Não, os jogos para treinar o cérebro não nos tornam mais inteligentes

Os jogos só melhoram o desempenho nas tarefas treinadas em específico, não se verificando uma transferência desses benefícios para outros sectores cognitivos. No ano passado, uma destas aplicações foi multada por publicidade enganosa.

Os jogos para exercitar o cérebro são muitas vezes procurados para evitar a perda de memória ou preservar o desempenho cognitivo
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Os jogos para exercitar o cérebro são muitas vezes procurados para evitar a perda de memória ou preservar o desempenho cognitivo patrícia martins

Há muitas aplicações e jogos com o objectivo de “treinar o cérebro”, prometendo melhorias a nível do desempenho cognitivo. Mas a ciência não está de acordo com parte dos argumentos utilizados. É o que dizem os investigadores do departamento de psicologia da Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos, num estudo publicado recentemente na revista científica Frontiers in Aging Neuroscience. Este tipo de jogos não oferece, no geral, melhorias expressivas, nem se traduz num aumento da inteligência dos seus utilizadores.

A equipa de investigadores juntou-se para perceber até que ponto é que os jogos para exercitar o cérebro ajudam a preservar e a melhorar a capacidade cognitiva. “Neste estudo, tal como em estudos anteriores, descobrimos que existem escassos indícios de que este tipo de jogos ofereça alguma melhoria significativa”, disse Wally Boot, um professor de psicologia que integra a equipa de investigação.

De facto, estes jogos melhoram o desempenho nas actividades treinadas em específico mas não se verifica uma transferência desse desempenho para outros sectores. “Se treinarem, os utilizadores podem ficar incrivelmente bons em aspectos específicos, mas se alterarmos essa tarefa ligeiramente, a performance cai por terra”, disse Wally Boot, citado no site da Universidade da Florida. O investigador Neil Charness exemplifica: “Se eu me tornar muito bom em palavras cruzadas, será que isso me ajuda a lembrar onde deixei as chaves? Provavelmente, a resposta será não”.

Charness refere que, ainda assim, existe um número crescente de pessoas que acreditam que este tipo de jogos os ajuda a proteger da perda de memória ou de distúrbios mentais.

A preocupação com o bom funcionamento cognitivo faz sentido numa altura em que o envelhecimento da população é uma realidade, tanto nos Estados Unidos como em Portugal. As projecções do Instituto Nacional de Estatística estimam que o envelhecimento demográfico vai ser acentuado e que, em 2080, existam 317 idosos por cada 100 jovens. Uma outra previsão aponta para que, em 2060, 13% da população portuguesa esteja dependente de terceiros – o que, em alguns casos, é uma consequência da degeneração cognitiva, daí a popularidade deste tipo de jogos entre a faixa etária mais alta. Uma boa alternativa a estes jogos, diz o professor Charness, é a prática de exercício físico.

O teste foi conduzido em 60 adultos seniores (com mais de 65 anos) durante um mês. Ainda assim, os investigadores advertem que são sempre necessários estudos com uma duração mais longa e mais “cobaias” para que se possa entender verdadeiramente se existe algum benefício resultante deste tipo de jogos.

Publicidade enganosa

As palavras cruzadas, o sudoku ou a sopa de letras são escolhas recorrentes deste tipo de actividades, sobretudo na população mais envelhecida. Mas existem outros jogos populares como as aplicações Lumosity ou Elevate que, apesar de gratuitas, têm versões pagas que podem atingir valores elevados. Segundo o site da aplicação, o Lumosity é usado por mais de 85 milhões de pessoas no mundo e pode levar a pagamentos dentro da aplicação que atingem os 64 euros. 

Por outro lado, o Elevate — cujas compras na aplicação podem chegar aos 170 euros — é caracterizado como sendo um programa de treino cerebral “desenhado para melhorar a sua concentração, habilidade de expressão, velocidade de processamento, memória e habilidades matemáticas”. 

No início de Janeiro de 2016, a Lumos Labs — a empresa que detém a aplicação Lumosity — teve de pagar dois milhões de dólares (cerca de 1,883 milhões de euros) por “publicidade enganosa”.

A Comissão de Comércio Federal norte-americana apresentou uma queixa contra a aplicação por garantir, sem fundamento, que o jogo ajudava os utilizadores a terem uma melhor performance na escola ou no trabalho, assim como afirmava ajudar a diminuir a perda cognitiva decorrente do avanço da idade. 

A Comissão de Comércio norte-americana considerou que a aplicação se aproveitava do “medo dos utilizadores relacionados com o declínio cognitivo resultante da idade, sugerindo que a aplicação podia evitar a perda de memória, demência e até a doença de Alzheimer”, não apresentando qualquer prova científica destas alegações.

“Cada vez mais empresas estão a ser multadas por este tipo de afirmações exageradas e isso é bom sinal”, considerou o investigador Wally Boot, citado no site da instituição de ensino na Florida. Boot conclui que os argumentos invocados pelas empresas de jogos não são, portanto, coincidentes com os resultados deste estudo.