Opinião

Atenção à escola

O regime de atenção a que fomos induzidos pelos novos media tem fortes repercussões em todos os domínios da vida intelectual e muito especialmente na escola.

As sociedades desenvolvidas forneceram às instituições de ensino — escolas e universidades — o ambiente, os recursos e as regras para o cumprimento de tarefas que exigem a atenção profunda: o estudo, a aprendizagem, a tomada de consciência. A ideia de “atenção profunda” tornou-se quase um conceito, numa altura em que começaram a surgir estudos sobre uma nova economia, a economia da atenção, de onde emergiu uma verdadeira disciplina chamada neuro-marketing que estuda a actividade cerebral para orientar as técnicas de captação da atenção do consumidor. A atenção deu origem a uma economia e a uma ecologia porque se tornou um bem difícil de obter e pelo qual todos lutam. Mas o conceito de atenção profunda não nasceu no campo desta nova economia. Devemo-lo a uma professora da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, chamada N. Katherine Hayles, que desenvolveu a sua ideia de deep attention num artigo de enorme sucesso, publicado em 2007, numa revista especializada. Em oposição à deep attention, a autora definia a hyper attention. Enquanto a primeira se caracteriza pela incidência num único objecto durante muito tempo (a autora dá como exemplo a leitura de um romance de Charles Dickens), a segunda procede por rápidas oscilações entre diferentes tarefas e múltiplos fluxos de informação, buscando altos níveis de estimulação exterior; os tempos longos de que a primeira necessita são, para a segunda, causa de um tédio intolerável. Segundo Hayles, esta diferença cognitiva entre uma atenção profunda e uma hiperatenção é a marca de uma mudança geracional. O livro, o medium tradicional que assegurou a  eficácia do ensino, ao longo de gerações e gerações, e promoveu a transmissão e a acumulação de saber, tornou-se de uso difícil para quem foi imerso desde a infância nos media digitais (e Hayles fornece números espantosos, retirados de um relatório que, em 2007, tinha sido acabado de publicar: os jovens americanos dedicavam, em média, seis horas e meia, por dia, nos novos media, muitos deles interactivos. À altura destes números, indiciando um uso maciço, estão os resultados estatísticos relativos ao uso de psicofármacos estimulantes da concentração por parte dos estudantes universitários dos Estados Unidos. A partir de um certo limite, o défice de atenção profunda é categorizado como uma doença (um dos seus nomes é aquilo a que hoje se chama, no ambiente escolar, “hiperactividade”), mas Katherine Hayles mostra que os dois regimes de atenção têm vantagens e desvantagens. E uma combinação equilibrada das duas seria muito interessante para a pedagogia. O problema é que a hiperatenção ganhou uma força descontrolada, generalizou-se, e veio provocar uma desordem. Os efeitos são irreversíveis: as crianças que cresceram em ambientes dominados pelos media são capazes de conexões diferente daquelas que atingiram a maturidade noutras condições.

Quem fez toda a sua formação escolar antes da mudança induzida pelos media digitais, de massa, quando o livro e a leitura eram os meios que reconfiguravam quase toda a actividade intelectual que a escola requeria, foi apanhado nesta mudança geracional quanto à capacidade de atenção. Muita gente ainda não percebeu o que se passou. Mas isso pouco importa. O que é lamentável e bloqueia toda a discussão séria e produtiva é que são precisamente alguns dos que não perceberam ainda nada e não têm qualquer contacto com salas de aula (seja em escolas, seja em universidades) que continuam a debitar a ladainha por uma escola que preserve modelos e exigências de um outro tempo, como se não tivesse havido uma cesura.