monitorização da biodiversidade, totalmente integrada num ecossistema estepário, que se realça pela importância da sua avifauna, e onde estão identificadas cerca de 160 espécies de aves. Uma investigadora da LPN que reside na Vidigueira “passou a ter de fazer mais 600 quilómetros por mês para chegar ou partir de Vale Gonçalinho”, refere Rita Alcazar para exemplificar as consequências do encerramento dos acessos ao IP-2 sem terem sido instalados os caminhos alternativos.

Muitos prejuízos

A decisão tomada pela empresa IP representa um acréscimo na quilometragem, nos gastos em combustíveis, desgaste de material e perda de tempo. “Há prejuízos contabilizáveis muito significativos”, sublinha Francisco Duarte, manifestando a sua indignação pela “falta de respeito em relação à população de Entradas”. E não só: a sua segurança está posta em causa, acredita. As obras do troço do IP-2 entre Castro Verde e Beja estão concluídas mas o tipo de traçado habitual nos itinerários principais “não se aplica a Entradas”, denuncia o autarca. Com efeito, “ficou tudo como dantes” nos acessos a Entradas, com cruzamentos em ângulo recto.

O PÚBLICO solicitou à empresa Infraestruturas de Portugal um conjunto de esclarecimentos sobre a construção de um nó rodoviário em Entradas e sobre o encerramento dos acessos ao IP-2. A empresa respondeu que o faria “logo que possível”. Ainda não houve resposta.

Castro Verde pediu apenas melhores condições de segurança

Em 2004 foram apresentados pela empresa Estradas de Portugal (EP) ao município de Castro Verde os primeiros projectos para a construção de passagens aéreas em Entradas. “Considerámos a proposta uma obra faraónica que ultrapassava em muito as obras que, na nossa opinião, eram necessárias”, recordou o presidente da câmara Francisco Duarte, referindo que a autarquia apenas tinha solicitado a repavimentação do traçado por este se encontrar em muito mau estado, assim como melhores condições de segurança nos acessos à vila. A Câmara de Castro Verde não defendia a instalação de passagens desniveladas, recorda o autarca. Cada viaduto tem um preço de construção “mínimo” de sete milhões de euros. No troço entre Castro Verde e Beja foram construídos sete viadutos.

“Quando nos foi enviado um primeiro esboço do projecto, discordámos da construção de uma passagem desnivelada localizada exactamente no cruzamento actualmente existente, que tinha seis metros de altura e tapava literalmente o edifício de um restaurante e ficava com as janelas para um aterro”, conta o presidente da câmara de Castro Verde.  

Na resposta, a então Estradas de Portugal enviou um documento com as exigências que seriam impostas pelo novo traçado do IP-2 e alguns condicionalismos que obrigava à construção de passagens desniveladas. “Pedimos para não avançarem com a obra sem que se chegasse a um acordo. O acordo foi alcançado, mas nunca foi cumprido”, critica Franscisco Duarte.

Entretanto o projecto de requalificação do IP-2 entra no domínio do “pára, arranca” devido a problemas financeiros da subconcessionária Sociedade Portuguesa de Exploração Rodoviária ou Estradas da Planície (SPER) e a política de austeridade imposta durante o Governo de Passos Coelho.

Quando o projecto é retomado em 2014, após a renegociação do contrato entre o Estado e consórcio que detém a parceria público-privada da subconcessão do Baixo Alentejo, ficou expresso: “Só as obras de arte iniciadas é que iriam ser concluídas e não haveria o arranque de novas”. Como o nó de Entradas não tinha sido iniciado, é o único que fica por construir.

No entanto a empresa IP instalou um viaduto que “serve apenas um único proprietário”, lamenta Francisco Duarte, para realçar o contraste entre os interesses de uma única pessoa e dos cerca de 700 residentes em Entradas.