Algarve oferece “pacote de incentivos” para atrair mais 300 bombeiros

Os operacionais preferem trabalhar como empregados de mesa a ficar de piquete para apagar fogos. “Uma mulher a passar a ferro, ganha mais do que um bombeiro”.

Rui Gaudencio
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Rui Gaudencio

Servir à mesa dos cafés ou arrumar cadeiras nas esplanadas parece ser uma actividade mais apelativa (leia-se melhor paga) do que apagar fogos. Os municípios algarvios, com o Verão à porta, queixam-se que não há bombeiros que cheguem para formar as equipas do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF). “Nesta altura do ano, o Algarve é uma região muita atractiva de mão-de-obra”, queixa-se o presidente da Assembleia Gera da Federação dos Bombeiros do Algarve, Rui André, autarca de Monchique, lamentando a falta de candidatos a ingressar nos bombeiros. “Uma mulher a passar a ferro ganha mais do que um bombeiro”, adianta.

A Comunidade Intermunicipal do Algarve — Amal, na reunião que decorreu nesta sexta-feira entre presidentes de câmara, analisou a questão levantada por Rui André, tendo decidido formar um “grupo de trabalho” para lançar um campanha destinada a atrair jovens bombeiros. O presidente da Associação Humanitário dos Bombeiros de Vila Real de Stº António, Nuno Pereira (vereador na câmara de Castro Marim), afirmou: “Os bombeiros voluntários só são voluntários de nome — se não houver dinheiro para pagar os serviços, não temos ninguém”.

No ano passado, a Amal já tinha atribuído um subsídio extra de 15 euros por cada turno de 12 horas, em cima dos 45 euros pagos pela Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). Para o próximo Verão, os municípios admitem oferecer um “pacote de incentivos” que poderão ir da redução da taxa do pagamento de água ao apoio à habitação. “Precisamos de bombeiros”, sublinha Rui André, prevendo que vá existir “dificuldade em formar as equipas” que garantam um Verão em segurança.

“É necessário dignificar a profissão de bombeiro”, acrescenta o presidente da Amal, Jorge Botelho, apoiando a ideia de uma “campanha” promocional da importância social de uma actividade nem sempre reconhecida. O presidente de Monchique — uma das serras sistematicamente fustigado pelos incêndios — acha que o subsídio que é oferecido não paga o trabalho: “Os bombeiros, mesmo os profissionais, preferem ir trabalhar para um hotel a servir às mesas do que alinhar nas equipas de piquete porque ganham mais dinheiro”.

O presidente da câmara de São Brás de Alportel (onde se integra a serra do Caldeirão) defende que se deve aplicar na região os incentivos que este município já pratica: “Os bombeiros, neste concelho, têm taxa de redução de 50% no pagamento da água e entrada gratuita nas piscinas municipais e espectáculos”. Além destas benesses, diz, “devem ser equacionados outros apoios, que poderão passar pela redução da taxa do IMI ou apoio ao arrendamento da habitação”. O vencimento médio dos 70 bombeiros da corporação, acrescenta o autarca, é de 600 euros a que acrescem os subsídios.

A região do Algarve, concretiza Rui André, dispõe de cerca 1200 bombeiros, sendo necessários mais 300.

Muitas solicitações

Nos concelhos de Vila Real de Stº António e Castro Marim, o dispositivo é composto por 70 elementos — 40 profissionais e 30 voluntários. “Há cada vez menos voluntários porque os jovens, principalmente na zona litoral, preferem actividades sazonais ligadas ao turismo”, enfatiza Nuno Pereira.

Mas a falta de recursos não se faz sentir apenas no combate aos incêndios. Rui André aponta ainda o facto dos bombeiros com formação específica no transporte de doentes estarem a ser disputados para outros serviços: “São cada vez mais as solicitações para trabalharem para os privados ou directamente no INEM”. A situação, diz, “por vezes deixa as corporações desguarnecidas porque os bombeiros que transportam doentes também apagam fogos”.