Opinião

Trump, o senhor da guerra

Estamos apenas no início de quatro anos de presidência Trump, e já vamos aqui. O que pretende ele?

O homem mais poderoso do mundo também se impressiona com o sofrimento. Que a imprensa cite Eric Trump garantindo ter sido a irmã Ivanka a ficar "indignada" com as imagens das crianças sírias mortas no ataque químico a Khan Shaykhun, inspirando assim a decisão do pai de atacar uma base aérea síria, faz-nos retroceder às histórias que se centram num rei todo-poderoso (Trump), cujos repentes podem produzir guerras de consequências incalculáveis, pelo que é necessário apoiar os conselheiros bons (a filha, o genro, os generais) que procuram compensar a ação dos conselheiros maus (a extrema-direita supremacista branca). O curioso da história é que, pelos vistos, terão sido os bons a convencer o rei a lançar-se em guerra, contra a vontade dos maus.

Se falamos de vítimas civis na Síria e no Médio Oriente, Trump, Presidente há menos de três meses, é já responsável por umas boas centenas. No curto espaço de uma semana, aviões norte-americanos mataram 49 civis numa mesquita em Al-Jinah, na Síria (16 de março), a somar aos 220 civis, pelo menos, que, desde 2014, durante a presidência Obama, Washington assume terem morrido em ataques aéreos da sua responsabilidade sobre território sírio (Guardian, 17.03.2017). No dia seguinte, 230 civis morreram num ataque levado a cabo contra Mossul, no Iraque (Independent, 23.03.2017). Cinco dias depois, aviões americanos bombardearam uma escola em Mansoura, na Síria, debaixo de cujos escombros ficaram os cadáveres de 30 civis (NYT, 22.03.2017). Numa guerra sem fim como a da Síria, e depois das declarações ocidentais de horror e indignação perante as vítimas dos bombardeamentos russos e sírios sobre Alepo, é repugnante ter de ouvir agora The Donald "enojado" com as imagens de crianças sírias mortas — ele, o mesmo racista que, aplicando a política de fronteiras que tem reiterado, não admitiria uma única dessas crianças nos EUA justamente porque cidadãs sírias!

A (in)consistência (e o perigo) de Trump revela-se, antes de mais, nos 59 mísseis lançados contra uma base síria. É que na campanha eleitoral foi ele que disse que os planos de Hillary Clinton para intervir na Síria conduziriam o mundo à "III Guerra Mundial" (Guardian, 25.10.2016). O mesmo homem que, na campanha eleitoral, dizia dispor de uma "arma secreta" para destruir o Estado Islâmico, revelou-a agora, mandando lançar uma GBU-43, a "mãe de todas as bombas", no Leste do Afeganistão, subindo até ao último degrau da guerra não nuclear. Cem mortos só no momento da explosão (Guardian, 14.04.2017). Ao mesmo tempo, enviou uma esquadra para o Mar da Coreia, subindo a parada com a Coreia do Norte. Em todos os casos, os aliados na NATO apressaram-se a aplaudir o que acham ser uma viragem intervencionista de Trump. Que a ONU seja tudo menos tida e havida nestes processos é o menos original; com os EUA, sempre foi assim desde o Vietname. Mas que Trump nem perca tempo a consultar a NATO diz bem de como os aliados europeus não valem nada em Washington.

Estamos apenas no início de quatro anos de presidência Trump, e já vamos aqui. O que pretende ele? Uma nova ordem mundial? Ou acrescentar provocação, bravata e puro belicismo à desordem permanente desta era de guerras que, como as descreveu Guterres, começam e nunca mais acabam? Está tudo dito quando na Foreign Policy, a mais mainstream das revistas norte-americanas de política internacional, se escreve que "a doutrina Trump parece ser: os EUA reservam-se o direito de usar a força sempre que o Presidente se impressionar com qualquer coisa que veja na televisão" (Max Boot, 10.04.2017). Não é novidade que os EUA atuem como senhores da guerra que julgam que o mundo não tem lei. Outros o fazem e o fizeram; mas ninguém com a força dos americanos. A novidade é que o façam sob um governo oligárquico, feito de veteranos da Goldman Sachs que se ocupam da política económica e de militarões que podem espraiar toda a sua megalomania bélica, dirigido por um dos ricos-mais-ricos, rodeado de familiares que aconselham e manipulam, como nas velhas cortes aristocráticas do séc. XVII ou XVIII.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico