Crítica

Gisela e o princípio de Peter Pan

Esgotou os coliseus de Lisboa e Porto e esgotou, também, um formato a pedir revisão urgente. O enorme talento de Gisela João exige, de futuro, um passo ousado à sua altura.

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Gisela João no Coliseu dos Recreios na noite de 7 de Abril de 2017 NUNO FERREIRA SANTOS
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Gisela João no Coliseu dos Recreios na noite de 7 de Abril de 2017 NUNO FERREIRA SANTOS

Gisela João provou, mais uma vez, a sua enorme popularidade: esgotou a lotação dos coliseus do Porto (em 31 de Março) e de Lisboa (na noite de 7 de Abril) e teve da parte do público reacções entusiásticas, que foram também mimetizadas pela crítica, até com excessivos arroubos poéticos. Isto, para ela, é a recompensa da felicidade que quer transmitir aos outros, da carga emocional com que se entrega às canções, aos fados, à interpretação que deles faz em palco. Há, nisto, uma mescla de vertigem e medo: vertigem de um sucesso real e medo de que ele um dia desapareça. Não é novidade no mundo do espectáculo e menos no do fado: sabe-se da ânsia com que a genial Amália precisava do reconhecimento do seu público, das muitas atenções que a rodeavam. Só que Amália era já uma artista madura, com um vasto horizonte a rodeá-la, e Gisela é ainda, pese embora o seu visível e comprovado talento, uma principiante. Por isso, o que nela devia agora ser decisivo era a capacidade de surpreender, não de aquietar ou confortar o seu público. Pode ser coisa normal nas redes sociais, esse apascentar de uma legião de fiéis, mas o palco é outro mundo. E ela, que já o sabe por experiência própria, deve deixar de confundir os dois campos.

O espectáculo do Coliseu, único a que este texto se refere, seguiu o formato do anterior. Em contraposição à voz, adulta e madura, por vezes até ao arrepio, o cenário replicou o toque juvenil que lhe é peculiar (e que ela acentua, por exemplo, em pequenos gestos: como o acenar com uma das mãos ou fazer coraçõezinhos pela abertura das cortinas, ainda com a sala às claras), surgindo agora sobre o palco o seu nome (“Gisela”) em tamanho gigante, feito de “flores” coloridas, onde em 2015 se lia “Gisela João” em “nuvens” esbranquiçadas. Replicou-se a ideia do “diário de bordo”, com textos lidos por ela em voz off, mas às ondas imaginárias de 2015 contrapôs-se agora uma sugestão de tempestade, a que um cenário de tiras prateadas iluminado de início por luz branca acrescentou a sugestão de uma chuva torrencial. Podia fazer sentido isto, num mundo tempestuoso como o actual, surgir depois uma voz apaziguante, a devolver-nos o calor. Mas a intenção perdeu-se numa profusão de cores, transformando o que podia ter sido uma boa ideia (desde que sobriamente gerida) num cenário digno de Liberace. Demasiado brilho, ofuscando a música e a voz num constante tremeluzir colorido que diluiu a tempestade em quase caricatura. Além disso, a imposição visual do nome (lembrando, por contraste, o da autobiografia de Capra, O Nome Acima do Título) é já um elemento espúrio: Gisela impõe-se pela voz, pelo talento (ela própria o diz), não por artifícios. Ou seja: sem pôr o nome acima da voz, coisa que aqui se fez.

Podíamos dizer, porém, que a voz de Gisela, e as suas interpretações, resistiram a esta difícil prova; e na maior parte da noite isso foi verdade. Mas mesmo aqui nem tudo correu como seria de esperar, para quem faz questão (e bem) de colocar a fasquia alta. A entrada em cena, depois dos juvenis acenos do início, foi excelente: com os músicos em palco, ela veio do fundo da sala, pelo corredor, a cantar Quando eu era pequenina (tema de romarias da Beira Baixa que Amália, de origens beirãs, popularizou). No palco, ainda o cenário sugeria chuva e já na voz dela surgia o apaziguamento. Depois, vieram os fados: Quando os outros te batem, beijo-te eu (Pedro Homem de Mello), Labirinto ou não foi nada (um poema de David-Mourão Ferreira que ela engrandeceu no Fado Vianinha) e Maldição (o Fado Cravo de Marceneiro num tema que Amália sublimou e que Gisela canta com todo o sentimento). Depois veio O senhor extraterrestre, que Carlos Paião escreveu e Amália gravou em 1983, recuperado e bem por Gisela, mas a versão apresentada em Lisboa surgiu demasiado acelerada, perdendo em relação à que ela gravou no disco. O mesmo sucedeu com O mundo é um moinho, de Cartola, não no aceleramento mas na perda: teve um início desastroso, quase titubeante, e não recuperou inteiramente até final (Gisela haveria de compensar Cartola mais tarde, com uma versão extraordinária da bela As rosas não falam).

Depois, mais fados: Fado para esta noite, que abre com imponência o segundo disco de Gisela, Nua; e Fado da saudade, de José Galhardo, que Amália cantou no filme Fado, História D’Uma Cantadeira (1947) e que teve no Coliseu de Lisboa uma versão tocante. Lá na minha aldeia serviu, depois, de compasso festivo para a solenidade de Naufrágio, poema de Cecília Meireles com música de Alain Oulman, que em 1970 abria o lendário Com que voz (de novo Amália) e que Gisela homenageou com uma versão digna e sentida no seu novo disco. Um momento instrumental, pelo trio que a acompanha (Ricardo Parreira, guitarra portuguesa; Nelson Aleixo, viola de fado; Francisco Gaspar, viola baixo), deu-lhe uma ligeira folga para um rápido regresso, com Sombras do passado (um dos originais do novo disco, de Ana Sofia Paiva e Frederico Pereira) e Há palavras que nos beijam (Oulman, agora com poema de O’Neill). Por fim, Noite de São João, de Capicua (tema que Gisela já cantava antes de gravar), e, por fim, dois momentos extraordinários: As rosas não falam, de Cartola, e o tradicional latino-americano La llorona.

A noite não ficaria por ali. Houve dois extensos encores, aliás previstos (para o caso de haver clima no público para tal, e houve). E neles, sem que o cenário deixasse de tremeluzir com incómoda insistência, Gisela parecia ter renascido. Naquela noite em Janeiro surgiu vibrante, (A casa da) Mariquinhas soou ajustada, Vieste do fim do mundo e Voltaste trouxeram-nos aquela boa chama que Gisela acendeu nas nossas memórias e, a fechar, o popular Bailarico saloio foi um justo remate festivo. Já o derradeiro encore, além do instrumental Canto de rua, de Carlos Paredes (incluído no disco de estreia e ali tocado com garbo), trouxe mais um dos temas que Gisela fez renascer, Meu amigo está longe (de Ary dos Santos e Alain Oulman, imorredouro na voz de Amália) e Antigamente (de Manuel de Almeida), este bem mais “corrido” do que o tema pede, fazendo do emblemático fado um tropel apressado. Ela já o cantou bem melhor.

Em 2015, a propósito do concerto de Gisela João no Coliseu de Lisboa, escrevi: “o futuro é o seu maior desafio.” Gostava de ter escrito, agora, que esse desafio foi encarado e levado a sério, mas isso ainda não sucedeu. Nua prolonga, em disco, o estado de graça de Gisela João; e, em palco, mantém-se o mesmo universo onírico e juvenil que foi associado ao seu antecessor. Em termos artísticos, isto é como uma espécie de limbo. Gisela João precisa, agora, de se libertar do tufo de folhos brancos com que invariavelmente surge vestida, precisa de deixar de lado a ostentação das nuvens, das flores, do nome em parangonas, para se concentrar no que tem de mais precioso: a voz e a capacidade interpretativa. Os que hoje a aplaudem a qualquer passo ou piscar de olhos, embevecidos e acríticos, serão os primeiros a virar-lhe as costas quando a “moda” que a pretexto dela inventaram se esgotar. As luzes dos cenários não a engrandecem, ofuscam-na. E ela terá de saber libertar-se, escolhendo por si mesma um caminho onde, com segurança, se afirme e cresça. Para isso, precisa de deixar de lado o princípio de Peter Pan (o de um mundo de sonho, que se vai tecendo à sua imagem e que outros endeusam ou caricaturam) e elevar a voz acima do nome, não o nome acima da voz. Porque é esta a sua maior garantia de futuro, na música e no fado.