Ocupação humana na ilha timorense de Ataúro tem pelo menos 18 mil anos

Escavações arqueológicas em Timor-Leste permitiram descobrir gravuras de crocodilos e mamíferos marinhos.

Ilha de Ataúro ao fundo
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Ilha de Ataúro ao fundo Miguel Madeira/Arquivo

Equipas de arqueólogos detectaram vestígios que comprovam a ocupação humana há pelo menos 18 mil anos na ilha timorense de Ataúro, a norte de Díli, com gravuras rupestres que podem datar de há cerca de 8000 anos.

As investigações foram conduzidas por uma equipa de arqueólogos franceses liderada por Jean-Christophe Galipaud (do Instituto de Investigação para o Desenvolvimento de França e do Museu de História Natural de Paris), que começou recentemente a publicar alguns dos resultados de estudos conduzidos nos últimos anos em vários pontos de Timor-Leste.

Jean-Christophe Galipaud, que começou a residir em Timor-Leste em 2013 – país que visitou pela primeira vez em 2011 –, é um arqueólogo que nos últimos 35 anos se especializou em trabalhos de investigação no Pacífico e no Sudeste Asiático. Depois de três anos de investigação, identificou quatro locais de grande significado arqueológico, dois na região de Balibó, próximo da fronteira com a Indonésia, e os outros dois na ilha de Ataúro, a cerca de 30 quilómetros a norte de Díli.

Em Arlo, no centro de Ataúro, o arqueólogo e a sua equipa encontraram vestígios importantes de aldeias habitadas entre há 2500 e 3000 anos. E em Atekru, na costa do Sudoeste da ilha, os investigadores encontraram vestígios de gravuras rupestres que podem datar de há cerca de 8000 anos. Na mesma gruta em Atekru, Jean-Christophe Galipaud diz ainda ter encontrado vestígios de ocupação humana de há mais de 18 mil anos, a datação mais antiga comprovada até hoje em Ataúro.

Recorde-se que os estudos conduzidos em Timor-Leste nos últimos 15 anos permitiram corrigir significativamente as estimativas anteriores sobre a colonização humana da ilha, com as datações arqueológicas mais antigas a apontarem para 42 mil anos. Arte rupestre, alguns objectos e outros elementos orgânicos (como conchas em grutas) são alguns dos vestígios que ajudaram a contextualizar a datação.

O interesse do arqueólogo em estudar este período em Timor-Leste é não só para explicar algo do passado do país mas também porque ajuda a perceber melhor o que ocorreu no Pacífico. “Sabemos que chegaram novas populações à região, austronésios, oriundos de Taiwan, que se espalharam pelo Sudeste asiático. A maioria das línguas faladas nestas ilhas, incluindo Timor, são da família austronésia”, recordou. “O Sudeste asiático, as ilhas desta região são um local muito especial que viu um desenvolvimento muito original em termos de culturas e influência. Quando se trabalha no Pacífico não se pode não ter interesse na história do Sudeste asiático.”

Se alguma da arte rupestre lida com representações ou imagens nem sempre reconhecíveis, a arte rupestre encontrada em Ataúro é “especialmente interessante” porque mostra “representações vívidas de animais, como crocodilos ou mamíferos marinhos” de vários tipos. “Num dos painéis nessa gruta podemos ver algo que pode representar uma caça de baleias ou a caça de um qualquer mamífero marinho. Este tipo de gravuras são muito raras e não se encontram entre outros exemplos de arte rupestre de Timor-Leste”, explicou o arqueólogo.

Para Jean-Christophe Galipaud, Timor-Leste é “arqueologicamente rico”, mas é uma ilha que coloca desafios aos arqueólogos. “Encontrar locais com 3000 anos torna-se difícil porque nesse período muitas comunidades já viviam perto do mar, o que torna as zonas que habitavam mais difíceis de detectar devido à erosão que ocorreu.”

Os trabalhos de Jean-Christophe Galipaud, como de outras equipas de arqueólogos que têm sido realizados em Timor-Leste, têm contado com o apoio e colaboração da Secretaria de Estado da Arte e da Cultura timorense e suscitado amplo interesse entre as comunidades locais.

“Há sempre algumas expectativas e muita curiosidade. Depois, quando começamos a trabalhar, as pessoas começam a perceber o que procuramos, como se desenvolve o trabalho do arqueólogo”, disse. “É um processo moroso, encontrar os locais, procurar com guias locais, escavar nas zonas potenciais. Nesta fase, tento sempre envolver os habitantes locais porque posso explicar o significado das pequenas coisas que encontramos: o carvão, os instrumentos, algumas estruturas, ou ossos de animais que já não existem.”

O arqueólogo francês vai manter-se ligado a Timor-Leste: prevê fazer visitas regulares para continuar a investigação e, agora, tem um leque amplo de estudos para publicar.