Editorial

Os princípios da incerteza

Uma das razões para o mundo estar mais perigoso é a maior dimensão de instabilidade. Os Estados Unidos de Trump, que oscilam entre o isolacionismo, o conflito económico e a deriva militarista são uma das causas desta instabilidade. Mas outra é seguramente uma Turquia com dupla personalidade e que ninguém entende: deseja Erdogan afirmar uma potência relevante no mundo árabe, exercendo a liderança da região e forçando mudanças? Ou quer continuar a negociar com a União Europeia com uma mão, enquanto caminha na direcção contrária à adesão? E qual será o papel do exército turco, entalado entre uma pertença à NATO e o esforço militar na vizinha Síria que nem sempre coincidem?

São demasiadas perguntas no ar, demasiados focos de instabilidade e insegurança. É neste contexto que os actores não estaduais vingam, aproveitando debilidades em coligações disfuncionais e explorando os espaços deixados pelos conflitos alheios. A Turquia sabe que está no raio de acção do Estado Islâmico, podendo ainda assistir a uma renovação da actividade dos curdos, que estão a ser empurrados para a marginalidade.

E é neste cenário que a União Europeia tem de decidir o que fazer. Não é possível ignorar os dez milhões de turcos que estão no espaço da UE, nem o peso de Ancara enquanto parceiro económico e estratégico — e que tanto jeito deu no caso dos refugiados. Mas também não se poderá tratar como nação confiável uma república nas mãos de um Erdogan que deriva cada vez mais para a ditadura. O equilíbrio, difícil, passa por apoiar a Turquia e os turcos mas recusando Erdogan. E implica algo que se tem visto pouco: pensar a longo prazo e assumir estratégias que dependam menos da política circunstancial e mais dos pontos de contacto que ainda existem entre a grande nação turca e os restantes europeus.

A alternativa será sempre pior: uma Turquia em choque frontal com a Europa vai inevitavelmente aproximar-se de Moscovo, fortalecendo Putin e aumentando ainda mais as dúvidas sobre o futuro da Aliança Atlântica. E esse é um cenário que não é admissível na Europa. Por tudo isto, estará na altura de adoptar alguns princípios de diplomacia oriental, optando pela paciência e ignorando focos de tensão fáceis. O longo prazo é muitíssimo mais importante do que o imediato, por muito que dê jeito usar o fantasma turco em tempos eleitorais nas nações europeias.