Editorial

As negociatas dos finalistas

Há um negócio que se especializa em subverter actos eleitorais em escolas cheias de menores através de ofertas em dinheiro e em géneros. Esse negócio concretiza-se em viagens mais ou menos selvagens onde o álcool corre à farta e o descontrolo é assegurado pelas mesmas empresas que promoveram o evento. Há dinheiro a passar de mão em mão,  mas facturas nem vê-las. Há “famosos” de terceira e quarta categorias a animar festas de listas a associações de estudantes, que já negoceiam a vitória nas eleições em troca de pacotes de viagens de finalistas. Há estudantes angariados para angariar negócio junto dos colegas, num esquema em pirâmide que funciona enquanto todos ganham. E há ameaças sérias de violência num negócio em que os territórios são disputados palmo a palmo.

O melhor é que ninguém sabe de nada: não sabe o Ministério da Educação, que supostamente tutela as escolas e o que nelas se passa; não sabem os pais, que nem se informam sobre como é gerido o esquema que enfia os filhos em camionetas que os deixam à porta de um qualquer destino soalheiro; não sabe o Ministério das Finanças, que nem se interessa pelas muitas centenas de milhares de euros que são trocados de mão em mão sem quaisquer documentos; e não sabem as juventudes partidárias, que têm a sua acção de base nestas associações de estudantes que são tudo menos sérias.

O que menos interessa desta história toda é o que se passa durante a viagem: sim, há mais dinheiro a circular, muito álcool nas mãos de menores e rédea solta para os exageros. Hotéis, agências, pais e filhos contam com isso.

É o que menos interessa na história e só serve para títulos mais ou menos indignados.

O que conta aqui é a forma como tudo isto acontece e os resultados que tem: se a primeira experiência democrática que estas gerações vivem está corrompida por famosos e viagens a destinos mais ou menos paradisíacos, é difícil associar a política a algo nobre ou o exercício de cargos públicos a uma expressão de cidadania.

Talvez nada disto seja, em si mesmo, ilegal. Mas é certamente amoral — e tem consequências. Da próxima vez que lerem uma notícia sobre as pequenas e grandes negociatas, a violência no desporto, a prepotência de quem tem poder ou a candidatura a uma câmara de um ex-autarca condenado por corrupção poderão encontrar uma linha recta que conduz a esta notícia. 

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