A mesma história, uma maneira diferente de a contar

O livro Condor estava esgotado há dois anos. Vai ter uma nova edição em português.

Entrada do Londres 38, antigo centro clandestino de detenção, na zona central de Santiago do Chile. Os poucos sobreviventes reconheceram o local descrevendo o que conseguiam ver quando entravam vendados no edifício e que era apenaso chão de azulejos pretos e brancos. Santiago, Chile, Novembro de 2008
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Entrada do Londres 38, antigo centro clandestino de detenção, na zona central de Santiago do Chile. Os poucos sobreviventes reconheceram o local descrevendo o que conseguiam ver quando entravam vendados no edifício e que era apenaso chão de azulejos pretos e brancos. Santiago, Chile, Novembro de 2008 João Pina

Antes de ser uma exposição, Operação Condor já era um livro, e foi apenas a partir da concretização dessa obra, em 2014, que João Pina se sentiu preparado para começar a pensar (com Diógenes Moura) o projecto expositivo, que está longe de ser um trabalho mimético em relação à página impressa. Condor, cuja versão em português está esgotada há dois anos, vai ter uma segunda edição, de novo com a chancela da Tinta-da-China, que também distribuiu o livro no Brasil. O trabalho de edição e concepção desta obra demorou um ano e meio e contou com o contributo editorial de Elisabeth Biondi, antiga editora visual da revista New Yorker e curadora independente de fotografia. “Ela foi fundamental na criação da narrativa do livro, mas fui eu que fiz a maior parte do trabalho de edição”, diz Pina, que confessa ter registado a última fotografia uma semana antes de o livro ter entrado na gráfica, onde foram feitas versões em mais três línguas: inglês, francês e espanhol.

Em Condor, versão livro, são utilizadas mais fotografias de época (reapropriadas por Pina) e os textos com as histórias dos protagonistas deste episódio histórico (vítimas e agressores) ganham maior relevância. As palavras foram impressas em folhas transparentes, condição que torna inevitável que olhemos simultaneamente para a imagem do retratado e para o desfiar da sua história em texto. A longa sequência inicial (sem legendas) dá pouca informação sobre o que se está realmente a ver. “A abertura do livro é feita para baralhar — folheamos e não sabemos muito bem onde estamos. Dá a entender que as fronteiras caíram, mas quando já estamos mais dentro do livro somos esmagados pelas histórias destas pessoas.”

João Pina recusa olhar para Condor (com introdução do repórter da New Yorker Jon Lee Anderson e posfácio do juiz espanhol Baltasar Garzón) como “um livro de fotografia” (no sentido estrito da expressão), ou que possa interessar apenas ao universo de fotógrafos: “Julgo que pode interessar também a historiadores, a activistas em direitos humanos, a especialistas em direito...”

O curador da exposição, Diógenes Moura, que lamenta não ter tido o tempo e o “silêncio” necessários para escrever para o livro na altura em que foi para a gráfica, afirma que, no Brasil, Condor é “um objecto de desejo”. “Ninguém tem. Acabou. Vou levar alguns para fazer um sorteio.”