Opinião

A verdade a que temos direito

Na política, na esfera pública, nas redes digitais, o que está hoje na ordem do dia é o “vale tudo”. O descaramento compensa.

Houve em tempos um jornal que ostentava este lema: “A verdade a que temos direito.” A sentença era ambígua, pois tanto podia querer dizer “temos direito à verdade” como podia querer dizer “temos direito à nossa verdade”. Ou ainda, numa leitura mais redutora: “Só temos direito a esta verdade.”

Para além dos remoques que a sentença suscitava em quadrantes políticos adversos, certo é que a sua involuntária ambiguidade prenunciava, ainda antes da explosão da realidade virtual, aquilo a que hoje está na moda chamar-se “pós-verdade”.

De onde vem essa moda súbita? Trump e os seus sequazes marcam, sem dúvida, uma linha de fronteira. Mas, como algumas vozes têm vindo a sublinhar, o fenómeno decorre, desde há alguns anos a esta parte, da incorporação na política, na esfera pública e nas redes sociais de um ímpeto desconstrucionista que começou muito antes nas ciências sociais e humanidades.

A relação entre ciência e ideologia aparece articulada em meados dos anos 40 do século passado na Dialética da Razão ou do Esclarecimento de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Ao contrário de Marx, que contrapunha o socialismo “científico” ao socialismo “utópico”, dois filósofos formados na tradição marxista confrontavam-nos com a razão que se nega a si própria e invertiam os termos da questão. Todo o discurso científico podia, afinal, reconduzir-se a um discurso ideológico. O arcaico mundo mítico ecoava no paradigma da ciência moderna. Conteúdos de verdade — como insistirá Adorno — havia que procurá-los, não na ciência, suspeita de ideologia, mas sim na “arte autêntica”, que não se deixava capturar pelo logos enganador do pensamento discursivo. Numa palavra: na “superstrutura ideológica” de que falava Marx, a ciência passava a ocupar o lugar da arte, enquanto esta era alçada a instância privilegiada de crítica da ideologia.

A crítica do paradigma da ciência moderna, que deve, aliás, a um neurocientista um dos seus contributos de referência (O Erro de Descartes, de António Damásio), manifestou-se numa torrente de autores e publicações (não só nas ciências sociais e humanidades) que se constituiu como um corpo de pensamento dito “pós-moderno”. Sinal da complexidade das relações entre as diferentes posições em presença é, por exemplo, como defende Wolfgang Welsch, o facto de o pensamento pós-moderno na filosofia “nascer do espírito da arte moderna”, pouco tendo a ver com o pós-modernismo nas artes. Mas, bastaria ler as lições de Adorno proferidas na Universidade de Frankfurt em 1964 e publicadas postumamente em 2008 (Elementos filosóficos para uma teoria da sociedade) para perceber essa articulação, que transparece na sua crítica do método — na sua denúncia da “feiticização” do método, separado do objeto.

Uma das principais aquisições da mudança de paradigma foi a de que o conhecimento e, portanto, a “verdade” são socialmente construídos. Daí que o cientista não seja imune à produção social do conhecimento, embora a consciência disso implique a responsabilidade de “produzir um conhecimento socialmente mais válido” (Wallerstein, Para abrir as ciências sociais): o que, de novo, nos reconduz a diferentes perspetivas, eventualmente conflituais, sobre o que possa ser “socialmente mais válido”...

Se, porém, na ciência se aprendeu a “não usar a máscara da objetividade para dissimular posições subjetivas”, admitindo que a verdade é controversa, e os consensos sobre ela, transitórios — isto sempre sem prejuízo da condição pressuposta das boas práticas e da ética aceites pela comunidade científica —, já na política, na esfera pública, nas redes digitais, o que está hoje na ordem do dia é o “vale tudo”. Nem sequer é preciso usar a máscara da objetividade. Pelo contrário: o descaramento compensa.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico