Editorial

May e o problema na fila de trás

Esta versão “my way” (de Theresa May) arrisca-se a deitar fora a última oportunidade de reunir os britânicos em torno de um projecto comum. Isso exigirá liderança, depois das eleições.

No Reino Unido chamaram-lhe uma “U-Turn”, uma inversão de 180 graus. Pode parecer uma volta grande, mas Theresa May fê-la em 6 minutos e 51 segundos, o tempo de uma declaração em Downing Street. Da mensagem, anote estas duas passagens: “As divisões em Westminster vão pôr em risco a nossa capacidade de fazer do Brexit um sucesso (…). Se não convocarmos eleições agora, o jogo político continuará”.

O Reino Unido parte agora para eleições antecipadas, um ano depois do referendo da saída, de May ser nomeada primeira-ministra e de esta ter dito, e repetido, que não iria a votos antes de 2020. O imprevisível "U-Turn" tem, neste caso, uma justificação simples: as sondagens que dão aos conservadores 20 pontos de diferença face aos trabalhistas. Mas também tem justificações mais complexas, que têm menos a ver com Jeremy Corbyn e nos dizem mais sobre o momento difícil que o Reino Unido está a atravessar.

Isto porque o que se tem passado em Londres nos últimos meses não é um simples jogo político. É a consequência de um referendo que resultou no "Brexit" sem que alguém, seriamente, tenha preparado terreno, argumentário ou previsto as consequências. Consequência: a primeira-ministra tem uma maioria no Parlamento britânico, sim, mas apoia-se num grupo de deputados que não é o seu. E que, como a sociedade, tem 1001 respostas diferentes para o que aí pode vir.  

Hoje, a maioria conservadora é curta e facilmente suplantada pelo chamado “banco de trás”, a última fila do Parlamento onde se sentaram os mais eurocépticos, aqueles que, entre os conservadores, mais empurrariam o Governo para um “hard-Brexit” - uma negociação mais dura, uma solução ainda mais distante da dos caminhos da Europa.  Tem sido, portanto, difícil a Theresa May governar. E seria, é bom reconhecê-lo, bastante difícil fazer assim as negociações de saída.

Do ponto de vista táctico, Theresa May aproveitou a oportunidade e abriu a primeira porta para sair deste labirinto: procura a sua legitimação, tentando afastar os que se sentaram no banco de trás, tentando também tirar força aos deputados escoceses que há meses pressionam um segundo referendo.

A estratégia, porém, tem riscos para a recomposição do Reino Unido como nação. Sim, é legítimo que May queira liderar o processo do "Brexit" sem mais obstáculos. Mas, num país dividido como nunca, esta versão “my way” (de Theresa May) arrisca-se a deitar fora a última oportunidade de reunir os britânicos em torno de um projecto comum - e não provocar a implosão de uma sociedade perdida.

Esse risco começa agora, na campanha eleitoral (e nós sabemos quão imprevisíveis os britânicos têm sido em eleições). Mas terá, depois, mais dois duros anos de obstáculos pela frente. Num percurso onde, por uma última vez, os britânicos não terão a palavra final sozinhos - terão de a dividir com os outros 27 da UE.

“Estas eleições serão todas sobre a liderança”, disse a primeira-ministra nesta terça-feira. Para eles, britânicos, e para nós, europeus, era bom que May a conseguisse mostrar, para além dos jogos políticos e da dispensa do banco de trás.