Nas noites da Praia, mandam as músicas crioulas e imprevisíveis

Logo após o encerramento do AME, a Cidade da Praia não perdeu balanço e as noites foram preenchidas pela nona edição do Kriol Jazz. Roberto Fonseca, Pat Thomas, Elida Almeida e Leyla McCalla deixarão sôdade.

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Elida Almeida DANY MIDIA
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Pat Thomas DANY MIDIA
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Roberto Fonseca DANY MIDIA

Com formação clássica enquanto violoncelista, Leyla McCalla nasceu e viveu em Nova Iorque até depois de terminar os seus estudos. Foi nessa altura que uma insatisfação cada vez mais gritante em relação à sua vida na cidade a fez tomar a decisão de se mudar para Nova Orleães. “Estava cansada de Nova Iorque e queria sentir-me novamente entusiasmada com a perspectiva de fazer música, algo que já não conseguia sentir ali”, relata ao PÚBLICO. Nova Orleães teve um efeito libertador, foi quase um terramoto na sua vida artística. Leyla arrumou a música clássica, começou a cantar, a compor e a aprender tudo quanto podia sobre música tradicional, e deixou que aquela terra crioula a religasse com as suas raízes haitianas. “E tudo isso transformou-se numa paixão imensa para mim”, conta-nos no camarim do Kriol Jazz Festival, na Cidade da Praia.

A Leyla McCalla que vemos e ouvimos em palco, trazendo consigo a música de A Day for the Hunter, a Day for the Prey, dedica-se a “iluminar a ligação presente há centenas de anos” entre o Haiti e o estado do Lousiana. Tocadas em trio – violoncelo, violino e ferrinhos / banjo –, são canções assentes numa simplicidade tradicional, cujo charme delicado quase engana os temas que tratam: “Como o poder funciona no mundo, a existência de tantas desigualdades, os pobres mantendo-se pobres e os ricos continuando ricos, toda uma série de temas muito relacionados com a história colonial que todos herdámos." Tudo isto surge embrulhado por uma musicalidade que envolve pela sua natureza directa e descomplicada, em pequenas lições de beleza sem qualquer excesso que Leyla começou a ensaiar na sua passagem pelo grupo Carolina Chocolate Drops e agora domina com preciosa mestria.

Esta música, Leyla McCalla credita-a a um ambiente em que se viu rodeada de músicos a toda a hora, provenientes dos mais diferentes géneros, empurrando-a para se entregar a uma relação informal com a música, estimulando-a a rasgar partituras e a encostar o ouvido às vozes populares, algo que, fazendo particular sentido em Nova Orleães, também faz particular sentido em Cabo Verde. Exibindo um número quase absurdo de gente com talento musical para um território tão pouco populoso, a música tem uma presença fortíssima no quotidiano de todo o arquipélago, o que é evidente também na capital, a Cidade da Praia.

Quando os concertos do Kriol terminam já com a noite avançada, a palavra que vai circulando entre o público facilmente encaminha os curiosos a procurarem sítios mais fora do radar, como os bares Fogo d’África ou Espaço Kaku Alves, onde a espontaneidade devolve o sentido mais primordial deste ofício que é fazer música e a imprevisibilidade é o prato forte. No primeiro, é bastante provável que a sorte dite a experiência de ouvir o violino tão caprichoso quanto voluptuoso de Nhô Nani. Por seu lado, Kaku Alves, guitarrista que acompanhava Cesária Évora, quis instalar-se no pouco turístico bairro da Várzea e recuperar as tocatinas (sessões em que os músicos se juntam, de forma despreocupada, para tocar temas de música tradicional) que sentia estarem a desaparecer.

Foi no bar de Kaku Alves que Mayra Andrade gravou parte do seu videoclip para Ilha de Santiago, precisamente o primeiro tema com que a encontramos a abrilhantar a ponta final do concerto muito celebrado da brasileira Maria Gadú na primeira noite do Kriol Jazz – um taxista pergunta-nos em seguida se aquela era mesmo a intérprete original das músicas, um fascínio e uma popularidade justificados pela enorme disseminação dos temas da cantora através das telenovelas. Os três que partilha em palco com Gadú, sobretudo Ténpu ki bai, emprestam ao concerto uma invenção e um encanto que escapa às canções bem construídas, arranjadas e interpretadas pela brasileira, cuja eficácia nunca é, no entanto, rasgada por momentos que roubem o fôlego. As deliciosas liberdades de Mayra, uma cantora que junta a candura local à elasticidade do jazz, essas sim fazem crescer água na boca em relação ao seu próximo álbum, previsto para o final de 2017.

A noite aquece

Ao longo das duas noites deste Kriol Jazz, talvez os momentos menos memoráveis tenham sido, afinal, os protagonizados por formações mais jazzísticas. Sylvain Luc Trio e Spyro Gyra não são grupos para deixar grande sôdade, respondendo a uma visão demasiado conservadora de um género que vive de se pôr em causa. O caso mudaria drasticamente de figura com a subida ao palco do trio do pianista cubano Roberto Fonseca, para quem o virtuosismo é uma ferramenta ao serviço de uma musicalidade transbordante, e não algo que se baste a si mesmo. No piano de Fonseca cabem tanto o jazz que se adaptou à geografia da América Latina como citações populares (houve um cheiro de Besame mucho) e desvios ocasionais para um reportório clássico sacado ao romantismo, mas em que nada é certo nem seguro, tudo é constantemente agitado por uma estética e uma forma de desconstrução mais próximas dos nórdicos Esbjörn Svensson e Tord Gustavsen do que propriamente dos Chick Corea desta vida. A diferença de registos não passa despercebida: enquanto nos dois casos acima citados a reacção do público é respeitosa, com Roberto Fonseca a noite aquece e a plateia responde com a mesma paixão pela música que abunda em palco.

A festa lançada por Roberto Fonseca teria continuação à altura com assinatura do ganês Pat Thomas e da sua Kwashibu Area Band. Pat Thomas é uma figura lendária do highlife (música festiva impulsionada por sopros que devem tanto a África quanto ao jazz e que há muitos anos se tornou a banda sonora preferencial das noites do Gana e da Nigéria – a par do afrobeat) e foi um nome proeminente da música africana durante as décadas de 70 e 80, tendo entretanto desaparecido de cena até à edição, em 2015, do álbum em que aparece à frente da banda montada pelo multi-instrumentista Kwame Yeboah, também associado a outro nome mítico do highlife – Ebo Taylor. Aquilo a que se assiste em palco é uma demoníaca máquina rítmica e melódica, a lembrar a banda dos tempos de James Brown no Apollo Theatre, assente numa energia inesgotável e contagiante.

Também a cantora cabo-verdiana Elida Almeida impressionaria na sua apresentação no Kriol Jazz. Se o seu álbum de estreia, Ora Doce Ora Margos, deixava já antever um obrigatório nome emergente na música de Cabo Verde, o funaná, a tabanka, o batuque e a morna do seu reportório deram um passo de gigante em apenas dois anos. Em parte porque aquilo que havia já de muito cativante no registo autobiográfico do primeiro álbum, de canções interpretadas à flor da pele, é agora acrescentado de uma postura muito mais afirmativa quando conta apenas com 23 anos; mas também porque a identidade construída em conjunto com a impecável banda dirigida por Hernani Almeida (com Diego Gomes, Nelly Cruz e Magik Santiago) a ajuda a distinguir-se de qualquer outra voz destas paragens. Há algo de muito poderoso e único a nascer aqui.

O PÚBLICO viajou a convite da Tumbao