O terrorista que escondeu ligações ao Daesh pode ajudar Le Pen?

A candidata da extrema-direita às presidenciais francesas tentou beneficiar do atentado de Paris. Mas não é nada claro que os eleitores que vão votar no domingo se deixem influenciar.

Marine Le Pen fez exigências a François Hollande
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Marine Le Pen fez exigências a François Hollande Philippe Laurenson/REUTERS

Karim Cheurfi, o homem que matou um polícia em Paris e feriu outros dois na quinta-feira à noite, entrando a tiros de Kalashnikov no último dia de campanha para as presidenciais francesas, levava consigo uma mensagem escrita à mão, “em que defendia a causa do Daesh”, contou o procurador de Paris, François Molins. Mas, apesar de ter passado 14 dos seus 39 anos na prisão, por vários crimes violentos, “não havia sinais de que estivesse ligado a movimentos do islamismo radical”, justificou.

No entanto, tinha sido aberto um inquérito preliminar por suspeitas de terrorismo, em Março - devido às ameaças que tinha feito de que queria "matar polícias". Mas os indícios não eram suficientes para o prender, explicou o procurador Molins, responsável pelos serviços que investigam os casos de suspeitas de terrorismo.

O nome de Karim Cheurfi não constava numa das célebres fichas S, com que a Direcção Geral de Segurança Interna identifica pessoas que são consideradas “um risco grave para a segurança do Estado” francês – hoje em dia, isto é quase um código para suspeitos de radicalização islâmica. De nada adiantaria, portanto, a exigência feita ao Presidente François Hollande por Marine Le Pen, a candidata do partido de extrema-direita Frente Nacional: “Exijo a expulsão imediata das pessoas visadas por fichas S estrangeiras”, declarou.

Le Pen tinha nestes últimos dias recuperado em força os temas tradicionais do seu partido xenófobo, anti-imigração e fortemente securitário, para tentar recuperar embalo numa campanha que tinha estagnado, e estava mesmo a perder alguns pontos, com a aproximação do momento da ida às urnas (no domingo) para a primeira volta.

Agarrando essa linha de unhas e dentes, denunciou a má gestão dos dois últimos Presidentes da República, assegurou que ela própria teria soluções melhores, e continuou a fazer exigências a Hollande. “Peço-lhe solenemente que ordene a restauração efectiva das nossas fronteiras [abertas] em virtude do Tratado de Schengen e que ponha em prática o processo acelerado para a retirada de nacionalidade aos indivíduos com dupla nacionalidade que tenha uma ficha S, para que sejam expulsos imediatamente para o seu país de origem”.

Pouco importa que a tentativa de Hollande de retirar nacionalidade a pessoas condenadas por terrorismo, após os atentados de 2015, tenha levantado uma torrente de críticas, e tenha deixado a França em guerra. Ou que o autor do mais recente ataque, nos Campos Elísios, seja francês – é natural de Seine St. Denis, nos arredores de Paris –, sem ficha S e não fosse suspeito de terrorismo.

Mas houve suspeitas de que Karim Cheurfi, que estava proibido de viajar para o estrangeiro, porque estava em liberdade condicional, por anteriores condenações, andara a dizer que queria matar polícias, explicou o procurador Molins. Foi detido, e foram-lhe encontradas facas de caça, abraçadeiras plásticas, máscaras do filme de terror Scream e uma câmara Go-Pro. “Mas estes elementos não eram suficientes para caracterizar as ameaças de crime e associação criminosa. Por isso, foi libertado”, explicou o magistrado.

No entanto, entre 15 de Janeiro e 15 de Fevereiro Cheurfi violou os termos da liberdade condicional para ir à Argélia. “Para se casar, alegou”, disse o procurador Molins. A suspeitas sobre a sua radicalização avolumaram-se então.

Marine Le Pen esforçou-se para ganhar vantagem nas eleições presidenciais com este ataque. Consegui-lo-á?

Pode ganhar, mas...

“Se houver algum efeito, será Marine Le Pen quem beneficiará”, julga o director do departamento de opinião pública do instituto de sondagens IFOP Jerôme Fourquet, em declarações à revista Nouvel Observateur. Mas não se julgue que é garantido. “Em 2012, os ataques de Mohamed Merah em Toulouse não tiveram influência sobre as eleições”: o Presidente Nicolas Sarkozy perdeu-as, apesar de o atacante ter sido encontrado e morto numa operação relativamente rápida, exactamente um mês antes da primeira volta das presidenciais. “Os actos de Merah foram lidos como acções de um desequilibrado, de um lobo solitário. Mas a música política feita pelos candidatos não foi como agora.”

“O atentado contra o Charlie Hebdo, em Janeiro de 2015, também não teve um efeito particular contra as eleições departamentais de Março desse ano. Mas houve algum impacte nas regionais de Dezembro de 2015, após os atentados de Novembro em Paris: a Frente Nacional teve um bónus de dois a três pontos”, explica Fourquet.

Uma sondagem relâmpago feita pela Odoxa, já depois do atentado, mostra Le Pen a subir um ponto. Outra, da BVA, feita na noite do atentado, dá Le Pen e Emmanuel Macron, os dois favoritos, empatados com 23%. Nenhuma destas mudanças é significativa em relação aos últimos dias, em que as oscilações têm sido mínimas.

“São os eleitores de esquerda que reagem mais após um atentado”, disse à revista Le Point Sylvain Brouard, director de investigação no instituto universitário Sciences Po, que estudou a reacção dos franceses após os atentados de 2015. “As suas preferências de segurança ajustam-se, pois vêem que o perigo é maior do que pensavam, e passam a exigir por exemplo mais meios para o exército ou para a polícia. Os eleitores de extrema-direita apenas vêem as suas convicções validadas”.

Há também um certo efeito de repetição. “Mesmo o atentado de Nice, que matou 86 pessoas a 14 de Julho, não teve um efeito tão importante sobre as preferências dos franceses em matéria de segurança”, como os do Charlie Hebdo ou os de Novembro de 2015.

Emmanuel Macron, do centro-esquerda, e Jean-Luc Mélenchon, de esquerda, não cancelaram os seus últimos actos de campanha, como Le Pen ou François Fillon, o candidato da direita tradicional, que pretendeu também fazer valer as suas credenciais de ex-primeiro-ministro e o apoio de Nicolas Sarkozy, com o seu forte pendor securitário e pelo controlo da imigração.

Se realmente este ataque terá efeitos sobre a votação dos franceses, será preciso esperar para ver. 

 

Correcção das declarações do procurador Molins: foi aberta já este ano uma investigação preliminar por suspeitas de radicalização

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