As ilhas do Porto entraram na rota do alojamento turístico

Investimento familiar está a transformar algumas casas devolutas de uma zona pontuada de ilhas operárias em alojamento local.

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O investidor garante que não quer expulsar os moradores das casas que comprou Adriano Miranda
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O investidor garante que não quer expulsar os moradores das casas que comprou Adriano Miranda

Tiago Guimarães diz que andava “há anos” à procura de um local assim. Um daqueles núcleos habitacionais tão característicos do Porto e conhecidos por ilhas, onde pudesse instalar um projecto voltado para o turismo. Não era só a sua formação, nesta área, que o motivava, era também a experiência pessoal. “Eu viajo com alguma frequência e o que procuro é o que os outros têm de específico e o convívio com os locais. Há mais de mil ilhas espalhadas pelo Porto, espaços com mais de cem anos e de onde não queremos expulsar os moradores, porque o objectivo é as pessoas estarem cá. Mesmo não falando a língua [dos turistas internacionais] eles vão abrir a porta, dar de comer e beber, perguntar se querem que lhes lavem a roupa”, explica.

Demasiado idílico? Tiago e os dois sócios – o irmão Bruno e o tio João Paulo Guimarães – estão prestes a descobri-lo. As primeiras casas que compraram e reabilitaram na Rua da Glória, mesmo ao pé do Largo da Lapa, estão praticamente prontas e no próximo mês devem estar a abrir as portas aos primeiros turistas. Por enquanto são sete, mas a ideia é que o projecto não fique por aqui. Além das sete casas destinadas ao turismo, os três empreendedores compraram outras sete, que estão ocupadas – e assim devem continuar, garante Tiago Guimarães – e uma ilha, na mesma rua, com dez outras habitações. Destas, oito estão ocupadas e só duas, com entrada pela Rua da Senhora da Lapa, se encontram vazias e à espera de serem recuperadas para alojamento local. Mas não já. “Vamos ver como correm as coisas”, explica Tiago.

O núcleo, uma verdadeira aldeia no centro do Porto, com várias casas desocupadas e degradadas e uma miríade de ilhas incrustadas no interior, está a mudar. As casas há muito desocupadas começaram a ser reabilitadas e até funcionários da Câmara do Porto – que também é proprietária ali de algumas casas – estão no local a fazer obras. Tiago Guimarães diz que foi o primeiro investidor em muitos anos a aparecer por ali, mas hoje não faltam placas de “Vende-se” em alguns edifícios e há casas isoladas com intervenções recentes.

Ele descobriu o local através de uma crónica do PÚBLICO e as primeiras informações que recolheu, de uma moradora, não pareciam animadoras. “A senhora dizia que a câmara tinha comprado tudo e que era para ir tudo abaixo, que as ilhas iam acabar”, conta o empresário de 34 anos. Mas ele não acreditou e lá conseguiu o contacto do proprietário das casas que haveria de vir a comprar. “O senhorio não tinha as casas à venda e andei a ‘namorá-lo’ ano e meio para mas vender”, diz. Feito o negócio, começou a desenvolver o projecto.

As sete casas são praticamente todas iguais. Têm um pequeno espaço de cozinha (com microondas, mas sem fogão), uma casa-de-banho e um espaço para instalar um sofá cama. Ao cimo de umas escadas, num mezanino, fica uma cama de casal. “As casas dão para quatro pessoas e deverão ser colocadas no mercado a 70 euros por noite”, conta Tiago Guimarães. A excepção é a primeira casa da rua, que só dá para duas pessoas – tem apenas mezanino e uma casa-de-banho no rés-do-chão –, mas tem ligação à casa do lado, permitindo alugá-las em conjunto para um grupo de seis pessoas.

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Tiago Guimarães andava há anos à procura de antigas casas de operários Adriano Miranda

É um alojamento básico, que pode, a qualquer altura, ser usado para outros fins. “Se o turismo deixar de ser uma hipótese, as casas podem ser convertidas para estudantes. Foram feitas nessa dupla aposta – a de criar as condições necessárias para qualquer um destes casos”, explica o investidor.

Naquele núcleo escondido no centro do Porto, o projecto da família Guimarães pode ser o que tem maior visibilidade, mas está longe de ser o único. O próprio Tiago aponta duas casas já reabilitadas por um investidor francês, também na Rua da Glória, e Maria Helena Santos, que vive a meio da artéria e vem à porta sacudir uma toalha a meio da tarde, aponta para a porta ao lado, dando conta que por ali também já dormem turistas. “Isto que estão a arranjar é tudo para ‘hotéis’”, diz. E agrada-lhe? “O que é que eu hei-de fazer? Não alugam as casas porque têm medo dos caseiros que não pagam. Eu não tenho nada contra. Não estorva e até é melhor para a rua”, diz, apontando uma ilha abandonada em frente à sua casa camarária, e que classifica como “uma miséria”.

Ali, garante, não se ouve, por enquanto, ouvir falar de vizinhos incentivados a sair para dar lugar ao turismo. “As casas velhas e vazias é que é tudo para ‘hotéis’”, afirma. Também Paula Velosa, que nasceu ali, mas agora só vem para ficar, de vez em quando, na antiga casa da mãe, a viver num lar, diz não ter ouvido qualquer queixa de vizinhos preocupados com a chegada dos turistas. “Há muitas casas a cair e estão a restaurá-las, algumas para alugar a estrangeiros. Não ouvi que alguém tenha sido prejudicado, acho que estão a mexer nas casas devolutas, que aproveitam para comprar”, diz.

As duas mulheres apontam o “sossego” como a melhor qualidade da zona e Paula indica, com a mão, a casa da mãe, em azulejo verde, no topo de umas escadas de pedra, para dizer que “tem uma vista de onde se vê o Porto todo”. Já José Moreira, um dos inquilinos da família Guimarães, parece pronto para a mudança que está a chegar à sua porta. “[Os turistas] Não vão morar na minha casa, acho eu, por isso… Mas gosto de ver turistas por aqui, é bom sinal”, sintetiza, antes de desaparecer na última curva da Rua da Glória, em direcção à Lapa e à cidade que fica para lá da vista.