Crítica

Um retrato impiedoso da China de Mao

Um retrato impiedoso da China de Mao, que a consegue descrever sem entrar de maneira óbvia nos aspectos políticos: Crónica de Um Vendedor de Sangue, de Yu Hua.

Foto
Crónica de Um Vendedor de Sangue é um dos dez livros mais influentes na China nas últimas décadas

Yu Hua (n. 1960) é tido pelos conhecedores como um dos mais importantes escritores contemporâneos chineses. Autor de três romances, e de algumas colectâneas de contos e outras de ensaios, a sua obra está traduzida para várias línguas europeias; em 2002 tornou-se o primeiro escritor chinês a ser distinguido com o prestigiado James Joyce Foundation Award. O romance Crónica de Um Vendedor de Sangue — o primeiro título de uma série em que a editora Relógio d’Água promete publicar clássicos contemporâneos da literatura chinesa, traduzidos a partir do original — é considerado um dos dez livros mais influentes na China nas últimas décadas.

Crónica de Um Vendedor de Sangue é um retrato impiedoso da China comandada por Mao, mas descrevendo-a, e curiosamente, sem entrar de maneira óbvia e directa nos aspectos mais políticos dessas décadas. Xu Sanguan, o protagonista, trabalhava como distribuidor de casulos na fábrica de seda da cidade. Era um jovem de vinte anos por volta de 1950, filho único, e decidiu que tinha chegado a altura de se casar. Mas com o ordenado que ganhava na fábrica de seda, dificilmente conseguiria manter uma família. Entretanto, na aldeia onde vivia um tio, ouviu dizer que os homens que não vendem sangue não arranjam mulher. “Se queremos casar ou construir uma casa precisamos do dinheiro do sangue. O que ganhamos da terra mal chega para matar a fome.” (A metáfora do sangue aqui serve como algo a que se recorre quando a força do trabalho não é suficiente para sobreviver, é o ‘vender a alma’, o compadrio e a corrupção.) E assim, decidiu também ele ir ao hospital da cidade vender sangue.

Quem decidia a compra, se alguém podia, ou não, vender, era Li, conhecido pelo “chefe do sangue”, um mafioso que se fazia pagar de diferentes maneiras, entre as quais a oferta de melancias ou de favores sexuais. Xu Sanguan conhecia-o de vista, de quando o chefe Li visitava a fábrica e comprava crisálidas dos bichos de seda para comer, e fazendo notar o facto logo foi dispensado das habituais análises para averiguar do seu estado de saúde. E vendeu sangue pela primeira vez, ao que se seguiu o tradicional repasto de travessas de fígado frito de porco e de taças de licor de arroz. “Este dinheiro do sangue não se pode gastar de qualquer maneira, tem de ser para uma coisa importante”, dizia-se. E Xu Sanguan usou-o para falar com o pai de uma rapariga, Xu Yulan, vendedora de farturas, que estava noiva de outro homem. O noivado foi desfeito, e passado um mês casaram-se os novos nubentes. “A força do sangue vale mais dinheiro do que a dos músculos”, parece ter sido a lição ouvida pela rapariga.

Yu Hua retrata a China pobre dos trabalhadores agrícolas e dos operários, das dificuldades económicas, da fome, do obscurantismo, mas também da capacidade de sobreviver, de cair e de se tornar a levantar. A acção decorre entre os anos 1950 e 1980, numa China supersticiosa e rural, atravessando a Revolução Cultural de Mao. A partir da vida de Xu Sanguan, um homem comum, sem nada que o diferencie dos outros operários, Yu Hua consegue dar ao leitor quadros da vida chinesa desses anos, como por exemplo as humilhações de inocentes em sessões públicas apenas para representarem o papel dos ‘modelos’ alvos do regime, como as prostitutas e os latifundiários.

A escrita aparentemente simples de Yu Hua aproxima-se muito do modo tradicional de contar, sobretudo do narrar oral, com recurso, por vezes, à repetição de frases, ou mesmo de pequenos trechos, que servem como uma espécie de estribilho para marcar e sublinhar a acção; é também frequente o narrador introduzir o discurso directo (a outra voz de uma personagem). Crónica de Um Vendedor de Sangue é um romance que impressiona de vários ângulos, mas sobretudo pela sua intensidade emocional e franqueza das vozes, num mundo de trevas onde parece que nada pode ser dito ou sentido.