Entrevista

O físico de partículas que se tornou jesuíta

Olha para o seu percurso e percebe as raízes profundas da sua vocação. Terminado o doutoramento em Física, a decisão mais natural para Bruno Nobre foi entrar na Companhia de Jesus.

Bruno Nobre tem 39 anos, uma licenciatura em Física Tecnológica e um doutoramento em Física de Partículas Elementares, defendido em 2005 no Instituto Superior Técnico. No mesmo ano entrou para a Companhia de Jesus, tendo posteriormente concluído uma licenciatura em Filosofia na Universidade Católica Portuguesa e um mestrado em Teologia no Boston College, nos Estados Unidos. Foi ordenado sacerdote no ano passado e dedica-se agora a um pós-doutoramento em Filosofia da Ciência na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Assinou com o físico ateu Pedro Lind a obra Dois dedos de conversa sobre o dentro das coisas (edição Frente e Verso), na qual trocam argumentos, na forma de cartas, acerca da existência ou não de Deus e outros assuntos relacionados. Dá-nos aqui, em entrevista, a sua perspectiva sobre a relação entre a ciência e a religião.

A religiosidade parece ser uma dimensão omnipresente em todas as sociedades. Será uma característica intrínseca ao ser humano?
Sim. Na verdade, a religiosidade, que se expressa de forma distinta nas diversas culturas, exprime algo que é fundamental em cada pessoa: a sua abertura à transcendência. Dito de outra forma, o horizonte da existência humana é Deus. E podemos perceber isso se prestarmos atenção ao dinamismo profundo que nos habita: a procura incessante do bem e da verdade, e a consciência, que no fundo todos temos, de que nenhuma realidade criada pode satisfazer o nosso desejo de plenitude. Como disse Karl Rahner, um teólogo importante do séc. XX, o ser humano é uma pergunta para a qual Deus é a resposta. A religiosidade do ser humano é, neste sentido, uma expressão deste dinamismo que todos trazemos connosco e que nos orienta inevitavelmente para Deus.

O que o levou, após um doutoramento em Física, a seguir uma vocação religiosa?
A palavra-chave é exactamente essa: vocação. Se entrei na Companhia de Jesus após a conclusão de um doutoramento em Física foi porque estava convencido de que a minha vocação era o sacerdócio na Companhia de Jesus. Não decidi tornar-me jesuíta de um dia para o outro. Durante os anos que passei na universidade, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, a minha fé foi amadurecendo, a minha inserção na Igreja foi-se fortalecendo, e aos poucos fui percebendo, num processo nem sempre linear, qual era o meu lugar na Igreja. Quando olho para trás, vejo que a minha vocação tem raízes profundas. Quando era criança, tinha uma sensibilidade religiosa invulgar, que foi de certa forma reprimida nos últimos anos de liceu e nos primeiros anos da faculdade. Mas mesmo durante estes anos tinha um grande desejo de radicalidade, o que tinha algo que ver, percebo agora, com os votos evangélicos e a vocação à vida religiosa. Por estranho que pareça, quando terminei o doutoramento, entrar na Companhia de Jesus foi a decisão mais natural e que correspondia ao meu desejo mais profundo.   

Como afirmou o padre Georges Lemaître, um dos proponentes do modelo do Big Bang, um investigador crente abstrai-se da sua fé na sua investigação?
De certa forma, sim. Digo “de certa forma” porque a religião pode, de um modo discreto, estar presente na prática científica. Por um lado, a religião pode ser uma importante fonte de criatividade e de formulação de hipóteses científicas. Por outro lado, o desejo de contemplar a ordem e a harmonia da natureza pode ter uma ressonância religiosa, como aconteceu com alguns cientistas famosos. Neste sentido, a religião pode servir de motivação e estímulo para a prática científica. É verdade, no entanto, que um cientista religioso deve respeitar, como qualquer outro cientista, os métodos e rigor próprios da sua área de pesquisa. Nisto não se distingue dos outros cientistas. A religião pode ser, para alguns cientistas, uma fonte de motivação. No entanto, creio que em geral um cientista religioso sério, como um cientista ateu ou agnóstico, desfruta da ciência pela ciência, sem segundas intenções. Esse é, certamente, o meu caso.       

A ciência e a religião têm implícitas concepções diferentes do mundo. Por exemplo, para a ciência, e pelo menos desde Darwin, não existe um propósito ou um sentido na natureza. É difícil conciliar as visões científica e religiosa?
É difícil conciliar ciência e religião sobretudo quando temos uma compreensão superficial destas duas dimensões da cultura humana. Ciência e religião são, de facto, concepções diferentes do mundo e do ser humano, mas não necessariamente contraditórias. É verdade, porém, que religião e ciência constituem formas diferentes de olhar a existência e o mundo. Mas isto não quer dizer que ciência e religião sejam incompatíveis, como dizia. John Haught, um teólogo americano que tem escrito bastante sobre ciência e fé, usa uma imagem que me parece bastante esclarecedora: ciência e fé são dois mapas distintos da realidade. Mas nenhum deles é falso. Simplesmente olham a realidade de forma distinta. Por exemplo, um mapa de estradas é diferente de uma carta geológica. E, no entanto, ambas dizem algo fundamental sobre a realidade que procuram expressar. Quando ciência e fé entram em contradição profunda, devemos perguntar-nos se uma delas, ou ambas, não está a ultrapassar o âmbito que lhe é próprio.

Pode uma pessoa crente, com uma sólida formação científica, acreditar em milagres?
Sim. O cerne da questão tem que ver, por um lado, com a concepção de natureza, e, por outro, com a forma como se entende a acção divina no mundo. A ciência moderna tenta compreender a natureza em termos de leis rígidas, regulares e imutáveis. Este tipo de leis aplica-se, geralmente, aos níveis de complexidade inferiores, em particular no domínio da física e da biologia. Mas a natureza é muito mais do que os níveis da física ou a biologia. E há mais, sobretudo, do que as leis que os descrevem. Não é absurdo dizer que a natureza tem uma potencialidade que não é evidente nas leis operativas nos níveis menos complexos. E também não é absurdo pensar que a proximidade de Deus conduza a natureza à sua máxima actualização, superando o que seria expectável de acordo com as teorias científicas vigentes. Neste sentido, diria que os milagres não são propriamente uma suspensão das leis da natureza (embora habitualmente se fale de milagres desta maneira), mas uma antecipação da sua transfiguração final, que só pode ser iniciativa de Deus.

Segundo Santo Agostinho: “Se compreendeis, não é Deus.” É sinal de pouca fé e de incompetência teológica procurar provas da existência de Deus?
Creio que a afirmação “se compreendeis, não é Deus” não tem exactamente que ver com as provas da existência de Deus. A afirmação é própria de uma abordagem teológica de carácter apofático e pretende sublinhar que o mistério de Deus está muito acima das capacidades naturais da razão. Embora Deus não seja opaco à razão humana, esta não consegue nunca penetrar toda a Sua profundidade. Deus está sempre mais além do que dele possamos pensar ou dizer. Ou seja, Deus não pode ser encerrado nas nossas teorias e conceitos. E se nos convencemos de que um determinado conceito ou ideia tem a capacidade de expressar totalmente o mistério de Deus, então já não é Deus que está no nosso horizonte, mas uma ideologia ou um ídolo.