António Filipe Pimentel: "Relatório prova que a pintura é autêntica"

Estudo material realizado a pedido do Museu de Arte Antiga certifica a datação da obra Chafariz d'El Rey que faz parte da exposição A Cidade Global.

O quadro <i>Chafariz d’el-Rei</i> que está na exposição <i>A Cidade Global</i>
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O quadro Chafariz d’el-Rei que está na exposição A Cidade Global Associação de Coleções / The Berardo Collection

O resultado do estudo técnico à pintura Chafariz d’El Rei “contradiz teorias divulgadas pelo semanário Expresso”, escreve em comunicado o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). A obra feita sobre madeira, analisada por dois laboratórios portugueses e que pertence ao empresário Joe Berardo, “terá sido executada muito provavelmente” por um pintor do Norte da Europa, ou seguidor desta escola, “a partir da segunda metade do século XVI”.

A autenticidade desta pintura, bem como de outra, foi questionada em Fevereiro nas vésperas da inauguração da exposição A Cidade Global. Lisboa no Renascimento, por dois artigos distintos publicados no semanário e assinados por jornalistas da casa e pelo historiador Diogo Ramada Curto, argumentando que a obra podia ter sido realizada no século XX, ou seja, era falsa.

Agora, poucos dias antes do encerramento da exposição (este domingo às 20h), o MNAA responde com um comunicado de imprensa em que defende a sua honra: “Sendo, pois, inquestionável o valor histórico e documental de ambas as pinturas como testemunhos contemporâneos da realidade urbana que a evolução da cidade de Lisboa e o Terramoto de 1755 definitivamente ocultaram, confirma-se a justeza da sua integração na exposição.” O chafariz D’El Rei, representado na obra, foi radicalmente alterado na década de 1590.

O estudo encomendado pelo MNAA  foi feito pelo Laboratório José de Figueiredo, da Direcção-Geral do Património Cultural, e pelo Laboratório Hercules, da Universidade de Évora, com uma equipa científica de sete elementos. 

Ao PÚBLICO o director do MNAA, António Filipe Pimentel, afirma que "as análises vêm confirmar que a pintura é coeva". "É da segunda metade do século XVI ou primeira metade do século XVII, mas uma primeira metade muito curta, das primeiras décadas", acrescenta. "Contra aquilo que se levantou, que a pintura era falsa e feita no século XX, o relatório prova que a pintura é autêntica. Contra a palavra ‘falsa’ existe agora a palavra 'autêntica', se quisermos usar uma palavra tão grosseira quanto a outra. O interesse do relatório é que confirma a datação que a crítica historiográfica lhe tinha atribuído." 

O relatório sumário da equipa científica, também divulgado pelo MNAA, conclui “que não existem dados que coloquem em causa a cronologia proposta no âmbito da história da arte” e que data o Chafariz d’El Rei de “finais do século XVI”. E estes resultados, acrescenta o documento, "são consentâneos com o estudo realizado em 2001 ao mesmo painel por um laboratório espanhol". 

O relatório explica que a datação do século XVI é consentânea com “o uso generalizado do pigmento azul de esmalte” e de um tipo de preparação sobre a qual é executada a obra, chamada “imprimadura corada”. “É uma camada muito fina que se coloca por cima da preparação do suporte [madeira] e que depois recebe a pintura propriamente dita”, explica José Alberto Seabra, director adjunto do MNAA. Como dizem que essa camada é corada e não branca, “significa que é uma obra que está na transição do século XVI para o século XVII. Os dados físico-químicos não podem comprovar uma datação rigorosa, uma década, mas dão-nos em que época a pintura foi feita”.

O pigmento azul de esmalte é um vidro com uma composição com potássio e cobalto que só começa a ser utilizado a partir da segunda metade do século XVI e deixa de aparecer nos finais do século XVIII. "Era o único pigmento feito de vidro moído reduzido a pó. É um vidro que se degrada facilmente, o que podemos ver na pintura, e é um indicativo de que a obra é antiga", explica ao PÚBLICO António Candeias, director do Laboratório Hercules e coordenador científico do Laboratório José de Figueiredo.

António Candeias conclui que não há nada que esteja em contradição com a datação conhecida — o catálogo da exposição propõe cerca de 1570-80. "Não há nada que seja anacrónico com essa data. Não foi identificado nenhum material nas camadas originais que não seja do período de que se supõe ser a obra. Isso é um forte indício de que a pintura corresponde ao período proposto pela história da arte."

A outra pintura cuja datação foi também posta em causa é a Vista da Rua dos Mercadores (1570-1619), o centro desta exposição comissariada pelas historiadoras Annemarie Jordan Gschwend e Kate Lowe, autoras de um livro em que identificam esta obra propriedade da Sociedade de Antiquários de Londres como sendo uma representação da Rua Nova dos Mercadores (The Global City. On the Streets of Renaissance Lisbon). A artéria simboliza para as historiadoras a transformação de Lisboa numa cidade global durante o Renascimento e é o centro da exposição do MNAA.

No entanto, a sociedade britânica não autorizou que fossem feitos em Portugal exames técnicos à Vista da Rua dos Mercadores, mas defende, citada pelo comunicado do MNAA, que “é impossível que as pinturas sejam falsificações do século XX, como foi especulado”.

Segundo o relatório sumário do estudo técnico e material, foram realizados vários exames — como fotografia de fluorescência de ultravioleta, reflectografia de infravermelhos, radiografia de raios X e espectrometria de fluorescência de raios X — e recolhidas seis micro-amostras da camada pictórica. Foi a análise dos cortes estratigráficos destas amostras que permitiu a identificação de pigmentos e de aglutinantes. Além do pigmento azul, na cronologia de utilização dos pigmentos "verificou-se que a paleta cromática se enquadra nos materiais utilizados no período entre os séculos XV e XVII”, lê-se no relatório, nomeadamente em relação ao amarelo de chumbo e estanho, que deixa de ser utilizado a partir do século XVIII, explica António Candeias, coordenador científico do relatório. O óleo de linho, usado como aglutinante, mostra-se também "bastante envelhecido", escreve-se no relatório, outro indicador de que a obra é antiga.

Embora não tenha sido possível desemoldurar a pintura, conseguiu-se recolher uma amostra de madeira sobre a qual a pintura é executada. O suporte é de casquinha, um pinho típico do Norte da Europa, o que não permite uma datação por radiocarbono mais exacta. Mas, continua o coordenador científico do estudo encomendado pelo MNAA, o estudo "foi bastante simples do ponto de vista analítico, porque não houve nada de muito estranho". "Claro que isso abona a favor da autenticidade da obra."

Contactado pelo PÚBLICO, o historiador Diogo Ramada Curto afirma apenas que distingue as análises das conclusões do relatório. "As conclusões a que o relatório chega não ficam demonstradas no exame, sem nunca pôr em causa a idoneidade dos investigadores."