Crítica

Morelenbaum, magia a golpes de mestre

Jaques Morelenbaum encheu de público e de música o Tivoli com o Cello Samba Trio e confirmou que do seu violoncelo sai sempre um elegante toque de magia. Adriana Calcanhotto e Carminho foram suas convidadas.

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Jaques Morelenbaum no Tivoli MIGUEL MANSO
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O Cello Samba Trio no Tivoli MIGUEL MANSO
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Lula Galvão, no violão MIGUEL MANSO
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Márcio Dhiniz, na bateria MIGUEL MANSO
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Jaques Morelenbaum no violoncelo MIGUEL MANSO

Caetano Veloso atribui-lhe um “som miraculoso” e uma “natural inteligência musical”. E as prestações, em palco ou em disco, do maestro e violoncelista brasileiro Jaques Morelenbaum confirmam a justeza de tais adjectivos. O espectáculo que agora o traz a Portugal, baseado no disco Saudade do Futuro Futuro da Saudade, gravado com o seu Cello Samba Trio e lançado no Brasil em 2014, explora uma sonoridade onde a matriz brasileira dos temas se mistura não raras vezes a uma ambiência jazzística, desprendendo das melodias originais surpreendentes voos de liberdade criativa. Foi o que sucedeu na noite de 18 de Abril, no Tivoli BBVA, em Lisboa, perante uma sala agradavelmente cheia e atenta.

O arranque, com um tema próprio, que ele ainda não gravou mas tem tocado ao vivo, Nesse trem que eu vou, marcou desde logo o território: o trio (Jaques Morelenbaum no violoncelo e direcção musical, Lula Galvão no violão e Márcio Dhiniz na bateria, substituindo com distinção o ausente – por razões de agenda – Rafael Barata) mostrou-se tão inventivo nos fraseados quanto coeso na conjugação das respectivas linguagens. E se o primeiro tema, sugerindo na abertura um comboio em andamento, foi logo aplaudido com entusiasmo, os seguintes não baixaram a guarda. Eu sou da Bahia, de Gilberto Gil, com Jaques tocando o violoncelo em pizzicato, abriu caminho a Maracatuesday (segundo tema da noite com assinatura do próprio violoncelista) e a dois temas que ele apresentou como “favoritos de toda a vida”: Coração Vagabundo, de Caetano Veloso, e Retrato em Branco e Preto, de Tom Jobim e Chico Buarque, pretexto para ele contar que Chico optou por “branco e preto” e não “preto e branco”, como é usual no Brasil ou em Portugal, para não mexer na rima, neste caso com “soneto”.

Mas a história não foi o único bónus da canção, houve outro e este inesperado: o convite a Carminho, que estava na plateia, para ali cantar o tema (que ela gravou, aliás, no seu disco dedicado a Tom Jobim). Apesar de visivelmente (e confessadamente) nervosa, Carminho deu bem conta do recado, com dois riscos: um, atribuível ao microfone, pouco ajustado ao que dele se exigia; outro, devido às alternâncias vocais entre a elevação e o quase sussurro (onde a sua voz quase se apagava). Mas foi uma exibição, ainda assim, digna de boa nota e muito aplaudida no final.

De volta ao trio, desfilaram, exuberantes, Brigas nunca mais (de Jobim e Vinicius), Você e eu (de Vinicius e Carlos Lyra com arranjos divididos por três pesos-pesados, Tom Jobim, João Gilberto e João Donato), Receita de samba (um choro de Jacob do Bandolim), Radamés e Pelé (que Jobim dedicou a dois amigos, um da música, o maestro Radamés Gnattali, e outro do futebol, o imortal Pelé) e, por fim, mais um tema do próprio Jaques, Ar livre. A voz do violoncelo cedeu, então, parte da ribalta a uma outra voz, esta já anunciada, a de Adriana Calcanhotto. Em Coimbra para uma temporada na Universidade, Adriana acedeu ao convite de Jaques para replicar em Lisboa uma experiência de há uns anos, quando se dedicaram a um concerto em torno da obra de António Carlos Jobim.

Adriana, embora algo “enferrujada” pelo seu afastamento do canto neste período, esteve muito bem. Eu sei que vou te amar soou pungente, Insensatez entusiasmou de forma deveras brilhante e Água de beber balançou nos tempos certos, plena de vida (a propósito, Adriana contou a história da canção, que já foi inscrita também na Wikipédia: Tom e Vinicius estavam numa Brasília em plena construção, a convite do presidente Juscelino Kubitschek, para escreverem uma obra dedicada à nova capital brasileira, que viria a ser Sinfonia da Alvorada, quando ouviram um barulho de água, que estranharam por aquele ser um lugar muito seco. Quando saíram para saber o que era, um operário indicou-lhes uma fonte ali próxima e disse: “Isso é água de beber, camará!” Assim nasceu, “escrito” por um operário anónimo, o refrão da célebre canção com o mesmo nome).

Num encore requisitado a fortes aplausos, o trio voltou ao palco para mais um tema do seu repertório e depois, agora de novo com Adriana, se despedir com Ela é carioca. Não que ela seja. Adriana é gaúcha de Porto Alegre, Lula Galvão é de Brasília, Márcio Dhiniz (agora a viver em Lisboa) é de Alagoas e só mesmo Jaques é do Rio de Janeiro. Ele sim, é carioca.

Depois da sua apresentação em Lisboa, Jaques Morelenbaum e o seu Cello Samba Trio ainda têm mais dois concertos em Portugal: dia 20 de Abril em Coimbra (Auditório do Conservatório de Música, às 21h30) e dia 21 em Estarreja (no Cine Teatro, também às 21h30).

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