Editorial

A saúde a tempo e horas

Talvez a reorganização dos serviços, pensada de acordo com a proximidade e a rapidez, seja mais do que um paliativo.

Os tempos de espera quer para uma cirurgia quer para uma consulta de especialidade são uma doença crónica do Serviço Nacional de Saúde. No primeiro caso, podem ser fatais. No segundo, há uma série de danos colaterais a ter em conta, que contradizem o direito a serviços públicos de saúde num período de tempo clinicamente razoável. São vários os hospitais que não conseguem garantir uma consulta de especialidade (não urgente) no prazo de 150 dias previsto por lei e que obrigam a tempos de espera que podem chegar a dois ou três anos.

Os atrasos têm consequências clínicas para quem espera, mas também para o congestionamento do próprio sistema. Na prática, a demora drena utentes para a oferta privada, aumenta as despesas familiares, entope as urgências e espelha um outro problema do país: a forma assimétrica como a população se concentrou e o Estado distribuiu os seus serviços pelo território. O acesso à saúde pública está, mais do que nunca, fragilizado em zonas mais afastadas dos grandes centros urbanos do litoral. Mesmo no Algarve, faltam médicos em determinadas especialidades, que põem em causa o acesso rápido e básico a consultas como as de dermatologia. O país assimétrico, e dual, não é muito atraente para os médicos, apesar de todas as políticas de incentivo à fixação levadas a cabo nos últimos anos. E o círculo vicioso está à vista: os jovens profissionais não se candidatam às vagas longe de Lisboa e Porto, os especialistas saem e os hospitais perdem capacidade formativa e de resposta a tempo e horas.

De pouco valerá a intenção do Governo de baixar o prazo máximo de espera para quatro meses se se mantiver este desencontro entre procura e oferta em certas especialidades. Resta a mobilidade, a possibilidade de escolha de um outro hospital, para quem não tem condições económicas para recorrer ao sector privado. E restam as soluções de recurso para a sobrevivência do próprio sistema: a contratação de médicos a empresas de prestação de serviços.

Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, diz que os hospitais precisam de ter autonomia de gestão e de organizar-se de outra forma, por exemplo, criando “postos avançados, clínicas próximas das pessoas”. Talvez a reorganização dos serviços, pensada de acordo com a proximidade e a rapidez, seja mais do que um paliativo.