A Cinemateca leva-nos ao tempo da outra senhora (com música)

Dois títulos importantes do cinema mudo nacional inauguram uma nova colecção de edições DVD da Cinemateca Portuguesa: cópias restauradas de Mulheres da Beira e Os Lobos, acompanhadas ao piano por Nicholas McNair.

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Os Lobos de Rino Lupo Rino Lupo
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Os Lobos de Rino Lupo

Dois filmes importantes da história do cinema português estão, a partir desta quarta-feira, disponíveis em DVD para quem os quiser descobrir. E a palavra, aqui, é mesmo “descoberta”, visto que estes são títulos pouco conhecidos do tempo do mudo, dirigidos em Portugal por Rino Lupo, cineasta italiano que fez carreira por toda a Europa e que dirigiu no nosso país uma série de títulos durante a década de 1920. Mulheres da Beira (1922) e Os Lobos (1923) são publicados numa edição conjunta, em cópias preservadas, restauradas e digitalizadas pela Cinemateca Portuguesa, com acompanhamentos ao piano previamente inéditos pelo pianista Nicholas McNair. Lançado com uma sessão oficial na sala Félix Ribeiro (esta quarta-feira, às 19h00), onde será projectado Os Lobos com acompanhamento ao vivo de McNair, este é o primeiro DVD de uma nova colecção que a Cinemateca pretende dedicar ao cinema mudo português, depois de ter iniciado a edição de cinema documental do Estado Novo (que arrancou com os cinco volumes dos filmes do Jornal Português) e de cinema etnográfico (com os filmes que Margot Dias rodou em África).

Para Tiago Baptista, um dos responsáveis destas edições e recém-empossado director do Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, este é um trabalho de rigor e paciência que se integra na missão de “serviço público” da instituição — “a vontade de divulgar, a um público mais alargado, obras menos conhecidas mas que têm valor cinematográfico e histórico,” diz o investigador ao PÚBLICO. “Sendo filmes do período da ditadura ou do cinema mudo, exigem um trabalho de contextualização histórica muito grande, muito cuidado. É um investimento que as torna menos interessantes do ponto de vista comercial — e a Cinemateca, fazendo uma utilização responsável do dinheiro do Estado, não tem a expectativa de ter lucro” com edições que são, primordialmente, “de âmbito cultural”.

O arranque da colecção de cinema mudo dá-se com estes dois filmes devido a uma série de circunstâncias felizes, como explica Tiago Baptista. “Primeiro, tinham sido feitas há pouco tempo digitalizações de boa qualidade de ambos os filmes. Neste caso, tratam-se de digitalizações de cópias que já tinham sido alvo de preservação e restauro foto-químicos, ou seja preservação e restauro em película de filmes que foram feitos em película. Segundo, sempre tivemos o objectivo de fazer as edições de filmes mudos acompanhados pelo menos ao piano,” reflectindo o modo como o cinema mudo era em muitos casos exibido em sala com acompanhamento, com música escrita propositadamente para o filme ou improvisada pelos músicos acompanhantes.

“Neste caso,” continua o investigador, “tínhamos conhecimento de um trabalho de investigação feito por uma equipa do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos de Música e Dança, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, liderada pelo Manuel Deniz Silva, que tinha acabado de identificar e editar a partitura original de 1925 escrita por António Tomás de Lima para o filme Os Lobos. Fazia sentido por isso conjugar as matrizes digitais que já existiam com este trabalho.”

Redescoberta música

O pianista e professor inglês Nicholas McNair, há muitos anos colaborador da Cinemateca no acompanhamento ao piano de cinema mudo, foi “recrutado” para interpretar — “porque existe uma margem de interpretação grande numa partitura original deste género” — a redescoberta música de Os Lobos (composta para a apresentação do filme no Brasil e cuja história é contada nos textos que acompanham a edição) e para escrever de raiz um novo acompanhamento para Mulheres da Beira.

É precisamente pelo lado da música que existe uma “avenida” internacional de divulgação para estes títulos: “As edições com acompanhamento ao piano feitas em colaboração muito estreita com musicólogos são relativamente raras.” O director do ANIM aponta por isso este lançamento como “um instrumento pedagógico óbvio”, “até porque sabemos que, para além dos espectadores e dos cinéfilos, existe um conjunto de académicos noutros países que se interessa por cinema português e para os quais estas edições vão ser muito importantes.” Desde o início, aliás, que os lançamentos da Cinemateca foram pensados para circulação internacional  “todas as edições são bilingues, todos os menus, legendas e textos de acompanhamento estão também em inglês, e os próprios DVD são multi-zona” - e os títulos anteriores tiveram uma excelente recepção. O prestigiado festival italiano Il Cinema Ritrovato atribuiu duas menções honrosas em 2016 ao Jornal Português, e os filmes etnográficos de Margot Dias (que vão ter agora uma segunda tiragem) estiveram entre as melhores edições internacionais de DVD para vários colaboradores da revista britânica Sight & Sound, e estão nomeados para os prémios Cinema Ritrovato de 2017.

A intenção é ir editando as três colecções em paralelo, dentro das limitações naturais da capacidade financeira da Cinemateca. “Estas primeiras edições tiveram uma gestação muito longa porque cada uma delas inaugurava uma linha editorial,” explica Tiago Baptista. “Temos a expectativa de poder aumentar um pouco o ritmo para continuar a editar pelo menos um título de cada série por ano, se possível mais. Isso tem sempre a ver com o trabalho de contextualização, a atenção que damos à brochura, os textos originais que acompanham cada DVD. No caso de edições futuras de filmes mudos, em que pretendemos contar com partituras originais ou improvisações ao piano novas, esse trabalho pode ser um bocadinho mais fácil.”

Nos cine-clubes

Na calha estão alguns dos títulos mais conhecidos do tempo do mudo, Lisboa, Crónica Anedótica e Maria do Mar de Leitão de Barros e os filmes do “Repórter X” Reinaldo Ferreira; produções documentais dos anos 1930 do Serviço de Propaganda Nacional e filmes agrícolas de Adolfo Coelho na colecção dedicada a documentos do Estado Novo; e os filmes de Ruy Cinatti na série etnográfica.

Se, para já, é o DVD físico que norteia este processo – com os lançamentos à venda na livraria Linha de Sombra, instalada na sede da Cinemateca em Lisboa, e através das lojas e do site da Fnac - Tiago Baptista não esquece que há outras possibilidades de divulgação destes filmes. Foram tiradas cópias de projecção digitais que podem viajar por cine-clubes e por festivais internacionais – e o director do ANIM avança existirem já várias marcações das novas cópias de tiragem digital de Mulheres da Beira e Os Lobos em cine-clubes – , e que permitem também a exibição na televisão, video-on-demand ou serviços de streaming. E se para já a “janela” dá prioridade ao DVD, Tiago Baptista evoca a futura possível disponibilização na Cinemateca Digital ou em plataformas digitais especializadas, dependendo também das questões legais que cada título possa levantar.