O grupo que quer tomar o lugar dos taliban

Há muitas dúvidas quanto à verdadeira natureza da presença do Daesh no Afeganistão. Mais do que um novo grupo, trata-se de dissidentes dos taliban contra quem mantêm uma “batalha de ideias”.

Militar durante operação conjunta entre os EUA e o exército afegão contra o Daesh
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Militar durante operação conjunta entre os EUA e o exército afegão contra o Daesh EPA/GHULAMULLAH HABIBI

A mera presença do Daesh no Afeganistão foi controversa até há pouco tempo. Os primeiros sinais surgiram em 2014, coincidindo com a proclamação do “califado” no Iraque e na Síria, mas o Governo afegão desvalorizou a ameaça durante mais de um ano. Subsistia a dúvida se a actividade terrorista levada a cabo sobretudo no Leste do país tinha origem em grupos dissidentes de outras organizações velhas conhecidas, como a Al-Qaeda ou os taliban.

Só em Janeiro de 2015 é que o Daesh anunciou a criação de uma base na província a que chama de Khorasan – uma região histórica que abrange parte do Afeganistão e do Paquistão. Mas ao contrário do que aconteceu na Síria e no Iraque, a expansão territorial foi mais lenta. A província de Nangarhar, onde esta quinta-feira foi lançada a bomba GBU-43, tornou-se no bastião dos jihadistas por causa da sua proximidade em relação ao Paquistão, de onde são provenientes os principais líderes do Daesh afegão, noticiou a BBC.

A falta de apoio local é uma das causas para a dificuldade em estabelecer uma posição forte no Afeganistão, onde “é visto como uma força estrangeira”, conclui um relatório do Instituto do Médio Oriente. As forças de segurança afegãs calculam que 80% dos seus membros sejam paquistaneses. As relações entre o Daesh Khorasan e o grupo original baseado na Síria e no Iraque são reduzidas. O mais provável é que o rótulo Daesh tenha sido apropriado por outros grupos da região de uma forma oportunista.

“O nome Daesh tornou-se num título fácil para todos aqueles descontentes com os taliban, tanto no Afeganistão como no Paquistão, para ajustar contas com os seus ex-camaradas”, dizia recentemente Borhan Osman, do Afghanistan Analyst Network. “Estes eram tipos que já cortavam cabeças quando o Daesh apareceu”, dizia um morador do distrito de Chaprahar, referindo-se aos líderes do grupo, entrevistado para um relatório do Instituto para a Paz dos EUA.

A impossibilidade de expansão levou o grupo a privilegiar uma estratégia de desestabilização através de atentados, protagonizados sobretudo pela célula de Cabul, escreve a revista The Diplomat. A grande luta do Daesh no Afeganistão é uma “batalha de ideias” contra os taliban – a força rebelde mais poderosa no país desde a invasão soviética em 1979 – para se afirmarem como os verdadeiros representantes da maioria sunita. O analista Casey Johnson sublinha as tentativas de “desacreditar os taliban numa base religiosa através dos seus meios de propaganda como a revista Dabiq, assim como nas emissões de rádio”. A ausência de implantação local e a forte associação do Daesh ao Paquistão têm enfraquecido a sua tarefa, face ao nacionalismo  dos taliban.

Desde 2015 que o Daesh esteve por trás de mais de uma dezena de ataques no Afeganistão, visando sobretudo a minoria xiita, com o objectivo de “aprofundar o conflito sectário”, continua a Diplomat. Em Julho do ano passado, um atacante suicida fez-se explodir durante uma manifestação em Cabul organizada pela minoria xiita hazara, fazendo 80 mortos e mais de 240 feridos. Em Novembro, um atentado numa mesquita xiita, também na capital, provocou 27 vítimas mortais. Já no mês passado, um ataque do grupo jihadista a um hospital militar matou 30 pessoas.

O comandante das forças norte-americanas no Afeganistão, o general John Nicholson, calcula que existam entre mil e 1500 combatentes associados ao Daesh no país – um número que há um ano era o dobro, segundo a BBC, e cuja diminuição se deveu sobretudo a bombardeamentos norte-americanos.