Uma louca corrida de “quatro favoritos” gera total incerteza em França

A França tornou-se um “triângulo das Bermudas”, diz um analista. Até agora, Macron e Fillon batiam-se para saber quem defrontaria Le Pen. Mas as sondagens revelam um imprevisível confronto a quatro, em que também entra Mélenchon.

Há quatro candidatos em condições de passar à segunda volta: a indefinição em França é total
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Há quatro candidatos em condições de passar à segunda volta: a indefinição em França é total REUTERS/Eric Gaillard

A campanha oficial para as presidenciais francesas começou ontem. Faltam 12 dias para o voto, no domingo 23 de Abril. Já tínhamos visto quase tudo, mas agora há um “grau de incerteza absoluta e inédita na história da V República” em que “tudo passa a ser possível”, resume o instituto Odoxa. Sete sondagens publicadas no fim-de semana esboçam um novo panorama, com “quatro favoritos” a disputar a primeira volta. Marine Le Pen e Emmanuel Macron mantêm a liderança, mas estagnam ou tendem até a recuar ligeiramente. O esquerdista Jean-Luc Mélenchon ultrapassa o candidato da direita, François Fillon. Todos têm possibilidade de passar à segunda volta, a 9 de Maio.

“Estamos num triângulo das Bermudas em que tudo pode acontecer, é inaudito”, declara ao L’Express Jerôme Fourquet, director do departamento de opinião do instituto IFOP. Do ponto de vista aritmético, a eleição passou a ser uma corrida a quatro. Os próximos dias dirão “se Mélenchon estagna ou se a sua passagem à segunda volta se torna credível. Quanto a François Fillon, ele teve êxito no comício da Porta de Versalhes e quer dar uma chicotada na sua campanha.”

Que dizem estas sondagens? Marine Le Pen aparece cotada entre os 23 e os 25% e Macron entre 23 e 24%. Fillon estará entre os 17 e 20%. Mélenchon entre 18 e 20%. Mas uma sondagem publicada no domingo (instituto Kantar-Sofres) atribui 18% a Mélenchon, um ponto à frente de Fillon, estável nos 17%. O socialista Benoît Hamon está fora da corrida com 9 ou 10%. “O que impressiona é a fluidez dos ‘eleitorados’, que podem passar muito rapidamente de um candidato para outro”, resume Emmanuel Rivière, do Kantar-Sofres.

A surpresa Mélenchon

Mélenchon, candidato da “esquerda da esquerda” e líder do movimento França Insubmissa, mostra uma forte dinâmica, ganhando seis pontos em duas semanas, passando de 12 para 18%. Denuncia as elites e assume-se como “populista”, no sentido que lhe dão os filósofos Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, inspiradores do Podemos espanhol. Lembram alguns analistas que nas presidenciais de 2012 ele chegou a ter 17% das intenções de voto, para acabar a recolher 11,5% nas urnas. O seu “eleitorado” desviou-se para François Hollande, o então “voto útil” da esquerda. Mas as circunstâncias mudaram por completo. Nestas eleições, a bipolarização é secundária. E, ao contrário de há cinco anos, é Mélenchon que espera ainda ter uma oportunidade de crescer arrancando votos ao já vencido socialista Hamon.

O jornalista Laurent Neumann, editorialista da televisão BFMTV, explica que a sua campanha nada tem a ver com a de 2012. “A sua campanha é decalcada da de Bernie Sanders nos Estados Unidos, palavra por palavra, o método, a Internet, as redes sociais...” Por sua vez, o politólogo Marc Lazar sublinha que, se Mélenchon é o candidato “de refúgio” das esquerdas, recusa-se no entanto “a ficar encerrado no campo da esquerda”. Hoje, “dirige-se aos indecisos, aos abstencionistas e aos que votam pela primeira vez”. As sondagens indicam que lidera as intenções de voto, entre os jovens de 18-24 anos.

Fillon permanece estagnado mas não se dá por vencido. Dispõe de uma base eleitoral fiel — 75% das suas intenções de voto são “definitivas”, trunfo que reparte com Marine Le Pen. A fidelização dos votos de Macron é menor — entre 55 e 60%. Fillon espera nesta “recta final” recuperar votos perdidos para a abstenção e para Le Pen. Uma abstenção forte no dia 23 poderá beneficiá-lo.

Marine Le Pen cometeu uma enorme gaffe política ao negar a responsabilidade francesa pela “rusga do Vel’ d’Hiv” de Paris, em 1942, em que mais de 13 mil judeus, dos dois aos 60 anos, foram presos e depois entregues aos nazis. A maioria acabou nos campos de extermínio. A responsabilidade francesa, bem estabelecida pelos historiadores, foi reconhecida por Jacques Chirac em 1995. “Assim se vê que é a filha de Jean-Marie Le Pen”, comentou Macron. Não lhe dará saúde sobretudo na segunda volta: acentua a sua imagem negativa, estimulando o “voto útil” contra o lepenismo.

O problema de Macron é manter mobilizado o seu eleitorado virtual, teoricamente menos coeso do que o dos principais concorrentes. Os adversários concentram o fogo no seu programa económico. As chancelarias europeias “fazem figas” pela vitória do único candidato assumidamente europeísta.

Incerteza até às legislativas

Há um ano, a maioria dos analistas considerava que as eleições primárias serviriam como plataforma de lançamento dos candidatos dos dois grandes partidos, marginalizando os outros. Aconteceu o contrário. Os analistas aguardam o resultado das presidenciais e das legislativas de Junho para diagnosticar a previsível crise dos partidos tradicionais da direita e da esquerda e o seu reflexo sobre o próprio sistema político. Dada a oscilação das sondagens, a prudência é de regra.

Quanto à segunda volta, as sondagens interrogam agora os franceses de outro modo: Macron contra Le Pen; Fillon contra Mélenchon; Macron contra Fillon; ou Mélenchon contra Le Pen? Todas as sondagens indicam que todos venceriam Le Pen, mesmo Mélenchon. Mas hoje ninguém toma nada por garantido.