A boa saúde do jazz português ausculta-se no São Luiz

Na sua 15.ª edição, a Festa do Jazz continua a funcionar como montra do jazz que se produz em Portugal e a tentar colocar em discussão de onde vem e para onde vai esta música, a partir da criação de um espírito de comunidade.

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Luís Barrigas Isabel Rato
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Lisbon Freedom Unit Nuno Martins

Cumpre-se com esta Festa do Jazz a 15.ª edição de um acontecimento que se tornou essencial no calendário anual do jazz português, um momento de encontro entre a comunidade e da celebração de uma presença cada vez mais sólida na música nacional. Com a passagem dos anos, torna-se não apenas evidente uma qualidade crescente dos executantes, mas também uma diversidade de linguagens entusiasmante, libertando-se dos mandamentos académicos. Passou também tempo suficiente para ser possível testemunhar a evolução e afirmação de jovens talentos, cujas primeiras passagens pela Festa se fizeram integradas nos combos das escolas, ainda a dar os primeiros passos de uma carreira pública, e que nos casos mais fulgurantes encontramos já a liderar os seus próprios projectos e a partilhar o palco principal do Teatro São Luiz, em Lisboa, de sexta-feira a domingo, com os seus heróis.

Tem sido assim todos os anos e em 2017 não será excepção, com as actuações do ensemble Home (do acordeonista João Barradas, sábado, 15h30) ou do grupo liderado por João Mortágua (domingo, 21h30), a constituírem exemplos perfeitos de músicos cujo trajecto na Festa do Jazz tem acompanhado a sua ascensão à primeira linha do jazz nacional. A estes juntam-se nomes estabelecidos como Joana Machado (sábado, 18h30), Clocks and Clouds (um quarteto de luxo formado por Luís Vicente, Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino e Marco Franco, sábado, 17h00), Bruno Pernadas (sábado, 21h45) ou José Salgueiro com o seu projecto Transporte Colectivo (em que encontramos também João Paulo Esteves da Silva ou Mário Delgado, sábado, 23h00). Ao elenco da Festa passou também a juntar-se, desde 2016, o vencedor do Prémio de Composição Bernardo Sassetti, atribuído pela Casa Bernardo Sassetti e pela associação Sons da Lusofonia (organizadora da Festa) – que este ano distingue o baterista Pedro Melo Alves, com actuação marcada para sábado, pelas 19h30.

No programa de domingo, dois concertos são prova da vitalidade e da amplitude de propostas que o jazz português hoje comporta. O pianista Luís Barrigas (18h30) apresenta o álbum Songs With and Without Words, de forte cunho melódico, e a Lisbon Freedom Unit (19h30) junta um autêntico supergrupo da música mais exploratória que o género pode oferecer.

As canções de Barrigas

Inspirado por uma ideia que não seria novidade para Mendelssohn na música romântica ou por Fred Hersch no jazz, Luís Barrigas começou por abordar o seu segundo álbum enquanto líder compondo peças para piano a que pensou chamar “canções sem palavras”. Aos poucos, no entanto, algum desse material começou a pedir-lhe letras, e decidiu juntar à sua composição a “grande paixão” de adolescência pela poesia, que não perdeu fulgor desde essa altura. Experimentou então juntar palavras a alguns dos temas, de onde nasceu a ideia fundamental do seu Songs With and Without Words.

O trabalho que o pianista tinha já anteriormente desenvolvido com as cantoras Sofia Vitória e Guida de Palma ajudou a dar substância a esta ideia. Se, num primeiro momento e quando ainda imaginava um disco inteiramente instrumental, chegou a pensar em música que incluiria um quarteto de saxofones, a inclusão de texto cantado transformou esse desejo num ensemble que conta com dois saxofones (Desidério Lázaro e João Capinha) e as duas cantoras (que tanto assumem as letras como utilizam as vozes como instrumentos de sopro).

Não respeitando com rigor aquela que é a estrutura convencional de canção, as composições de Barrigas tanto evocam o universo do lied no canto lírico quanto os standards de jazz e, em particular, um traço do jazz com assinatura portuguesa. “As canções obedecem a um conceito em que a melodia é preponderante, mais orelhuda”, reconhece, “e em que se sentem correntes que têm que ver com as pessoas com quem estudei, como o João Paulo Esteves da Silva e o Mário Laginha, assim como com o Bernado Sassetti.” Através de Sassetti, diz, chegou também ao compositor catalão Federico Mompou, cuja sombra se faz sentir também neste reportório. A Satie foi buscar também a ideia para Esoteric, a Messiaen pediu emprestada a densidade de No Song at All.

“O disco está cheio de influências e de homenagens”, reconhece, desde músicos a viagens, encontros e pintura. O impressionismo de Monet, por exemplo, deixa na sua criação uma marca tão forte quanto a mais profunda das suas referências puramente musicais.

A liberdade lisboeta

A fermentar há muito na cabeça do guitarrista Luís Lopes, a Lisbon Freedom Unit (LFU) nasceu no final de 2015 para juntar numa só formação muitos dos mais inquietos intérpretes da música improvisada e exploratória da cena lisboeta. São nove “tipos intensos” (Lopes, Rodrigo Amado, Rodrigo Pinheiro, Ricardo Jacinto, Pedro Sousa, Gabriel Ferrandini, Hernâni Faustino, Pedro Lopes e Bruno Parrinha), de diferentes gerações, que encontram neste projecto uma espécie de montra alargada do que significa esta música numa cidade como Lisboa – à semelhança do que acontece com formações análogas que “dão a cara” por localidades europeias de firme implantação no jazz vanguardista.

Embora o rastilho tenha sido aceso por Luís Lopes, o maior chamariz (e também a sua dificuldade mais presente) da LFU reside no facto de reclamar uma verdadeira identidade colectiva, em que todos contam e não há um líder óbvio. Tanto assim que, para “colar” as várias personalidades, Lopes lançou como primeiro mote o livro O Elogio da Loucura, de Erasmo. “Somos todos muito intensos”, defende. “E o livro, que é incrível e foi muito importante para mim, embora escrito há muito tempo tem que ver com este tipo de situações.” Essa loucura auto-identificada, e acarinhada como uma característica que nada carrega de negativo, ficou de tal forma associada à semana que marcou o nascimento da LFU que, de vez em quando, Lopes tem de responder à pergunta “Então os malucos? Como é que está isso?”

Não está mais avançado porque o resultado dessa semana inaugural, com concertos na Zé dos Bois e na Sociedade Musical União Paredense, e dois dias de estúdio, esteve em apurada reflexão e selecção de material durante 2016. “Precisámos de algum distanciamento para avaliar a música que gravámos na altura”, diz o guitarrista. “E então fizemos uns jantares em minha casa, em que ouvíamos a música, tirávamos apontamentos, escolhíamos, para tentarmos criar uma conformidade.” Desse processo resultou a escolha de 70 minutos que, a qualquer momento, poderão ver a luz do dia como disco de estreia do projecto. Até lá, a melhor oportunidade de conhecer esta liberdade de nove cabeças é mesmo dar um pulo até ao São Luiz, no domingo.