Plantar oliveiras sobre um recinto ritual com cinco mil anos

Os homens que o construíram tinham uma visão bem diferente do mundo e atravessavam grandes mudanças. Os fossos e artefactos que deixaram guardam muita informação. Desenvolver a agricultura não deve impedir a sua preservação.

Composição de imagens aéreas do Google Earth e do Centro Nacional de Informação Geográfica
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Composição de imagens aéreas do Google Earth e do Centro Nacional de Informação Geográfica Cortesia: António Carlos Valera

Quando se fala da Salvada 10, um sítio de valor arqueológico com 5000 anos a 300 metros de uma pequena aldeia alentejana a que deve o nome, é difícil dar a entender, de imediato, por que razões é importante preservá-lo. Desde logo porque é bem possível, mesmo a um arqueólogo habituado à pré-história, estar em cima dele sem dar por isso. Todas as suas estruturas são negativas – trata-se daquilo a que os especialistas chamam um recinto de fossos do Calcolítico, talvez mesmo do Neolítico final – e a sua configuração só é perceptível a partir de imagens aéreas.

Afinal, o que é um “recinto de fossos”? A resposta vem carregada de hipóteses, já que, sendo comuns na Europa, incluindo na Península Ibérica, e estudados há décadas, têm ainda muito por explicar. “São sítios extraordinariamente complexos, que podem atingir grande monumentalidade, onde as pessoas se reuniam. A sua função seria essencialmente ritual, embora neles se misturem várias dimensões da vida social das comunidades que os construíram”, explica António Carlos Valera, 54 anos, investigador da Universidade do Algarve que dirige os trabalhos no Complexo Arqueológico dos Perdigões, um espaço semelhante na Herdade do Esporão, Reguengos de Monsaraz, que está a ser escavado e estudado há 20 anos e que poderá vir a ser considerado monumento nacional.

O sítio da Salvada 10 é um recinto de fossos concêntricos com cerca de 20 hectares que começou a ser construído no terceiro milénio a.C. ou talvez antes. Visto no Google Earth é quase do mesmo tamanho da aldeia próxima, diz o arqueólogo, que para dar a conhecer a sua planta combinou imagens obtidas através desta ferramenta do Google e do Centro Nacional de Informação Geográfica. Foi Valera que o identificou.

Não se sabe quantos fossos existem na Salvada 10 nem quais são as características, mas este arqueólogo lembra que há exemplares noutros locais que podem chegar a ter dezenas de metros de diâmetro e nove de profundidade. “Quando falamos em proteger este património que neste momento está muito vulnerável, estamos a referir-nos às estruturas, mas também à informação que elas nos podem trazer. Sabemos que há aqui um impulso económico que não se pode ignorar e que vem da agricultura, mas é preciso sensibilizar as pessoas para a mais-valia que estes lugares trazem em termos científicos, culturais e turísticos. Não podemos estudar todos, nem mostrar todos, mas alguma coisa temos de fazer para que tudo o que eles nos podem contar sobre nós, sobre a nova evolução social, não se perca.”

A informação até aqui recolhida pelos arqueólogos no complexo do Esporão permite dizer que aquele sítio foi usado durante 1500 anos e que nele se encontravam pessoas oriundas do Norte de África, da Península de Lisboa e, muito provavelmente, de outros pontos da Península Ibérica. Os objectos encontrados – cerâmicas, pequenos animais e ídolos de marfim, entre outros – têm proveniências várias, e alguns de bem longe, como África e o oriente.

“Na Salvada, se escavarmos, provavelmente encontraremos objectos semelhantes”, diz Valera, lembrando que à superfície foram recolhidos muitos artefactos – pratos, taças e tigelas em cerâmica; utensílios de pedra polida, como machados e martelos; um ídolo em mármore –, ossos de diversos animais e até uma falange de um pé humano. “Se for como nos Perdigões – e tem até potencial para ser mais complexo porque é maior – o recinto da Salvada pode reforçar a tese de que as sociedades que deram origem a estes espaços monumentais são muito mais evoluídas e cosmopolitas do que se pensava, pode dizer-nos que havia já uma grande mobilidade de pessoas há cinco mil anos e que a Península Ibérica não era uma terra de brutamontes.”

Estes recintos de fossos marcam um momento muito particular da história da humanidade, defende Valera, já que surgem na transição das sociedades que vivem muito integradas na natureza e sem uma hierarquia definida, para outras em que o homem passa a destacar-se de tudo o que o rodeia. “É neste momento que a visão do mundo muda, em que se passa de comunidades muito igualitárias, em que todo o poder é negociado, para outras em que o homem quer sobressair, com tudo o que isso implica em termos sociais.” Nestes recintos, continua, o poder era disputado por famílias e grupos e é bem provável que a proximidade entre a Salvada 10 e o Monte das Cabeceiras 2, outro recinto a três quilómetros, resulte dessa competição.

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Regras desadequadas

A exploração intensiva de vinha e, sobretudo, de olival está a afectar ou até mesmo a destruir grande parte do património arqueológico do interior alentejano, defende António Carlos Valera. “A Salvada 10 e o Monte das Cabeceiras 2 [estudado antes de ser afectado por um projecto da EDIA - Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva] estão longe de ser os únicos”, diz, explicando por que razão as reconversões agrícolas em grandes áreas, como a dos novos olivais em que as árvores mais parecem arbustos, são mais prejudiciais para o que se encontra no subsolo do que a rede de rega associada à barragem de Alqueva e as auto-estradas: “Plantar um olival obriga a uma alteração muito abrangente no território, já os canais de rega da EDIA e as vias rápidas são alterações lineares, menos agressivas.” Além disso, continua, as reconversões agrícolas não passam pelos municípios nem estão sujeitas a licenciamentos que obriguem a acompanhamento arqueológico e a outras medidas de minimização do impacto ambiental, ao contrário do que acontece com as estradas e o regadio. “É muito difícil, se não mesmo impossível, para quem conhece o que potencialmente está debaixo da terra saber que estas intervenções vão acontecer e evitar as surribas [lavras profundas] ou evitar, pelo menos, que sejam feitas sem que se faça prospecção antes.”

O circuito administrativo estabelecido, que não obriga o agricultor a consultar autarquias e muito menos direcções regionais de Cultura, “é completamente desadequado” e, por isso, “ineficaz”.

Valera, também coordenador do Núcleo de Investigação Arqueológica da empresa ERA, não esteve ainda no sítio da Salvada 10 desde que a terra foi lavrada, mas arrisca-se a dizer que o facto de se ter feito a surriba não significa que tudo tenha sido destruído. “As informações que me chegaram dizem-me que um terço do sítio não foi afectado, pelo que pode ainda ser preservado.”

Neste momento acha fundamental recorrer à geofísica, método de diagnóstico que nos dá uma espécie de radiografia do terreno, para determinar a configuração do recinto e estabelecer condicionantes que permitam proteger o terço que não foi afectado. “É preciso, ao mesmo tempo, sensibilizar os proprietários para o que ali têm, o que pode não ser fácil, já que os fossos não são tão fotogénicos como umas termas romanas.”

Só no Alentejo, este arqueólogo identificou já 70 recintos de fossos pré-históricos, número que acredita ser uma “amostra” dos que ali existem.

Garante Valera que, sempre que viaja pelo Alentejo, se confronta com um olival novo, uma realidade que está também a alterar profundamente a paisagem, com os custos que isso implica para a imagem e o turismo da região. “Da maneira como as coisas estão organizadas, não vejo como se põe mão nisto e como se protege tanto o património arqueológico como o paisagístico, que também têm valor económico. Situações como a da Salvada 10 estão a acontecer no Alentejo todos os dias.”