Diogo Infante e Alexandra Lencastre em queda livre todas as noites

Durante quase dois meses, Diogo Infante e Alexandra Lencastre repetirão todas as noites a espiral de violência e autodestruição de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? No Teatro da Trindade, os dois serão o casal do texto demolidor em que Edward Albee ataca o sonho americano.

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O texto de Albee pertence a um lote das peças fundamentais que Infante queria e quer fazer. Percebeu, subitamente, que ele e Alexandra Lencastre tinham já, afinal, a idade das personagens Nuno Ferreira Santos
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Nas mãos de George, professor universitário de História na Universidade de New Carthage, está o livro The Decline of the West, de Oswald Spengler. São essas páginas que George lê, ao mesmo tempo que a mulher, Martha, filha do reitor da universidade, se retira para o andar de cima com um convidado mais novo, numa manobra de sedução que o marido não ignora. Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, peça de Edward Albee estreada em 1962, foca-se tanto num duelo cruel e imparável entre George e Martha, a contas com uma vida conjugal falhada, à beira da implosão, em que todos os golpes são permitidos, os falhanços profissionais e emocionais são relembrados como uma faca espetada no corpo do outro e revirada lentamente para produzir mais estragos, quanto denuncia o ataque implacável do dramaturgo ao sonho americano, a uma vida familiar perfeita, que tapa com um brilho impecável a podridão humana e um rol de mentiras e agressões que não costumam ser visíveis do jardim com relva perfeitamente aparada que termina à porta do lar idílico.

Daí que o livro de Spengler não seja um mero adereço e a sua citação não seja simplesmente incidental. “O Albee está obviamente a brincar com modelos, padrões e estereótipos da sociedade americana da altura”, defende Diogo Infante, o George que veremos no palco do Teatro da Trindade, em Lisboa, até 11 de Junho, e que fora dele encena um texto com aura de clássico fundamental do século XX, de uma escrita escalpelizadora da essência americana na descendência de Tennessee Williams ou Eugene O’Neill. “Ele queria destruir esse ideal de perfeição e coloca um casal jovem como espelho deste casal mais velho, com muitos pontos de contacto – uns e outros não conseguem ter filhos, uns e outros estão entregues a jogos de mentiras, de ilusão e de falsidade.” Esse espelho parece apresentar-se com o travo azedo da inevitabilidade. George e Martha (Alexandra Lencastre) levam a cabo todo um perverso circo de agressões mútuas verbais, seguindo um guião que apenas pretende deixar uma coisa clara para o jovem casal que convidam para sua casa após uma típica recepção na universidade: preparem-se, porque é aqui que, com mais 20 anos em cima, vão chegar.

Bebe-se o tempo todo em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? – alegadamente, terá sido num pub que Albee descobriu esta adulteração da cantilena da história dos três porquinhos, transformando o desafio à figura ameaçadora o lobo mau numa provocação à claustrofobia quotidiana. E bebe-se para conduzir e empurrar repetidamente as personagens para uma queda livre, em que o álcool em excesso funciona como combustível para uma devastação em curso e amplificador da postura passivo-agressiva de George e do modo desabrido e descontrolado de Martha; em que o álcool não se apresenta como desculpa episódica de uma perda de controlo, mas antes como um sintoma diário da incapacidade de lidar com as marcas de um casamento sobrevivente a todas as contrariedades, apesar de todos os insultos, apesar de todas as rasteiras cirurgicamente passadas por quem se conhece tão bem.

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“É uma queda vertiginosa que vai ser repetida todas as noites”, diz Alexandra Lencastre, pensando não tanto nas várias apresentações da peça no Teatro da Trindade, mas no tempo da peça, em que os últimos minutos, antes de subirem juntos para o quarto, podem ter um efeito redentor, mas em que tudo o resto parece indiciar uma espiral cada vez mais funda de autodestruição e de destruição consciente do outro. “É a queda vertiginosa, o abismo, a rua sem saída, a falta de sonho e a incapacidade de fazer planos e sair da situação”, acredita a actriz. “Eles criaram o seu próprio inferno, criaram jogos, regras e estão cheios de mágoas. São kamikazes – ele de uma forma mais passiva, mas em que também não sai da lama, e ela destruindo tudo, de uma forma demolidora e desbragada, sem pudor absolutamente nenhum.” Esse inferno, esse fogo que ateiam, é um fogo em que se deixam arder lentamente, regado com mais uma dose de álcool para que não deixem por um só segundo de ser consumidos pelo mais profundo castigo que se impõem.

A natureza humana

“Você não tem limites nenhuns?”, pergunta, às tantas, Nick, o jovem cientista que é o público preferencial de toda este festim de golpes e contragolpes. Alexandra Lencastre acredita que é precisamente essa a questão: George e Martha não conhecem limites na forma perversa com que exercem aquilo que, na opinião da actriz, é ainda amor. Uma forma doentia e excessiva de amar, de usar o outro como saco de pancada – mas cujos golpes são também desferidos contra os próprios. “Eu sou uma romântica”, desabafa Alexandra. “Acho que há aqui um amor profundo, caso contrário um deles já tinha partido.”

Quem Tem Medo de Virginia Woolf? é, incontestavelmente, a peça que tornou Edward Albee um nome obrigatório na dramaturgia moderna, em parte pela natureza violenta do texto, em parte porque a versão cinematográfica interpretada pelo casal (também explosivo) Richard Burton e Elizabeth Taylor a embrulhou com uma aura quase mítica. Albee havia  de queixar-se em entrevista que transportava esta obra pendurada ao pescoço “como uma qualquer medalha brilhante – muito simpática mas um pouco desconfortável”. O pescoço de Albee havia de pender mais com o peso de Quem Tem Medo... do que praticamente com toda a sua extensa restante obra. Culpa sua, seguramente, ao conceber uma peça de tal forma desconcertante que é impossível não ficar com aquelas personagens atravessadas, não ficar a bailar com elas e a imaginá-las numa sala que nos inclua.

O “grande público"

No caso de Diogo Infante, o principal impulsionador desta encenação, o primeiro contacto com o texto deu-se numa apresentação do Teatro da Graça, com Isabel de Castro e Mário Jacques enquanto casal à beira do combate, num momento em que terminava o Conservatório de Teatro. “Fiquei muito impressionado com a dimensão e a densidade do texto”, lembra. “Desde essa altura que tenho um enorme fascínio pelos grandes textos, pelos clássicos mais contemporâneos, os textos referenciais. Acho que nos balizam.” O texto de Albee integrava, por isso, um lote daquelas peças fundamentais que o actor queria e quer vir a fazer, tendo subitamente percebido, após ter partilhado o palco com Alexandra Lencastre há dois anos em Plaza Suite, de Neil Simon (um tríptico de crise marital, melodramático e bem-humorado em doses semelhantes, num registo radicalmente diferente), que os dois tinham já, afinal, a idade destas personagens.

Num primeiro momento, a encenação foi colocada nas mãos de João Perry. “Concordámos os dois em lançar o desafio ao Perry, porque é alguém com quem já tentamos há muito tempo trabalhar e temos por ele uma profunda admiração”, revela Diogo Infante. “E era importante ser alguém que tivesse a confiança, o peso e a capacidade de se impor perante nós, de nos domar – porque às vezes não somos fáceis.”

A posterior indisponibilidade de Perry deixou o actor com o filho nos braços. E uma vez que o levantamento do texto tinha já sido feito e as ideias sobre a abordagem da peça começavam a tornar-se claras, o actor preferiu distribuir a sua energia pelo papel de encenador, além de pelo de actor, para não haver o perigo de o trabalho poder transformar-se, num repente, em algo de irreconhecível. Já era, nessa altura, bastante evidente que não haveria espaço para que os actores se impusessem às palavras de Albee, já não havia muitas dúvidas de que o tom teria de passar pela assustadora natureza muito humana e “a capacidade de nos magoarmos uns aos outros, de nos destruirmos por acharmos que não merecemos mais ou melhor”, mas também pela “proximidade entre o amor e o ódio”. “A peça é uma lição e um alerta sobre a natureza humana”, acredita Infante.

O encenador confessa-se empenhado em contribuir para que o público – “o grande público”, esclarece, porque acredita “na democratização do acesso à cultura” – possa assistir a estes textos, “a que se tem cada vez menos acesso, porque as estruturas de produção nacionais e municipais estão com outro tipo de vocação e deixaram de fazer estes textos, sendo o mainstream que tem coragem de lhes pegar”. Quem Tem Medo de Virginia Woolf? tem pistas suficientes para que cada um possa tirar daqui as suas próprias lições. “Uma das perspectivas pode até ser aquela de quem olha para um acidente na estrada e não resiste a ver o sangue – porque isto é sanguinário, embora, ao mesmo tempo, deliciosamente perverso.” Esses, que olharão este casal como um desastre automóvel, cairão talvez no erro de ser ludibriados pelo excesso de Albee. É que as vidas mantidas artificialmente, agarradas com desespero às aparências, não correspondem sempre a papel químico a esta violência.