Entrevista

Portugueses que "não aceitaram ser bispos" foram muito pressionados "para o ser"

D. Carlos Azevedo anuncia que o Vaticano está a organizar um segundo congresso de música sacra. Será em 2018 e só para compositores contemporâneos

Miguel Manso
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Miguel Manso

Relativamente à pequisa que tem feito nos arquivos do Vaticano, que mais dados novos tem encontrado sobre a história mais recente da Igreja portuguesa?

Como andei nas caixas dos processos dos bispos por causa da restauração da diocese e a nomeação do bispo, encontrei, por exemplo, personagens que não aceitaram ser bispos e que tiveram uma pressão enorme para o ser. Encontrei também muitas cartas desconhecidas de D. António Barroso, que não estavam no processo de canonização. A carta que escreve para o núncio sobre a escolha dos bispos [à época] é de um sentido de Igreja muito profundo. Não podemos esquecer que os bispos só puderam escolher os bispos a partir de 1910, porque antes era o rei. A Igreja só teve liberdade de escolher os bispos a partir de 1910. Era uma coisa nova.

E, ao procurar coisas sobre a Inquisição, para o Terramoto Doutrinal, também encontrei sermões de autos de fé inéditos de bispos portugueses. Já transcrevi todos e estou a agora a fazer a introdução e a preparar a publicação. É este o contributo para dar a conhecer um fenómeno muito discutido que era a Inquisição, como era aproveitada a Bíblia, no caso dos sermões, e como se pode estragar a palavra de Deus para condenar inocentes. Encontrei algo de dramático que tem de ser lido no contexto da época, mas diz sobre a responsabilidade dos pastores. Como dizia João Moutinho [em Terramoto Doutrinal], a igreja em Portugal é herética. Ao aceitar a Inquisição, está a aceitar uma instituição que é contrária ao evangelho, portanto, está em heresia.

Foi para Roma trabalhar como delegado-pontifício para a cultura. Em que projecto sob a sua tutela com maior impacto para a Igreja se envolveu?

O último foi o grande congresso de música sacra. O documento de música sacra tem 50 anos. Comecei a preparar a comemoração da data há três anos. Foi feito um inquérito de 40 perguntas às conferências episcopais de todo o mundo sobre como vai a música. Recolhemos as respostas num documento de 100 páginas e a partir daí conseguimos este congresso de 400 pessoas em Roma [foi de 3 a 5 de Março], com a presença do santo padre no último dia. Foi gente de todo o mundo. Só de Espanha foram 40 pessoas. De Portugal infelizmente não houve muita sensibilidade, porque a conferência episcopal não fez comunicar isso à Igreja, foi a conferência episcopal convidada a estar representada e teve uma presença de cinco pessoas. Dos EUA vieram 20, do Brasil 15. Houve uma sensibilidade grande para a questão da música.

Qual é a mudança que se perspectiva?

Com o concílio Vaticano II mudou o paradigma das línguas. Antes era em latim: uma música composta em latim servia para todo o mundo. Ao mudar a língua vernácula, mudou o paradigma. Algumas igrejas foram capazes de manter uma certa qualidade com compositores que escreveram para uma nova realidade, mas o nível baixou imenso e as pessoas vão a uma igreja e não saem de lá de alma cheia, do ponto de vista da música. Muitas vezes é uma banalidade, prefere-se música light. A liturgia exige qualidade e isto foi uma reflexão para todo o mundo. As igrejas do norte da Europa conseguiram adaptar-se mais facilmente com alguma qualidade, mas na parte sul, na América latina, a África teve alguma adaptação mas é muito rural, começa agora a estudar música para ser capaz de transcrever em partitura a tradição muito concreta do povo. A expressão da fé exige qualidade, como exigem as liturgias.

Quando se fala em música sacra pensa-se nas grandes composições do passado.

Quando a música gregoriana foi composta ela era cantada nas celebrações. Quando os grandes compositores, como Bach e outros, compuseram a sua música ela era executada nas catedrais. Foi um momento de auge e de grande génio e é necessário continuar a proporcionar. Estamos a preparar um outro congresso para 2018 só para compositores contemporâneos.

Que balanço faz do Átrio dos Gentios, de diálogo entre crentes e não crentes?

Trabalho mais na valorização da arte e do património e na relação da Igreja com a arte, mas tenho ajudado no Átrio dos Gentios. Fui com o cardeal Ravasi ao Brasil e a Braga. Em todo o mundo é uma experiência que tem deixado eco. As várias conferências episcopais têm procurado prosseguir esta atitude de diálogo.

Os problemas da humanidade exigem a colaboração entre os que crêem e os que não crêem. Houve um debate no Parlamento italiano, provocado pelo Átrio dos Gentios, sobre eutanásia com todos os deputados crentes e não crentes. Conseguiram chegar a uma reflexão que faz livrar a leitura destes grandes problemas da humanidade de uma visão religiosa, porque são problemas humanos. Eu posso vê-los do meu ângulo religioso, como um não crente pode até ser mais exigente para com a humanidade nessas situações. A densidade de humanidade está independente de ser crente ou não crente. Os problemas de hoje exigem este confronto e esta abertura.