Governo espanhol proíbe saída do país de quadro atribuído a Velásquez

Retrato de niña vai a leilão esta terça-feira em Madrid. Tem uma base de licitação de oito milhões de euros.

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Retrato de niña, pintura atribuída a Velásquez Abalarte-Leilões

O Governo espanhol publicou uma medida cautelar proibindo a saída do país de uma pintura atribuída a Diego Velásquez (1599-1660), Retrato de niña, que esta terça-feira, 25 de Abril, será a principal atracção de um leilão de pintura, jóias e mobiliário, que a casa Abalarte realiza em Madrid.

O quadro foi declarado pelo secretário de Estado da Cultura, Fernando Benzo, “um bem que não pode ser exportado por se tratar de uma obra atribuída a Velásquez”. Mesmo se essa paternidade está ainda em estudo, como noticia o jornal El País. A decisão do Governo – refere, por sua vez, a agência Efe – vem acompanhada de um pedido à Comunidade de Madrid para que instrua um processo que declare o quadro um “bem de interesse cultural”.

Apesar destas medidas, a leiloeira vai avançar com o leilão, como estava previsto, e, segundo avança o El País, Retrato de niña (também designado Jovem imaculada) terá uma base de licitação de oito milhões de euros – verba que não aparece inscrita no site da leiloeira, ao contrário do que acontece com as outras quatro dezenas de lotes da secção de pintura. E o diário espanhol refere que o director da Abalarte, Gonzalo Mora, recebeu a notícia da decisão do Governo sem surpresa, mesmo se tem consciência de que ela pode vir a desmobilizar potenciais coleccionadores estrangeiros, e por isso “desvalorizar” a venda do quadro.

Este Retrato de niña era desconhecido até há três semanas atrás. A sua existência foi divulgada apenas no passado dia 3 de Abril, em Madrid, quando a Abalarte anunciou a sua presença no leilão de 25 de Abril. Sem divulgar o nome do proprietário, a leiloeira comunicou apenas que se trata de um aristocrata com mais de 80 anos, e que o quadro está na posse da sua família desde há pouco mais de um século.

Obra de juventude?

Retrato de niña tem as dimensões 57,5 x 44cm e representa uma menina a rezar, vestida com uma saia castanha e com um manto verde envolto à cintura.

A atestar a assinatura de Velásquez, a leiloeira apresentou então apenas o testemunho do especialista britânico de origem francesa Richard de Willermin, que não teve nenhuma dúvida em confirmar a autenticidade e, mais ainda, datou a obra do período de juventude do artista, praticamente “contemporânea da Imaculada [1618], que pertence à Fundação Focus Abengoa, e actualmente se encontra em Sevilha”, diz o El País.

Aquando da apresentação do quadro no início de Abril, Willermin invocou precisamente a similitude das “pinceladas e das pregas do vestuário” com as da Imaculada para identificar não apenas a autoria como a data de 1617. Tratar-se-á, então, de uma obra de juventude do artista, ainda pintada em Sevilha, antes da sua instalação na corte de Madrid.

Em abono da teoria deste especialista em pintura antiga veio o professor catedrático de História da Arte da Universidade Complutense de Madrid, Francisco Calvo Serraller, que logo que viu a obra defendeu a sua atribuição a Velásquez. Já o hispanista norte-americano William B. Jordan, embora evitando pronunciar-se sobre o quadro, admitiu como verosímil o aparecimento de um Velásquez desconhecido e da sua juventude. “Só posso dizer que, a julgar pela fotografia, me parece uma pintura muito bela, que merece um estudo em profundidade”, disse este especialista ao El País.

Quem já está certamente a fazer esse estudo é o Museu do Prado, que enviou pelo menos dois dos seus especialistas à exposição da leiloeira. Mas, como é conhecido, o museu de Madrid não se pronuncia nunca sobre situações que tenham a ver com o mercado da arte.

Fica, no entanto, a expectativa de que o Estado espanhol surja no leilão e faça uso do seu direito de opção no caso de este Retrato de niña vir a ser arrematado por alguém na noite de terça-feira.