Opinião

E se a guerra começar hoje?

Kennedy e Khrustchov eram, apesar de tudo, homens racionais e sensatos. Não é esse o caso de Trump e Kim Jong-un.

Há bem mais de meio século que a questão não se colocava nestes termos. Com efeito, seria preciso regressar à crise dos mísseis em Cuba, quando o americano Kennedy se confrontou com o soviético Khrustchov, para nos depararmos com a iminência de um conflito termonuclear que devastaria o mundo. Moscovo recuou então na instalação de mísseis em território cubano, mas nem por isso Washington se atreveu verdadeiramente a cantar vitória. Toda a gente ficara imensamente aterrada e, a partir daí, aprendemos todos com isso. Até agora.

Kennedy e Khrustchov eram, apesar de tudo, homens racionais e sensatos. Não é esse o caso de Donald Trump e Kim Jong-un, o líder norte-coreano, ambos imprevisíveis, impulsivos, egocêntricos e paranóicos (Kim é-o indiscutivelmente, à imagem e semelhança do país mais misterioso e surrealista do mundo, cuja liderança herdou do pai e do avô, mas dotado de armamento nuclear que o jovem Kim exibe regular e festivamente para assustar a vizinhança global).

É suposto Kim ser controlado pelo poderoso vizinho chinês, mas Pequim já fez questão de se demarcar dele, embora ao estilo “sem tradução” da sua diplomacia. Durante a recente visita do presidente Xi Jinping aos Estados Unidos, onde foi recebido na estância de Trump na Florida (com a designação sumamente kitsch de Mar-al-Lago), o Presidente americano acabara de mandar bombardear uma base militar do regime sírio, mas, para além do business as usual, a mensagem trocada entre ambos sobre o assunto ter-se-á perdido também na tradução.

Ora, talvez para precisar as coisas — e para que o seu interlocutor Xi Jinping não ficasse com dúvidas —, Trump e os seus generais fizeram a estreia da “mãe de todas as bombas” (pré-nucleares, claro) contra instalações do Daesh no Afeganistão. Mas receando que isso não fosse ainda suficientemente compreendido pela liderança chinesa, já então uma frota americana avançava para a península da Coreia, com bombardeiros e mísseis à espera de ripostar à anunciada provocação do louco Kim: um novo ensaio nuclear para comemorar os 105 anos do avô adulado.

Só então os chineses saíram do seu silêncio oriental para advertir que “um conflito poderia eclodir a qualquer momento” e que quem tomasse a iniciativa de abrir as hostilidades teria de arcar com as respectivas responsabilidades. Por outras palavras: eles não têm mão no miúdo traquinas que supostamente tutelam e insiste em brincar com armas nucleares, como se fossem carrinhos eléctricos.

Eis aonde chegámos nesta era em que pululam criaturas como Trump, Putin, Assad, Jinping, Jong-un, Erdogan — à espera dos resultados do referendo que lhe deverá atribuir plenos poderes ditatoriais na Turquia —, sem esquecer tantas outras, do húngaro Orbán ao filipino Duterte, concebidas a preceito para lançar o mundo na desordem e no desvario, como se já não bastasse a barbárie desenfreada do Daesh. Mas se pensarmos ainda que na civilizada Europa, não faltam personagens tão grotescas como Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon — afinal, cara e coroa da mesma moeda populista na corrida ao Eliseu — ou o chefe da diplomacia britânica e promotor do “Brexit”, Boris Johnson, alvo da chacota dos seus parceiros como caricatura física e psicológica de Trump — só o humor negro nos salva da ideia de vivermos num manicómio.

Revi há dias na televisão o Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, que descobrira em 1964 num cinema do Sul de Inglaterra. Se não é a obra-prima que me pareceu na altura, será difícil encontrar um filme tão visionário — e de uma ironia tão implacável — sobre o apocalipse nuclear, provocado por um bando de imbecis (aliás, o subtítulo do filme é: “Como aprendi a deixar de me aborrecer e a amar a bomba”). Por isso, e ainda com humor negro, negríssimo, preparem-se: se a guerra começar hoje — ou amanhã —, já estão avisados e não se aborreçam.