Crítica Cinema

Sean Penn e o sofrimento africano

Viagem no comboio-fantasma do caos africano, muita violência, muito sangue, muita mutilação, e muita compaixão mostrada ao ralenti.

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A queda para o sacrifício gráfico e para a compunção auto-flagelatória
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Há um momento, logo no princípio do filme, em que Javier Bardem, na pele de um cirurgião que está a operar numa altura em que se começam a ouvir explosões lá fora, pede aos seus colegas: “focus! focus!” (“foco! foco!”). A piada é logo irresistível: Bardem bem podia estar a dirigir-se ao director de fotografia (Barry Ackroyd, habitual operador de Paul Greengrass), tal a quantidade de efeitos na superfície da imagens, flous, desfoques, etc, que enxameiam essa cena, e ficam para o resto do filme.

O travelling de Kapo foi há muito tempo, e parece uma coisa cada vez mais inocente dada a maneira como progrediu a espécie de “inconsciência” (?) que leva ao embelezamento do sofrimento como forma de cativar a empatia do espectador. De modo que um filme como The Last Face, mal ou bem, não ofende nem escandaliza, apenas exaspera e envergonha (o mesmo tipo de exasperação e vergonha que Serge Daney exprimiu num texto sobre o videoclip dos USA for Africa, recentemente publicado em Portugal numa antologia do crítico francês, O Cinema que faz Escrever) — exaspera e envergonha que o sofrimento dos africanos da Libéria e de outros sítios, afligidos por guerras civis, fomes e outras selvajarias, tenha que ser servido em linguagem de publicidade a telemóveis ou refrigerantes, e mediado pelo olhar de vedetas do coturno de Javier Bardem ou Charlize Theron, para se tornar apreensível por um espectador comum.

Bem intencionado, certamente que Sean Penn é. Tanto assim que em The Last Face, e na sequência do que tem sido uma faceta importante da sua vida pública dos últimos anos, troca o cinema pelo proselitismo activista. Muito paternalista, também, ou mesmo terrivelmente paternalista no seu olhar sobre África e os africanos.

É verdade que no seu cinema como realizador o sofrimento sempre marcou presença, lembrem-se os calvários simétricos de Jack Nicholson e David Morse em The Crossing Guard, filme não desprovido de singularidade e de uma certa força. Mas aqui a única expiação que se vê é eventualmente a do próprio Penn, convertida na história sacrificial do casal de médicos devotados ao trabalho voluntário em África. Mas nem sequer dá para acreditar naquelas personagens, nem naquela história contada em fragmentos e flash-backs sempre a tenderem para uma gravidade feita de plástico e efeitos fotográficos (é possivelmente “o efeito Iñarritu”, com quem aliás Penn já trabalhou). Depois, é só a viagem no comboio-fantasma do caos africano, muita violência, muito sangue, muita mutilação, e muita compaixão mostrada ao “ralenti”.

Estão em polos opostos do espectro político (um à esquerda, outro à direita), mas entre Sean Penn e Mel Gibson (o Gibson de Hacksaw Ridge ou de A Paixão de Cristo) há isto em comum, esta queda para o sacrifício gráfico e para a compunção auto-flagelatória. Se um dia calha associarem-se deve atingir-se um novo patamar nos retratos cinematográficos do sofrimento — mas se esse dia vier, restará ao espectador sensato correr para o abrigo mais próximo.