Entrevista

Ana Jorge: poderá ser necessário antecipar vacinação de bebés para os 6 ou 9 meses

Ana Jorge, ex-ministra da Saúde e pediatra, avisa que, se houve contacto com um doente, as pessoas têm uma janela temporal de 72 horas para fazer a vacinação.

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Ana Jorge, ex-ministra da Saúde e pediatra Nuno Ferreira Santos

Já se pode falar numa epidemia de sarampo em Portugal, com o número de casos que são conhecidos?
O que está anunciado, pela Direcção-Geral da Saúde, são 23 casos, 11 dos quais confirmados. Portugal tem uma taxa de vacinação boa, acima dos 95%, que confere imunidade de grupo, por isso acreditávamos que não iria haver uma epidemia. Mas pode haver nichos da população que não estão vacinados e isso é como fogo em palha. O problema é que, como este vírus não está em circulação em Portugal há muito tempo, a imunidade começa a descer.

Abaixo dos 43 anos, as pessoas ou fazem uma segunda dose da vacina ou estão mais susceptíveis [foi em 1974 que a vacina do sarampo entrou no Programa Nacional de Vacinação, mas com apenas uma dose na altura, antes disso, a maior parte da população teve sarampo e ficou naturalmente imunizada]. Quando se começou a perceber que a imunidade não se mantinha indefinidamente e que havia uma população mais desprotegida, passou a dar-se duas doses da vacina. Mas o que está a acontecer tem que ver com a importação de casos, que vêm de zonas onde o sarampo ainda é endémico, como África e até alguns países na Europa, por exemplo, a Roménia. Um dos casos [agora diagnosticados] e que entrou pelo Algarve foi de uma pessoa que tinha estado de férias.

Portanto, os adultos jovens e as crianças com menos de 12 meses, que ainda não foram vacinadas, são os que correm mais riscos?
As pessoas, em geral, devem vacinar-se, se tiverem tido contacto com um caso diagnosticado ou suspeito, e devem fazê-lo nas 72 horas seguintes, essa é a janela temporal indicada. Depois, algumas crianças e jovens necessitariam de uma segunda dose de vacina, para reforçar a imunidade. Em Portugal não há falta de vacinas. Mas, como são muitas as pessoas que no passado foram vacinadas com apenas uma dose, penso que deveriam ser definidos grupos de maior risco [para a imunização], nomeadamente os profissionais de saúde e os que trabalham em infantários e escolas. Se a situação se agravar, uma outra estratégia que poderá revelar-se necessária é a antecipação da vacinação dos bebés para os seis ou os nove meses [actualmente a primeira dose é dada aos 12 meses].

Esta estratégia já foi adoptada no passado, quando ocorreram duas grandes epidemias, que afectaram sobretudo a Grande Lisboa e o Grande Porto [na primeira, a epidemia de 1987, houve cerca de 12 mil casos e cerca de três dezenas de mortes notificadas]. Nessa altura, porém, a taxa de vacinação não chegava sequer aos 50% e os meios para tratar [a doença] eram muito inferiores.

Estes casos sarampo podem ter origem em movimentos anti-vacinação também entre nós?
O problema é que, há alguns anos, houve em Inglaterra uma associação da vacina ao autismo, que não foi provada, mas depois torna-se difícil contrariar este tipo de ideias. Estes movimentos anti-vacinação começam a ter expressão, tal como [os que se baseiam] em métodos naturais e na medicina não interventiva. Mas o que acontece em Portugal é que há alguns nichos da população que não querem fazer vacinas, ou há, em algumas zonas, pouca adesão aos programa de vacinação.

É preciso notar que o sarampo é das doenças mais contagiosas. Como médica pediatra, vi no passado casos muito graves no hospital. Casos de panencefalite esclerosante subaguda [resulta de uma infecção cerebral de longa duração pelo vírus do sarampo], que é rara mas fatal, e também podem ocorrer mortes na fase aguda da doença, por complicações como pneumonias, insuficiência respiratória grave. O sarampo pode conduzir a situações graves e é evitável com a vacinação, que é muito eficaz.