Marcelo: "Sou o aluno que veio conhecer os mestres"

Numa pausa da sua agenda o Presidente da República reuniu-se com Alain Touraine e Fernando Henrique Cardoso na Fundação Champalimaud, à porta fechada.

Marcelo com cientistas políticos na Fundação Champalimaud
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Marcelo com cientistas políticos na Fundação Champalimaud DR

Marcelo Rebelo de Sousa entrou em passo rápido, apenas acompanhado pelo seu assessor militar, e cumprimentou um a um os 14 membros do think thank As crises e a transformação da democracia, reunidos à volta de uma mesa oval, na Sala dos Curadores da Fundação Champalimaud. Uma enorme janela, enquadrada por uma moldura de madeira dourada, mostra o Tejo, a Torre de Belém e o Cristo Rei, numa perspectiva incomum. Quando se sentou num dos topos da mesa, o Presidente tinha à sua frente Fernando Henrique Cardoso, ex-Presidente do Brasil, e à sua direita um dos intelectuais mais influentes do último século, o sociólogo francês Alain Touraine, de 91 anos.

"Sou o aluno que veio conhecer os mestres", gracejou Marcelo, olhando em volta, para um grupo selecto de intelectuais, quase todos da área das ciências sociais, onde se incluem o francês Michel Wieviorka, especialista em terrorismo, o espanhol Juan Luis Cebrián, que dirige o grupo de media Prisa, e a turca Nilüfer Göle, autora de referência sobre o papel das mulheres no Islão. Durante cerca de uma hora, o Presidente falou em tom solto, sobre a crise da democracia, a emergência do populismo, o "simplismo" dos media, e o "desaparecimento das classes médias".

O debate que se iniciou na segunda-feira, organizado pela Fundação Champalimaud, centra-se precisamente nesses temas. "A democracia está na defensiva", explica-nos, minutos antes da entrada do Presidente, o diplomata brasileiro Miguel Darcy de Oliveira. "Há três ameaças à democracia no Mundo: o populismo, a extrema-direita na Europa e o islamismo radical", continua. Mais do que identificar as causas da crise, este grupo de intelectuais pretende "lançar um projecto", que sirva de contrapeso ao actual clima de crise política.

"O nosso encontro intelectual procura reviver o ideal democrático, com diferentes horizontes", acrescenta Michel Wieviorka, director do Centro de Análise e Intervenção Sociológica da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. "Isto mostra que somos capazes de discutir à escala planetária. E isso é importante porque a democracia está em crise em todos os países", acrescenta. João Silveira Botelho, da Fundação, explica que este think thank nasceu da necessidade de pensar além da ciência: "O modelo político não acompanhou a transformação científica e social." E como "não se pode parar o vento com as mãos", a Fundação decidiu patrocinar esta reflexão sobre política.

Na sala, o economista turco Asaf Savas Akat pediria mais: "O êxito deste projecto exige que falemos com quem tem poder. Temos de ter actores políticos e capacidade de governar." Mas, para já, o que está decidido é apenas publicar um resumo dos dois dias de reunião - que terminou esta terça-feira. Darcy, Botelho e Wieviorka vão trabalhar num documento "profundo e denso", que será depois entregue à Fundação.

Além das "inquietações concretas", que Fernando Henrique Cardoso diz serem comuns, Alain Touraine identifica "um vazio no pensamento social e político". "Estamos em choque pela ruptura nas nossas democracias. Diziam-nos para pensarmos global, mas não soubemos como. É preciso reinventar a política", defendeu o sociólogo francês.

Marcelo, que falou em francês, concordou. A democracia, afirmou, tem "um problema de fundo", que o Presidente da República divide em duas coordenadas: "tempo e espaço". O tempo da política passou a ser "mais acelerado", em parte porque "os media hoje são simplistas" e "criam disrupções permanentes, sem qualquer responsabilidade". Ao mesmo tempo, adiantou Marcelo, "uma das características do populismo é prometer um regresso a um passado que não volta". E isso torna-se sedutor quando as instituições não acompanham o novo ritmo. Marcelo, que fez várias incursões bem humoradas pela política interna, em ritmo rápido e cuidando não ter jornalistas na sala, deu um exemplo concreto: a queda da avioneta em Tires. "O poder político tem de estar pronto a responder a situações como esta."

Porque é do "vazio" que se alimenta o populismo, continuou, justificando a sua "sobre-exposição" mediática ("É uma sobre-exposição? É... Mas é a única maneira de reagir. Sou alguém que viveu nos media e agora sou criticado nos media..."). Antes de falar, Marcelo ouvira Leonor Beleza apresentá-lo como alguém que "está a mudar a relação entre os eleitos e os eleitores, através de uma política de proximidade".

O outro problema, prosseguiu o Presidente, o do "espaço", é o que quase retirou aos países qualquer dimensão de "soberania". Também aqui, defendeu, não se pode regressar ao passado. "Temos de convencer os países poderosos a aceitar que existam instituições internacionais que funcionem", e que regulem a informação na internet, prevenindo a ciber-guerra, e os mercados financeiros, exemplificou.

Mais do que isso: "As democracias precisam de classes médias fortes e elas estão a desaparecer." O que fazer, perguntou o Presidente imitando Lenine? "Refazer as classes médias."

Ao fim de uma hora de conversa solta, e gestos largos, pontuada por aplausos e algumas gargalhadas, Marcelo Rebelo de Sousa acabou convidando o grupo "para um almoço ou jantar em Belém - é aqui ao lado... Agora quero ouvir-vos."