Para o FMI, aceleração da economia portuguesa pode ser apenas passageira

Técnicos do Fundo revêem em alta as previsões que tinham feito em Outubro, mas continuam a duvidar do potencial de crescimento português.

Entidade liderada por Christine Lagarde espera um crescimento de 1,7% em Portugal este ano
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Entidade liderada por Christine Lagarde espera um crescimento de 1,7% em Portugal este ano Reuters/FRANCOIS LENOIR

Depois de não ter conseguido antecipar a aceleração da economia portuguesa na segunda metade do ano passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) viu-se agora forçado a rever em alta as suas projecções de crescimento para este ano. No entanto, continua ligeiramente mais pessimista que o Governo para o curto prazo e mantém um enorme cepticismo em relação à capacidade de o país vir a conseguir assegurar taxas de crescimento mais elevadas no médio prazo.

Nas previsões de Primavera publicadas esta terça-feira, o FMI aponta para uma taxa de variação do PIB este ano em Portugal de 1,7%. Este número representa uma revisão acentuada em alta face aos 1,1% que eram projectados pelo Fundo em Outubro. A nova estimativa mais optimista é o reflexo da aceleração registada na economia portuguesa a partir da segunda metade do ano passado e que os técnicos do FMI não conseguiram antecipar há seis meses, quando publicaram as suas últimas previsões. Aliás, nessa altura, esperavam que o crescimento de 2016 se ficasse por 1%, quando na realidade acabou por ser de 1,4%.

O FMI aproxima-se assim de outras previsões feitas recentemente para 2017, nomeadamente pelo Banco de Portugal e pelo Governo, que apontam para uma variação do PIB de 1,8% durante este ano.

No entanto, ficam por aqui as semelhanças das previsões do FMI com as do Governo. Ao contrário daquilo que são as expectativas do Executivo português, o Fundo vê a aceleração da economia portuguesa em 2017 como um fenómeno passageiro. E aposta que nos anos seguintes se irá assistir a um regresso a taxas de crescimento baixas e claramente abaixo da média europeia.

Para 2018, o FMI prevê um abrandamento da economia portuguesa para uma taxa de 1,5%. Neste cenário, Portugal voltaria, depois de atingir um resultado igual à média da zona euro em 2017, a divergir face aos seus parceiros da moeda única, que abrandariam para 1,6%. No Programa de Estabilidade divulgado na semana passada, o Governo espera que a economia portuguesa continue a acelerar progressivamente nos próximos anos: 1,9% em 2018, 2% em 2019, 2,1% em 2020 e 2,2% em 2021.

O FMI, pelo contrário, vê a economia a seguir a tendência inversa e, para 2022, faz uma previsão de crescmento para Portugal de apenas 1%, um valor que fica claramente abaixo dos 1,5% da média europeia e que, na zona euro, apenas se pode comparar com os 0,8% de Itália e 1% da Grécia. 

O que isto significa é que Portugal continua a ser visto pelo FMI como um país com um baixo potencial de crescimento. No relatório agora divulgado, o FMI não faz uma análise específica da economia portuguesa nem dá explicações para as previsões apresentadas. Mas em avaliações feitas anteriormente, os responsáveis do Fundo têm justificado a sua desconfiança em relação ao potencial de crescimento português com o facto de considerar que não feitas as reformas estruturais necessárias para garantir um reforço da produtividade e competitividade do país. Tanto o anterior Governo como o actual discordaram desta avaliação.

Há outros dois indicadores em que o FMI é mais pessimista que o Governo. Para a taxa de desemprego, o Fundo está a apontar para uma melhoria do indicador, mas feita de forma mais lenta do que a prevista pelo Governo. De uma taxa de 11,1% em 2016 passa-se para 10,6% em 2017 e para 10,1% em 2018. No Programa de Estabilidade, o Executivo projecta que a taxa de desemprego caia já para um valor abaixo de 10% este ano.

No que diz respeito à balança externa, que de acordo com as projecções do Governo e do Banco de Portugal se irá manter positiva nos próximos anos, o FMI antecipa um regresso a défices em 2017 e 2018, de 0,3% e 0,4% do PIB, respectivamente.