Editorial

Carlos Costa fez escola no Governo

O Montepio também poderá ser um case study e mostrar que, afinal, apesar de tanta crítica, a forma de actuar de Carlos Costa fez escola no Governo.

Sabemos que a resolução do Banco Espírito Santo (BES) é um case study na opinião do governador do Banco de Portugal. Foi Carlos Costa quem o disse na Assembleia da República. É, aliás, uma afirmação irrefutável. Portugal serviu de cobaia, foi caso único na Europa e as perdas que o colapso do BES trouxe ao país não sairão do nosso horizonte durante décadas. Merece ser estudado.

Não sabemos se numa realidade alternativa seria diferente. E se o Banco de Portugal tivesse actuado mais cedo sobre o BES, quando o assunto já andava há anos nas páginas dos jornais? E se o BES tivesse sido nacionalizado após o colapso? E se tivesse sido dado mais tempo ao Novo Banco e só posteriormente fosse vendido? Nunca saberemos. Hoje é tempo de minimizar perdas.

Na novela em torno da Associação Mutualista Montepio Geral e da Caixa Económica Montepio Geral estamos na fase em que ainda há quase tudo para fazer. Mas a forma como o Banco de Portugal e o Governo atacam os desafios não deixam antever o melhor dos desfechos.

Os problemas no universo Montepio também andam nas páginas dos jornais há anos. E, em 2015, o Banco de Portugal, que tutela a Caixa Económica, decidiu intervir. Obrigou à separação entre a liderança da Associação Mutualista e da Caixa. Já aqui o escrevemos, mudou e deixou tudo na mesma. António Tomás Correia, que até então acumulava a liderança da Associação com a Caixa, ficou a mandar em quem manda na Caixa. E para a Caixa entrou uma nova equipa “apadrinhada” pelo Banco de Portugal, mas sobre a qual o próprio Banco de Portugal já tem dúvidas. O Banco de Portugal fez mais. Autorizou a Caixa Económica a transformar-se numa sociedade anónima para assim permitir a entrada de novos parceiros e agora pressiona o banco Montepio a mudar de nome, sem se perceber com que objectivo e proveito.

Já em 2017 voltaram os problemas com as contas da Associação, esta, por sua vez, tutelada pela Segurança Social. E vieram as dúvidas sobre o tipo de supervisão que é realmente exercida sobre a Associação e sobre os seus produtos financeiros que são vendidos aos balcões da Caixa Económica. E vieram a público os processos judiciais em que Tomás Correia é suspeito.

E o que fez o Governo para além das declarações públicas a desdramatizar a situação? Pouco ou nada. Legislou para que a supervisão dos produtos financeiros passasse para o supervisor dos seguros? Ainda não. Criou um fundo que garanta os investimentos dos subscritores dos produtos financeiros emitidos pela Associação Mutualista? Ainda não. Retirou a “idoneidade” a Tomás Correia? Ainda não.

Mas fez alguma coisa. De forma atabalhoada e mostrando sinais de desespero, tenta empurrar a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e as misericórdias em geral para dentro da Caixa Económica. Para quê? Para mudar e deixar tudo na mesma.

O Montepio também poderá ser um case study e mostrar que, afinal, apesar de tanta crítica, a forma de actuar de Carlos Costa fez escola no Governo.