Crítica Cinema

O último Nicolau Breyner

A Ilha dos Cães traz o regresso de Jorge António à ficção numa relação com Angola. No tempo do colonialismo, aqui pontifica um Nicolau Breyner em figura odiosa.

Nicolau Breyner em figura odiosa, numa singular despedida em contra-tipo
Nicolau Breyner em figura odiosa, numa singular despedida em contra-tipo
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Primeira longa-metragem de ficção estreada por Jorge António em mais de vinte anos (depois de O Miradouro da Lua, de 1993), A Ilha dos Cães retoma um preocupação crucial no cinema do realizador, patente nessa ficção de estreia e em praticamente toda a sua produção documental desde então: uma relação com Angola e a sua história. Aqui, e com base num romance do escritor angolano Henrique Abranches (Os Senhores do Areal), essa relação joga-se em paredes meias com o fantástico.

É a “ilha dos cães”, que no tempo do colonialismo fora uma ilha-prisão para rebeldes e “terroristas” e agora, na Angola contemporânea, se prepara para ser um centro turístico, com a construção de um resort no lugar da antiga prisão. Mas a ilha dos cães não enverga o seu nome em vão e anda por lá uma matilha a dificultar, com violência, os trabalhos de construção do resort. No seu simbolismo fantástico, representado pela matilha, A Ilha dos Cães é um filme sobre a memória dos lugares, e portanto sobre o peso da História como algo que literalmente “empapa” o terreno e impede, ou devia impedir, a sua rasura.

Alternando entre dois tempos, o tempo da prisão, mais nocturno e mais cerrado, onde pontifica um Nicolau Breyner em figura odiosa, numa singular despedida em contra-tipo (foi o seu último papel), e o tempo do resort, portanto o tempo da Angola contemporânea, dado de forma mais aberta e mais naturalista apesar das incidências simbólicas da narrativa, A Ilha dos Cães é um filme construído sobre contrastes, visuais e históricos, em cujos interstícios passa um eco das transformações angolanas das últimas décadas, apostando mais na alusão do que na retórica. Nos seus desequilíbrios — nem sempre o filme é capaz de materializar a carga dramática que certas cenas pressupõem, algo compensado pelo trabalho sobre certos décores, da paisagem rochosa ao cemitério sobre a areia avermelhada — é uma proposta perfeitamente válida, a merecer uma espreitadela para além de questões temáticas.